Precários - Indignados - Mobilizados


Tela quente

Ricardo Antunes

O ano de 2011 começou com a temperatura social alta: na Grécia, várias manifestações se sucederam, repudiando o receituário da constrição de tudo que é público em benefício das grandes corporações. E a pólis moderna presenciou uma nova rebelião do coro.
Depois, veio a revolta no mundo árabe: cansados do binômio ditadura e pauperismo, riqueza petrolífera e fruição diamantífera dos clãs dominantes, a Tunísia deu o pontapé inicial. A forte revolta popular, com boa organização sindical, derrubou a ditadura de Ben Ali.
Os ventos rapidamente sopraram para o Egito: manifestações plebiscitárias diuturnas na praça Tahrir, conectadas pelas redes sociais, exigiam dignidade, liberdade e o fim da ditadura de Mubarak.
Seguiram-se manifestações na Argélia, na Jordânia, na Síria e na Líbia, dentre tantas outras partes que ardem no mundo do combustível fóssil. E Gaddafi viu seu poder desmoronar.
Os indignados na praça Puerta del Sol, Madrid
Em março, explodiu o descontentamento da "geração à rasca" em Portugal. Mais de 200 mil em Lisboa, jovens e imigrantes, precarizad@s, sem trabalho e tratados como coisas. É emblemático o manifesto do movimento Precári@s Inflexíveis, que dá a sintomatologia desse quadro: "Somos precári@s no emprego e na vida. Trabalhamos sem contrato ou com contratos a prazos muito curtos. (...) Somos operadores de call-center, estagiários, desempregados, (...) imigrantes, intermitentes, estudantes-trabalhadores (...) Não temos férias, não podemos engravidar nem ficar doentes. Direito à greve, nem por sombras. Flexissegurança? O "flexi" é para nós. A "segurança" é só para os patrões.
(...) Estamos na sombra, mas não calados. (...) Com a mesma força com que nos atacam os patrões, respondemos e reinventamos a luta. Afinal, nós somos muito mais do que eles. Precári@s, sim, mas inflexíveis".
Seguiram-se os indignados da Espanha: o que dizer quando a taxa de desemprego para os jovens de 18 a 24 anos, segundo a Eurostat, é de 47%? A única certeza que eles têm é que, estudando ou não, são sérios candidatos ao desemprego, perambulando atrás de trabalho precário.
Enquanto isso, no Chile, as famílias se endividam, vendem suas casas para manter seus filhos nas universidades, quase todas privatizadas. É por isso que há no país um explosivo e maciço levante estudantil, com apoio dos pais, dos professores e da opinião pública, exigindo mudanças profundas. Depois foi a vez de a Inglaterra ferver. Começou na cordata Londres. Mais um trabalhador negro assassinado pela polícia, e os jovens pobres, negros, imigrantes e desempregados de Tottenham e de Brixton se rebelaram, sabendo que a polícia britânica é áspera quando a cor da pele é diversa.
Em poucos dias, atingiram Manchester e Liverpool. A percepção de que os de cima saqueiam o Estado, minguando os recursos para saúde, educação e previdência, chegou à periferia.
E é bom recordar, com Tariq Ali, que a polícia nunca foi responsabilizada pela morte de mais de mil pessoas sob sua custódia, desde 1990, sendo os negros e imigrantes presença recorrente.
Também é bom recordar que as revoltas contra o "pool tax" geraram grande descontentamento social e político contra o neoliberalismo, ajudando a selar o fim do governo de Thatcher.
Essa miríade de exemplos, que aflora tantas transversalidades entre classe, geração, gênero e etnia, é o sinal dos novos tempos.
A tela está ficando quente.
RICARDO ANTUNES, é professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Seu novo livro, "O Continente do Labor" (Boitempo), está no prelo. [Fonte: Folha de São Paulo, 29 de agosto de 2011, A3].

Tudo como dantes no quartel de Abrantes?

A tentação pré-conciliar


No mês de agosto, a Igreja propõe a reflexão em torno do tema da vocação. Com certo constrangimento anunciei, no primeiro domingo desse mês vocacional, no dia 7 agosto, a ordem das comemorações e orações vocacionais semanais propostas para as celebrações eucarísticas do mês: sacerdócio, matrimônio, vida religiosa e, por último, os leigos. Como expressão de outra teologia, o Vaticano II (1962-1965), na “Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja”, em seu Capítulo II, optou por outra ordem. O sujeito da Igreja é a comunidade dos fieis, o povo de Deus (LG 9-17). Este povo de Deus tem por condição a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, por lei o mandamento novo e por meta o Reino de Deus (cf. LG 9b).


O mesmo Capítulo II da Lumen Gentium enfatiza o sacerdócio comum dos batizados (LG 10) e atribui a esse povo de Deus uma infalibilidade no ato de fé: “O conjunto dos fiéis, ungidos que são pela unção do Santo, não pode enganar-se no ato de fé” (LG 12). Os dons e vocações de cada um fazem parte do único povo de Deus, de sua natureza missionária coletiva e da vontade salvífica universal do Criador. Os capítulos seguintes tratam da constituição hierárquica da Igreja e do sacerdócio, dos leigos, da santidade e dos religiosos.

Num momento em que a proporção do conjunto de brasileiros que se dizem católicos, está diminuindo – de 2003 a 2009 caiu de 74% para 68% - a ênfase vocacional deveria antes de reforçar estruturas hierárquicas e clericais corroborar uma teologia do povo de Deus e dos leigos. Estes, sejam jovens ou adultos, necessitam antes de indulgências plenárias e soluções casuísticas o reconhecimento pleno de sua vocação na obra salvífica de Deus.
Paulo Suess

26 de agosto: Diego Irarrazaval no Largo São Francisco, São Paulo



As reflexões de Diego Irarrazaval “De baixo e de dentro” têm marcas de itinerário, experiência e testamento; itinerário que mostra muitas facetas e um longo caminhar da teologia latino-americana; experiência pastoral junto aos “de baixo e de dentro”; testamento de alguém que combateu em todas as estações de sua vida o bom combate em solidariedade com os povos indígenas e os pobres, em fidelidade ao Evangelho e lealdade com as instituições eclesiais que nem sempre facilitaram a sua vida. Diego escreve com grande serenidade, continua, porém, inquieto com o grito dos pobres e dos outros, e com a frieza de certas instâncias eclesiásticas que impedem que os “de baixo” sejam assumidos e reconhecidos como os “de dentro”, que de fato são.
O evento de Aparecida se pronunciou não só através da retomada da “opção pelos pobres” em favor dos “de baixo”, mas os declarou também como os “de dentro” quando insiste por duas vezes no documento final: A Igreja “é casa dos pobres” [DA 8; 524]. A pertença aos pobres faz parte de sua estrutura trinitária, já que ela é “Povo de Deus”, “Corpo do Senhor” e “Templo do Espírito Santo” (Lumen Gentium 17). Essa estrutura teológica tem uma incidência sobre as estruturas materiais e institucionais. Se o Espírito Santo é o “pai dos pobres”, como a Igreja o invoca na Sequência de Pentecostes, então certamente também seu templo é a casa dos pobres. Nesta lógica Aparecida espera “um novo Pentecostes, (...) uma vinda do Espírito que renove nossa alegria e nossa esperança” [DAp 362]. O Espírito Santo é Deus no gesto do Dom. Ele mostra a face de Deus através de gestos significativos de continuidade e ruptura, de despojamento e inovação. Na gratuidade e na unidade do Espírito Santo se manifesta a resistência contra a lógica dos sistemas que giram em torno do eixo “custo-benefício” e dividem a humanidade.
Na lógica do Reino, “os de baixo”, os que vivem do lado sombrio do mundo, são caminhos da verdade e porta da vida. As vítimas do anti-reino não são apenas os protagonistas e os destinatários do projeto de Deus; são lugar da epifania de Deus, por excelência. A questão social está estreitamente vinculada à questão da ortodoxia. Pecado significa indiferença diante da exploração dos pobres. No cristianismo, essa pobreza do próprio Deus tem muitos nomes: encarnação, cruz, ressurreição, eucaristia. “A pobreza é a verdadeira aparição divina da verdade.” Na proximidade aos pobres e aos outros, Diego fez por longos anos essa experiência da verdade. Por causa dessa convivência não precisa humilha-los dispensando idealizações compensatórias. Aponta para a fragilidade de sua situação e procura os fortalecer com os argumentos de muitos colegas teólogos com os quais está permanentemente em diálogo. Seu livro enfoca um feixe de questões que perpassam a identidade (1), as culturas dos pobres e dos outros (5), a interação cultural (2) e a inculturação (2; 7), a religiosidade popular e oficial (3, 4, 6). Em seu último capítulo (8) propõe leituras especificamente latino-americanas dessa realidade complexa, tarefa difícil nesse momento eclesial em que muitos procuram “soluções” compactas e claras que marcam limites, separação e condições de pertença.
Ao avançar na construção teológica de uma “Igreja Casa dos Pobres”, Diego sabe que existe ainda muito entulho colonial que deve ser afastado. Por isso questiona a herança normativa da cristandade ainda presentes na América Latina, propõe novas leituras interculturais e fornece argumentos valiosos para a prática do protagonismo dos pobres e dos outros não só na sociedade, mas também na Igreja.
Paulo Suess, Prefácio

Assembleia e passeata por terra e justiça dos Kaiowá Guarani

Grande Assembleia à beira do rio Dourados


Passo Piraju, à beira do rio Dourados. Um vento forte, de agosto, com um frio cortante. Uma grande Assembleia Kaiowá Guarani, a céu aberto. Centenas de indígenas e algumas dezenas de aliados realizaram um dos momentos fortes da luta pela terra, contra a violência e pela garantia dos direitos dos povos indígenas do Mato Grosso do Sul e do Brasil.
  Passo Piraju, um lugar emblemático, de retomada, de resistência, de intenso sofrimento, de contínua tensão e ameaça, uma comunidade odiada por setores da população regional, pois numa invasão e confronto, em 2006, morreram dois policiais. Até hoje alguns indígenas estão em regime de prisão na comunidade. Foi ali, que se realizou, sob a proteção dos Nhanderu, de Tupã e dos espíritos dos guerreiros Guarani Kaiowá, essa Aty Guasu (Grande Assembleia) histórica de um povo em caminhada, em retomada de suas terras, esperança e sonhos.
  No “manifesto da Aty Guasu de Passo Piraju”, é reafirmada a decisão de continuar a luta pela terra, não aceitar retrocessos, e exigir respostas efetivas dos poderes públicos diante da dramática situação que enfrentam a maioria das trinta comunidades-aldeias Kaiowá Gaurani no Mato Grosso do Sul.
  As lideranças, no manifesto reafirmam a firme decisão de recuperarem suas terras “Vamos retomar nossas terras para que nossas matas voltem a nascer e nossos córregos voltem a correr! Jamais vão conseguir nos calar ou fazer com que deixemos nossa luta pela retomada de nossas terras! É um caminho sem volta! Quanto mais nos agridem mais decididos ficamos pela reconquista definitiva de nossos territórios e menos acreditamos nas autoridades. Vamos avançar, nos organizando cada vez mais! Podem passar várias gerações e nosso povo continuará na luta até a retomada de TODAS as nossas terras tradicionais!”.
  Também foi enviado um documento às autoridades informando e exigindo providências sobre a violência que sofrem os Kaiowá Guarani na retomada de Pyekuti Kue e Mbaraka’i: “Nós, povos Kaiowá e Guarani, reunidos em nossa Aty Guasu, realizada na Terra Indígena Passo Pirajú, município de Dourados, Mato Grosso do Sul, vimos por este documento informar as autoridades competentes, à Polícia Federal, Ministério Público Federal e Entidades e Organizações de direitos humanos que nossos parentes Kaiowá e Guarani do Tekohá Mbaraka´y e Puelito Kuê, município de Iguatemi, neste exato momento, acabaram de retornar à suas terras tradicionais das quais foram atacados nos dias 14 e 15 de agosto deste ano. Que nossos parentes estão agora dentro de sua terra, sitiados e que poderão sofrer violências pelos pistoleiros e fazendeiros da região a qualquer momento.”

Ato público e passeata por terra e justiça


A grande Assembleia Kaiowá Guarani foi finalizada com um ato publico e passeata pela principal avenida da cidade de Dourados. Mais de 500 Kaiowá Guarani e Terena percorreram a região central da cidade. Cantando e manifestando sua indignação e esperança, distribuem o folheto “Em Defesa dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul”. Ali constam os índices alarmantes da violência em que se debatem as comunidades Kaiowá Guarani. As chamadas nos dão a dimensão da gravidade da situação: “Violência e Barbárie estão às soltas em MS”, “A difusão do preconceito é uma das armas do latifúndio”. A marcha prosseguiu por quase duas horas, até chegar ao prédio da Funai. Na sede do órgão fizeram um rápido ritual para trazer os bons espíritos ao local e afastar tudo que possa prejudicar os direitos indígenas. O ritual é interrompido por um telefonema de Lide Lopes, de Pyolito Kue, que comunica mais um covarde ataque dos pistoleiros, causando uma absurda situação de violência, destruição e pessoas feridas. Por se tratar já da terceira ação violenta que sofreram em menos de duas semanas. É uma nova declaração de guerra, onde de um lado estão homens armados e decididos a atirar, expulsar, destruir enquanto do outro lado está uma centena de homens, mulheres e crianças armados apenas de seu direito de retornar a um pedaço da terra da qual foram expulsos há poucas décadas.

Egon Heck e Equipe do Cimi
Dourados, 22-24 de agosto de 2011

ENTREVISTA COM D. LUCIANO MENDES E SEU SUCESSOR GERALDO LYRIO ROCHA

I.

A CNBB propõe beatificação
daquele que o povo já declarou santo:
d. Luciano Mendes de Almeida (1930-2006)


O túmulo de d. Luciano, na catedral de Mariana, está sempre coberto de flores, bilhetes e fotos de pessoas que recorrem à sua intercessão. Com o aplauso da última da 49ª Assembleia Geral da CNBB e pressionado pelo povo simples, o arcebispo de Mariana, d. Geraldo Lyrio Rocha, abrirá no fim de agosto a causa de beatificação e canonização de seu antecessor, d. Luciano Mendes de Almeida, que morreu em 27 de agosto de 2006, após ter dirigido a arquidiocese por 18 anos. "No caso de d. Luciano, a fama de santo vinha desde antes de sua morte e está aumentando", disse d. Geraldo.

Nascido no Rio em 1930, d. Luciano trocou o conforto de sua família rica pela vida religiosa, ao entrar para a Companhia de Jesus, na qual trabalhou como professor até ser nomeado bispo auxiliar de São Paulo, em 1976. Responsável pela região de Belém, na zona leste, costumava varar as madrugadas para cuidar dos pobres. Todos que tivemos a graça de trabalhar por algum tempo perto dele, temos histórias edificantes a contar. Em suas tarefas como secretário e presidente da CNBB, sempre se deixou interromper e abria brecha na agenda para atender índios e pobres, crianças e sofredores. Jamais negava uma esmola. "Não se esqueçam de meus pobres", recomendou a um de seus irmãos, na véspera de morrer, no Hospital das Clínicas de São Paulo, onde se tratava de câncer no fígado.

Franzino e de saúde fraca, d. Luciano jamais se alterava na conversa com seus interlocutores, mas falava com voz firme e decidida em defesa de suas causas. Foi o que ocorreu, por exemplo, quando se opôs, como secretário e presidente da CNBB, à campanha difamatória do Estadão contra o Cimi (1987) ou à privatização da Companhia Vale do Rio Doce.
[Partes da matéria reproduzem trechos da reportagem de José Maria Mayrink, publicada pelo jornal O Estado de S.Paulo, 21-08-2011.]


II.


D. Luciano Mendes de Almeida narra a sua vida
em entrevista à IHU, no dia 8-10-2005.
Reproduzimos alguns trechos da entrevista:


IHU On-Line – D. Luciano, quais foram os momentos mais felizes de sua vida?

Luciano Mendes de Almeida - Minha vida toda é muito feliz. Uma das coisas que Deus me faz compreender é o valor da história e da consciência. [...] Poderia sublinhar alguns momentos felizes.
O primeiro é o contato com o sofrimento humano, perceber que a história é muito marcada por aspectos positivos e também negativos. Penetrar nesse sofrimento, comungar com esse sofrimento, partilhar esse sofrimento, creio que isso proporciona uma carga existencial muito grande.
Trabalhei cinco anos na prisão, na Itália, depois com as populações mais pobres na periferia de São Paulo, hoje com os ambientes rurais pobres de Mariana. Eu creio que isso dinamiza muito a própria vida numa fase de experiência e comunhão existencial.
Outros momentos: eu tive oportunidade de passar por todos os países da América Central, nos anos de 1980, a serviço do CELAM, entrei em contato com a Guatemala, El Salvador, a Nicarágua, Honduras, o Panamá, mais tarde também com Cuba, e tudo isso me despertou muito a consciência da América Latina. É a situação de populações sofridas, esmagadas, incompreendidas, empobrecidas que também desperta uma grande vontade de trabalhar e ajudar. São populações, às vezes, indígenas e, às vezes, que passaram pela tristeza da escravidão. Poder comungar com essas realidades é um aspecto que me ensinou a perceber que Deus não tira as dificuldades, mas ajuda a superá-las. Não se deve pedir um milagre porque o milagre é uma exceção dentro da normalidade da vida humana, mas pedir força para enfrentar essas situações, justamente em comunhão com as outras realidades em que tantos se encontram e são muito mais árduas do que aquela que uma pessoa isoladamente pode enfrentar.
Uma alegria maior, quase pontualizada, é a alegria de ver a recuperação de certas pessoas, seja da dependência química, da dependência de drogas, seja de um processo de conversão pessoal. Isso dá muita alegria para quem tem a missão de querer ajudar os outros a reencontrar a paz interior.
Essas são alegrias pontuais e um pouco desconhecidas, a alegria de ser um pequeno instrumento da paz de Deus.

IHU On-Line - Quais os momentos mais dramáticos que o senhor viveu?

Luciano Mendes de Almeida - Em primeiro lugar, os funerais de Dom Oscar Romero, em El Salvador. Eu fui um dos três bispos presentes e vi a explosão da bomba, o tiroteio contra a população, as mortes na praça, vivendo um momento de grande dramaticidade, ajudando no enterro de Oscar Romero dentro da igreja, horas, e horas, e horas, junto com aquele povo que é tão sofrido.
Em segundo lugar, foi a guerrilha e a situação de conflito no Líbano, onde estive em contato com doze grupos religiosos diferentes em 1987. Era um momento de grande aflição para o Líbano, e ali, falando com os sunitas, com os xiitas, com os armênios, com os caldeus, fiquei muito impressionado com o sofrimento daquele povo, que buscava de novo a sua harmonia, o seu diálogo depois de tantos momentos de aflição.
Em terceiro lugar, me marcaram muito as injustiças com problemas de terra aqui no Brasil, especialmente o assassinato de padre Josimo, de padre João Bosco Burnier, de Ezequiel Ramim e a prisão dos padres Aristides e Francisco Goriou. Tudo isso eu acompanhei de perto e me marcaram muito a coragem desses irmãos na fé e a dureza das situações que tiveram de enfrentar e a consequência que esses fatos tiveram sobre a minha vida.

IHU On-Line - Quem são as principais pessoas que marcaram sua vida? Aquelas que lhe servem de inspiração?

Luciano Mendes de Almeida -Quem mais me impressionou em todas as situações de existência foi o cardeal Francisco Xavier Van Thuan, que ficou nove anos na prisão incomunicável, no Vietnã. Eu tive a oportunidade de tratar com ele várias vezes, foi a pessoa que mais bem me fez na vida e considero uma grande graça tê-lo conhecido.

IHU On-Line - Qual é sua percepção da conjuntura política atual? Que outras formas de atuação poderiam evitar excessos dos governantes?

Luciano Mendes de Almeida – [...] É necessário que procuremos, com urgência, em curto prazo, a maior atuação dos cidadãos no progresso e no desenvolvimento do País, que reencontremos a participação popular e a democracia participativa. Como primeira iniciativa, creio que deveríamos incrementar as Assembléias Legislativas municipais com a presença de mais participantes da sociedade local para estabelecer o orçamento, depois as leis de diretrizes, os programas imediatos e as garantias de acompanhamento desses programas.
Quando o cidadão deixar de ser expectador para ser também executor, nós teremos uma nova fase na caminhada da democracia nacional. Se bem que, para o governo ser indispensável, é necessário descobrir formas novas para que haja uma co-responsabilidade e, digamos, um enriquecimento, um aperfeiçoamento de todas as medidas que são necessárias para a promoção do bem comum.

IHU On-Line - Como o senhor, que tem uma vida tão ativa, no País e na Igreja, se sente diante dessa situação?

Luciano Mendes de Almeida - Creio que nós temos que ser muito simples e objetivos. A situação de um país com mais de 180 milhões de habitantes, é complexa. Nós herdamos falhas estruturais muito grandes. Não podemos esquecer que até o fim do século XIX, nós tivemos a triste realidade da escravidão, uma diferença social muito grande, uma desorganização no acesso à cultura, aos bens necessários. Tudo isso é um passado muito forte e que faz com que o Brasil seja um país de difícil condução pública, mas eu creio que tem havido também conquistas e, no momento, é importante investir no povo, porque, afinal, é a nossa grande reserva moral. Basta ver as famílias, as pessoas simples, por exemplo, onde eu moro. São pessoas corretas, que trabalham, têm expectativas de uma melhoria das condições de vida.


Todos às ruas contra Belo Monte

No dia 20 de agosto,
energia jovem contra a construção da hidrelétrica Belo Monte - envelhecida antes de nascer


O PROJETO Belo Monte é um exemplo cabal de ineficiência energética (produzirá, em média, apenas 39% da eletricidade que promete), é absurdamente caro (cerca de R$ 30 bilhões, dos quais 80% são dinheiro do povo, a ser desembolsado pelo BNDES), e foi imposto pelo governo através de um processo brutal de sucessivas violações da legislação e da Constituição nacionais, e de acordos e tratados internacionais.
Acima de tudo, porém, o projeto de Belo Monte vai arrebentar com a vida dos povos, da fauna e da flora do Xingu, destruindo e secando parte de um dos mais belos e ricos rios do mundo, e transformando a região em terra arrasada. Não é à toa que Altamira foi campeã de desmatamento nesse primeiro semestre.
As máquinas já estão escavando o solo nas cercanias das barrancas do Xingu, mas não é tarde para silenciar seus motores! Unido, o povo brasileiro dirá ao governo o que pensa de Belo Monte!

O PROTESTO dos paulistanos contra Belo Monte reuniu aproximadamente 500 pessoas na Av. Paulista, em frente ao MASP. A partir das 16h o grupo, mormente jovens, se dirigiu para a sede do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na Alameda Tietê.
Os movimentos Brasil pela Vida nas Florestas e Xingu Vivo para Sempre e a Frente Pró-Xingu declararam este sábado - Dia Internacional da Ação em Defesa da Amazônia - um dia de protesto contra a construção da Usina de Belo Monte com manifestações em 15 cidades brasileiras. Segundo a representante de Xingu Vivo para Sempre haverá manifestações também na próxima segunda-feira, 22, em cerca de 20 cidades em 16 países - entre eles, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Noruega, Taiwan, Turquia, México e Austrália. Os protestos serão em frente às embaixadas e consulados brasileiros.


O DILEMA DE DILMA: CRIAR POBREZA PARA DEPOIS ERRADICÁ-LA

Dilma muda limite de unidades de conservação para abrigar hidrelétricas

 Três parques nacionais na Amazônia - do tipo de unidade de conservação (UC) mais protegido no País - tiveram seus limites alterados para abrigar lagos e canteiros de obras das usinas hidrelétricas de Tabajara, Santo Antônio e Jirau, em Rondônia. Medida provisória editada pela presidente Dilma Rousseff e publicada na edição de ontem do Diário Oficial da União também autoriza a exploração mineral no entorno de dois dos parques.
Área de conservação?
 Foram alterados os limites dos Parques Nacionais da Amazônia, Campos Amazônicos e Mapinguari. Duas outras unidades deverão ter os limites alterados em breve para o licenciamento ambiental de quatro hidrelétricas do complexo do Rio Tapajós, que ficarão entre as maiores das novas usinas da Amazônia, ao lado de Belo Monte, Santo Antônio e Jirau.
Os empreendimentos localizados nas unidades de conservação já alteradas eram defendidos pelo Ministério de Minas e Energia, até mesmo a mineração de ouro na área de 10 quilômetros no entorno do Parque Nacional Mapinguari, o maior dos três parques a ter o limite alterado, com 17,5 mil quilômetros quadrados, o equivalente a mais de 11 vezes a área da cidade de São Paulo.
Hidrelétrica Santo Antônio (RO)
Outro motivo para a alteração dos limites dos parques foi a regularização fundiária de ocupações de terras públicas até o limite de 1,5 mil hectares, além do conflito com áreas de assentamentos para a reforma agrária na região. A floresta remanescente nessas regiões só poderá ser explorada por meio de planos de manejo previamente autorizados.
O presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Rômulo Mello, diz que a alteração do limite dos parques nacionais não impõe perdas à proteção da floresta. "Essas mudanças refletem bem a perspectiva de negociação que procuramos. Nossa postura não é travar, é negociar. Garantimos a conservação e permitimos que os empreendimentos sigam adiante", afirmou. "Fazemos o jogo do ganha-ganha", insistiu.
A Hidrelétrica de Tabajara, no município de Machadinho do Oeste, em Rondônia, é uma das obras previstas na segunda etapa do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Sua construção dependia da alteração dos limites do Parque Nacional Campos Amazônicos, criado em 2006. A previsão é que a hidrelétrica produza 350 megawatts (MW).
 Lobby. A inclusão da Hidrelétrica de Tabajara no PAC teve forte lobby do presidente interino do PMDB, senador Valdir Raupp (RO). Para o projeto seguir adiante, faltava tirar do caminho da obra as restrições impostas às unidades de conservação. O Parque Nacional Campos Amazônicos perdeu ao todo, por meio da MP, 340 quilômetros quadrados e ganhou outros 1,5 mil quilômetros quadrados.

No caso do Parque Nacional Mapinguari, o ajuste ocorreu por conta da revisão do alcance do canteiro de obras e dos lagos das Hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira. A perda de 70 quilômetros quadrados teria sido compensada com um acréscimo feito anteriormente em permuta com o Estado de Rondônia. O Parque Nacional da Amazônia perdeu agora 280 quilômetros quadrados, supostamente compensado, com folga, por acréscimo anterior a pouco mais de 1 mil quilômetros quadrados.

Barragem do peixe
barragem da vida

 PARA LEMBRAR
O Estado revelou anteontem que as Unidades de Conservação (UCs) se tornaram o mais recente objeto de disputa entre ambientalistas e defensores do agronegócio. Na semana passada, durante audiência pública na Câmara, o deputado Moreira Mendes (PPS-RO), presidente da frente parlamentar da agropecuária, anunciou uma "grande campanha" para impedir que novas UCs sejam criadas sem a prévia autorização do Congresso Nacional. Hoje, a criação é feita por meio de decreto presidencial. Os ruralistas afirmam que a expansão dessas unidades pode comprometer a produção de alimentos no País.
  [A reportagem é de Marta Salomon, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 16-08-2011, divulgada também no site do Instituto Humanitas Unisinos (Notícias Diárias):
 www.unisinos.br/ihu O primeiro título da mátéria é do blog].

Herança missionária do Vaticano II

Manifesto de missionários/as e missiólogas/os reunidos em Puerto Vallarta, México

Por ocasião da celebração dos 50 anos do início do Vaticano II, nós missionári@s e missiólog@s, provenientes do México e do Brasil, queremos afirmar como herança do Concílio e compromisso nosso e do magistério latino-americano os seguintes dez pontos centrais:

1. Natureza missionária
A “natureza missionária” da Igreja (Ad Gentes 2, 6, 35; Aparecida/DAp 347), que se fundamenta no batismo de todos os cristãos, é sua razão de ser. Ela atravessa todas as instâncias e atividades eclesiais e as coloca em “estado de missão” (DAp 213).

2. Centralidade da Palavra de Deus
Jesus Cristo, plenitude da revelação (cf. 2Cor 1,20; 3,16-4,6), “ordenou aos Apóstolos que o Evangelho […] fosse por eles pregado a todos os homens” (Dei Verbum 7; cf. Verbum Domini), como fonte da vida. “A Palavra eterna fez-Se pequena; tão pequena que cabe numa manjedoura. […] Agora a Palavra tem um rosto, que por isso mesmo podemos ver: Jesus de Nazaré” (Verbum Domini 12).

3. Centralidade do Reino
A meta da Igreja e de sua missão é estar a serviço do Reino de Deus (cf. Lumen Gentium/LG 9; DAp 33, 190, 223) como “reino de `verdade e vida, reino de santidade e graça, reino de justiça, amor e paz´” (LG 36). A proclamação do reino, em atos e palavras, é historicamente relevante, muitas vezes, através dos “sinais dos tempos” (Gaudium et Spes/GS 4, 11; Presbyterorum Ordinis 9; Apostolicam Actuositatem 14; DAp 33, 366) que, mediante novas realidades sócio-históricas, representam uma mensagem imperativa às Igrejas.

4. Igreja, Povo de Deus
Reafirmamos com o Concílio Vaticano II a compreensão da Igreja como Povo de Deus (LG 9-17) do qual emanan vocações e setores eclesiais, inclusive as estruturas hierárquicas, de uma Igreja missionária e ministerial. “O apostolado dos leigos é participação na própria missão salvífica da Igreja. A este apostolado todos são destinados pelo próprio Senhor através do batismo e da confirmação” (LG 33).

5. Opção pelos pobres e “outros”
Desde Medellín (1968), o magisterio latino-americano deu um passo decisivo, da opção abstrata pelo “homem” à opção concreta pelos pobres e os “outros”, recentemente reafirmado em Aparecida (DAp 397-399): “O encontro com Jesus Cristo através dos pobres é uma dimensão constitutiva de nossa fé […]” (DAp 257).

6. Inculturação e libertação
Lutar pela construção de um mundo para todos, um mundo onde cabem a igualdade fraterna e a diferença de valores culturais, diferentes línguas e cosmovisões, significa assumir no mistério da encarnação de Jesus de Nazaré e de libertação pascal na cruz a causa dos crucificados na história (mártires!), lutando pela redistribuição dos bens e pelo reconhecimento da alteridade (cf. GS 29). “Toda evangelização há de ser, portanto, inculturação do Evangelho. […] A inculturação do Evangelho é um imperativo do seguimento de Jesus e é necessária para restaurar o rosto desfigurado do mundo” (cf. Santo Domingo 113; cf. LG 8; DAp 4, 97, 99b, 258, 325, 491, 479). “O rico magistério social da Igreja nos indica que não podemos conceber uma oferta de vida em Cristo sem um dinamismo de libertação integral, de humanização, de reconciliação e de inserção social” (DAp 359, cf. 26, 146, 399).

7. Salvação universal
“O Salvador quer que todos os homens se salvem” (LG 16; cf. 1Tim 2,4). Segundo o plano de salvação, a vida eterna é para todos. “Os que ainda não receberam o Evangelho se ordenam por diversos modos ao Povo de Deus” (LG 16). “O plano da salvação abrange também aqueles que reconhecem o Criador” (LG 16). De ninguém que procura “o Deus desconhecido em sombras e imagens, Deus está longe” (LG 16a). Todos “que sem culpa ignoram o Evangelho de Cristo e Sua Igreja, mas buscam a Deus com coração sincero e tentam, sob o influxo da graça, cumprir por obras a Sua vontade conhecida através do ditame da consciência, podem conseguir a salvação eterna” (LG 16). “Deus pode por caminhos d´Ele conhecidos levar à fé os homens que sem culpa própria ignoram o Evangelho” (AG 7a). A real possibilidade da salvação em Cristo sem conhecimento do Evangelho e a necessidade da Igreja (dos sacramentos, da evangelização explícita) para essa salvação não se excluem (cf. Redemptoris Missio 9, Dominus Iesus 20b).

8. Sinais de justiça e imagens de esperança
O seguimento de Jesus, na vida missionária, nos fez aprender a trabalhar com sinais de justiça e imagens de Esperança (luta pela justiça, cura dos enfermos, parábolas do reino). Jesus de Nazaré não mudou a totalidade da realidade social e não prometeu o paraíso na terra, porém fortaleceu nosso desejo de construir um mundo mais humano na terra e esperar confiantes “novos céus e nova terra” (Ap 21 e 22). “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo” (GS 1). “[…] A igual dignidade das pessoas postula que se chegue a uma condição de vida mais humana e mais equitativa” (GS 29). Os sinais de justiça e imagens de esperança têm raízes nesta terra e asas para voar além desta terra.

9. Liberdade religiosa
A liberdade religiosa é um direito da pessoa humana e um pressuposto da missão: “Os homens todos devem ser imunes da coação […], de tal sorte que em asuntos religiosos ninguém seja obrigado a agir contra a própria consciência, nem se impeça de agir de acordo com ela” (Dignitatis Humanae/DH 2a). O direito à liberdade religiosa “continua a existir, ainda para aqueles que não satisfazem a obrigação de procurar a verdade e de a ela aderir” (DH 2b).

 10. Diálogo ecumênico, intercultural e interreligioso
“A Igreja Católica nada rejeita do que há de verdadeiro e santo nessas religiões. Ela considera com sincera atenção aqueles modos de agir e viver, aqueles preceitos e doutrinas. Se bem que em muitos pontos estejam em desacordo com os que ela mesma tem e anuncia, não raro, contudo, refletem lampejos daquela Verdade que ilumina a todos os homens” (Nostra Aetate 2). Os cristãos, diz a Gaudium et Spes, não são exclusivamente associados ao mistério pascal e à esperança da ressurreição: “Isto vale não somente para os cristãos, mas também para todos os homens de boa vontade em cujos corações a graça opera de modo invisível. [...] Devemos admitir que o Espírito Santo oferece a todos a possibilidade de se associarem, de modo conhecido por Deus, a este mistério pascal” (GS 22). “Hoje em muitas partes do mundo, mediante o sopro da graça do Espírito Santo, pela oração, pela palavra e pela ação, se empreendem muitas tentativas daquela plenitude de unidade que Jesus Cristo quis” (Unitatis Redintegratio 3), daquela unidade macroecumênica no Espírito Santo.

 Essa herança do Concílio, assumida e contextualizada para a América Latina e o Caribe pelo Magistério Latino-Americano, através das Conferências de Medellín (1968), Puebla (1979), Santo Domingo (1992) e Aparecida (2007), foi resgatada e reassumida por nós nesse II Encontro de Missionári@s e Missiólog@s, sob o olhar benigno de Santa Maria de Guadalupe, padroeira de Puerto Vallarta, Jal., México, em 13 de agosto de 2011.








Misionólogos en Puerto Vallarta: “El aporte de Vaticano II a la reflexión misionológica”

Apuntes de la charla en la paróquia La Aurora, fundada por nuestro colega Pe. Gabriel Ponce.
“La esperanza es un mensaje central de la fe bíblica (Cf. SpS 2) y del paradigma de la misión. Ella es un puente hacia el mundo cotidiano de los pobres y una raíz de su fe en las alegrías y tristezas de la vida.

Formação missionária na paróquia La Aurora
La memoria del pasado y las experiencias de nuestra fe nos permiten hoy tener esperanza de que mañana haya justicia. El apóstol nos exhorta a estar siempre preparados para dar las razones de nuestra esperanza, con “mansedumbre y respeto” (cf. Pd 3,15ss). “La mansedumbre y el respeto”, ¿no serían esa dosis de duda, de autocrítica y de reconocimiento de que nuestras aspiraciones son, como las aspiraciones de los pobres, “improferibles” en los lenguajes y las lógicas establecidas? Integrar la duda en nuestra doctrina y la autocrítica en nuestras prácticas institucionales no son elementos de su destrucción, sino de su salvación.
Dios, quien escucha el grito de los pobres, está con nosotros en el centro de los  conflictos, nos envía en misión a la periferia del mundo para que no haya más centro ni periferia. Al envío precede la convocación al éxodo. Él nos llama a salir de la esclavitud. Esa esclavitud se desdobla en múltiples formas de servidumbre y sumisión.

Cautivos de esperanza
Feliz reencontro de pároco Pe. Gabriel Ponce
com sua paróquia "La Aurora"

La misión, que se propone anunciar la “buena nueva a los pobres”, busca, necesariamente, desvincularse del sistema que produce el sufrimiento. La misión de Dios incomoda y desacomoda. Dios, que invita al éxodo, también pone fin al exilio. Zacarías (“el Señor es memoria”), el profeta postexílico, promete liberar a “los cautivos de la esperanza del pozo donde no hay agua” (Zac 9,11). Los cautivos de la esperanza serán arena en las entrañas del sistema (cf. DA 62) y aceite en las transformaciones en curso que benefician a todos.
La ruptura sistémica no depende de la Iglesia, pero es factible con ella. Sus gestos significativos —signos de justicia e imágenes de esperanza— tocan todos sus sectores (formación, teología, catequesis, ministerios, liturgias, pastorales) y articulaciones con sectores más allá del ámbito eclesial. La Iglesia, por medio de sus agentes de pastoral, se halla presente en los diversos movimientos sociales que creen no en un paraíso terrestre, sino en la posibilidad de otro mundo más digno y justo. Su misión es “suscitar esperanza en medio de las situaciones más difíciles, porque, si no hay esperanza para los pobres, no la habrá para nadie” (DAp 395).

En la formación de sus propios líderes, la Iglesia los cualifica espiritual y teológicamente para los choques con el capital en la era de su mundialización, para la intervención y el compartir, para la gratuidad y la solidaridad, para la mística militante. El resucitado es el crucificado. La cruz no pertenece a la prehistoria de las luchas por la liberación. Pertenece a su historia permanente. Y en esa historia definimos etapas, prioridades y metas de otro mundo posible.
La Iglesia de América Latina y del Caribe está frente a tres alternativas de la indiferencia, la adhesión o la ruptura sistémica:
a) con miedo, enterrar los muchos talentos que recibió (Mt 25,14ss);
b) insertarse en el sistema capitalista y proponer pequeñas mejoras; o
c) intervenir con signos de justicia en el mundo injusto, deseñar imágenes de esperançar e cultivar las semillas del Reino.
Aparecida asumió esa intervención y ruptura como servicio a los pobres. Prometió ser abogada y casa de los pobres. Con “mansedumbre y respeto”, el paradigma de la misión reclama de la Iglesia esa promesa de ser espacio de ensayo de rupturas. La misión ha de ser internamente crítica para poder ser externamente propositiva. Como casa de los pobres, la Iglesia será casa de esperanza —cautiva y cautivante—. En la esperanza saldrá del pozo donde no hay agua y ampliará el espacio de su tienda (cf. Is 54,2). Según una antigua tradición de Israel, el Mesías vendrá cuando todos tengan un lugar en la mesa del pan y de la palabra. La Iglesia puede ser esa mesa.”
Paulo Suess
 

Os rumos da Igreja no Brasil a partir das Diretrizes Gerais da CNBB (2011-2015)

Aonde vais, Igreja?

"A urgência das DGAE 2011 aponta, como uma espécie de PAC (Programa de Aceleração dos Católicos) eclesial apenas para a velocidade, não para o caminho. Pela falta de recursos e agentes de pastoral nas periferias das nossas grandes cidades, os ministros que restam se tornaram, muitas vezes, missionários e missionárias de Fórmula 1, sobrecarregados com tarefas e distâncias. Estão "na onda” da aceleração exigida pelo mercado e agora pelas DGAE", escreve Paulo Suess, missiólogo e assessor teológico do Cimi, ao analisar as "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, 2011-2015”, em artigo publicado por Adital, 05-08-2011 e Unisinos, 07-08-2011. Na íntegra, o texto será publicado na Revista Eclesiástica Brasileira, fasc. 284, outubro 2011.

Eis o artigo resumido:

No início da Via Appia Antica, na saída de Roma, se encontra a pequena Igreja Quo vadis, Domine ("Aonde vais, Senhor?”). Ela lembra a lenda de uma fuga e a história de uma perseguição. Segundo a lenda, o apóstolo Pedro teria fugido das perseguições do imperador Nero (54-68) e se encontrou, no perímetro da Quo-vadis-Domine, com Jesus ressuscitado. À pergunta de Pedro "Aonde vais, Senhor?”, Jesus teria respondido "vou a Roma para ser novamente crucificado”.Neste exato momento, em que o afrouxamento do espírito de pertença à Igreja Católica aponta a diferentes razões de fuga, a CNBB procurou em suas "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, 2011-2015” (DGAE 2011) responder à pergunta: "Aonde vais, Igreja?”

1. Do objetivo geral
Para nossa reflexão sobre caminhar histórico e direção contemporânea da Igreja no Brasil pode ser fecundo comparar o objetivo da XVII Assembleia Geral da CNBB, de abril de 1979, com os objetivos das DGAE de 2008 e de 2011. O Objetivo geral de 1979 rezava:

1979
Evangelizar
a sociedade brasileira em transformação,
a partir da opção pelos pobres,
pela libertação integral do homem,
numa crescente participação e comunhão,
visando à construção de uma sociedade fraterna,
anunciando assim o Reino definitivo.

Se colocarmos o novo Objetivo geral das Diretrizes de 2011 ao lado do Objetivo de 2008 e compararmos ambos com o de 1979, temos uma informação "objetiva” sobre mudanças significativas e continuidades a longo e curto prazo. Nos Objetivos de 2008 e 2011, com ênfase no discipulado missionário, percebe-se a influência de novos setores e movimentos. Estes, nos últimos anos, ganharam força na Igreja Católica, influenciaram fortemente o evento de Aparecida (2007) e se sintonizaram mais com o discurso universal, genericamente romano, do que com os contextos geográficos, onde deveriam estar enraizados:


2008
2011
Evangelizar,
a partir do encontro com Jesus Cristo,

como discípulos missionários,
à luz da evangélica
opção preferencial pelos pobres
promovendo a dignidade da pessoa,
renovando a comunidade,
participando da construção
"para que todos tenham vida
e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Evangelizar,
a partir de Jesus Cristo,

na força do Espírito Santo
como Igreja discípula,
missionária e profética,
alimentada pela Palavra de Deus
e pela Eucaristia,
à luz da evangélica
opção preferencial pelos pobres
para que todos tenham vida (cf. Jo 10,10) rumo ao Reino definitivo.

  
A continuidade verbal das DGAE está na própria evangelização, na opção pelos pobres e no anúncio do Reino de Deus e da Vida. As mudanças significativas que se percebem nos Objetivos gerais de 2011 se encontram em seu cunho nitidamente introvertido. A Igreja das Diretrizes gira em torno de si mesma e perdeu, aparentemente, o horizonte da "libertação integral do homem” (1979) e da "construção de uma sociedade justa e solidária”(2008) de outros tempos. As palavras-chave, na ordem das Diretrizes de 2011 são: evangelizar, Jesus Cristo, Espírito Santo, Igreja discípula, missionária e profética (sem respaldo significativo no próprio texto das Diretrizes), Palavra de Deus, Eucaristia, (finalmente!) a opção preferencial pelos pobres, vida e Reino.
Há uma divergência sobre o ponto de partida para a evangelização: evangelizar "a partir da opção pelos pobres” (1979) ou evangelizar "a partir de Jesus Cristo” (2011) que alguns bispos consideram uma tautologia. Evangelizar a partir da realidade social ou da revelação e doutrina? O "a partir de” pode apontar para um ponto de partida geográfico-social ("a partir do lugar dos pobres”) ou para uma fonte doutrinal ("a partir de Jesus Cristo”). Não devemos confundir "lugar” com "fonte”. Para definir o uso da fonte doutrinal, precisa-se dizer antes a partir de que lugar sociogeográfico se faz uso daquela fonte. A fonte é um instrumento a serviço da causa dos pobres. "Fonte” e "lugar” apontam para níveis diferentes. Uma solução atenuante se oferece através da aproximação de Jesus Cristo aos pobres, portanto, da "fonte” ao "lugar”, como está implícito no "julgamento das nações”, de Mt 25,31-46.
O Objetivo geral das DGAE 2011 aponta para essa discussão de fundo, que é uma discussão semântica e metodológica. Ela procura esclarecer o conceito de realidade e versa sobre a aceitação da metodologia do ver, julgar, agir e da precedência do "lugar social” ante a "fonte doutrinal”.

2. Da realidade
Na 5ª Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, em Aparecida (2007), o papa Bento XVI assumiu essa questão e tranquilizou o ambiente, dando, aparentemente, razão a gregos e a troianos. Deve-se, antes de tudo, saber que a metodologia do ver-julgar-agir não é uma invenção da Teologia da Libertação. Trata-se de uma herança da Juventude Operária Católica (JOC), da Bélgica, assumida pelo papa João XXIII, em sua Carta Encíclica Mater et Magistra, de 1961 (MM 236). Por conseguinte, Bento XVI, em Aparecida, não teve mais a possibilidade de rejeitar a metodologia do ver, julgar, agir, mas introduziu nela acréscimos significativos.
A análise da realidade, em documentos eclesiais latino-americanos, está muito ligada ao lugar da "opção preferencial pelos pobres”. No Objetivo geral das DGAE 2011, a opção preferencial pelos pobres está no último lugar possível e seu conteúdo fica aquém da proposta de Aparecida que deu um novo peso a essa opção explicando o significado do "preferencial”, nas DGAE apenas formalmente citada (69): "Que seja preferencial implica que deva atravessar todas as nossas estruturas e prioridades pastorais”(DAp 396).
A opção pelos pobres e pelos "outros” nos coloca em meio a conflitos centrais da humanidade, conflitos que exigem discernimentos e "análise da realidade”. Discernir quer dizer distinguir entre diferentes níveis dessa realidade. Nas Diretrizes de 2011, essa realidade é descrita com certo pessimismo. As "marcas de nosso tempo”, segundo as Diretrizes, são transformações profundas. Em tempos desnorteadores (20) perdemos valores, referenciais e critérios. Tudo isso produz: relativismo, fundamentalismo, laicismo militante contra a Igreja, irracionalidade midiática, amoralismo generalizado (20). Somos dominados por leis do mercado, lucro, bens materiais, hedonismo, sucesso pessoal, individualismo. As Diretrizes acrescentam ainda como "marcas de nosso tempo”: corrupção, violência, narcotráfico, emocionalismo, sentimentalismo, utilitarismo (21 e 22).
O tópico dos "sinais dos tempos”, as Diretrizes mencionam duas vezes (24, 140), sem apontar para seu conteúdo. Quais são esses sinais dos tempos? Qual é seu significado? De fato, a Igreja das Diretrizes não soube nomear os sinais do tempo de hoje. Preocupações internas dificultam a percepção daquilo que Deus nos quer dizer através do mundo. Essa incapacidade de ver Deus atuar fora da Igreja nos faz lembrar a gigantesca coragem de João XXIII que, em sua Carta Encíclica Pacem in Terris (1963), soube ler os "fenômenos [que] caracterizam a nossa época” como "sinais dos tempos”: a emancipação da classe operária, das mulheres e dos países colonizados (cf. PT 39ss), o reconhecimento crescente dos "laços comuns da natureza” que unem a humanidade (PT 126-129) e a Declaração Universal dos Direitos do Homem (PT 142ss).
Em seu Discurso Inaugural (DI) da Conferência de Aparecida, Bento XVI sublinhou a base cristológica da opção pelos pobres. Repetidas vezes o DAp cita essa parte do DI (148, 392, 405, 505). A articulação cristológica e, em sua consequência, trinitária da opção pelos pobres faz dessa opção, e de seus desdobramentos concretos, não só imperativos pastorais irrevogáveis, mas premissa da teologia latino-americana e de sua análise da realidade. Isso nos permite escutar as perguntas de Bento XVI sobre a realidade em geral, a partir da nossa realidade latino-americana e caribenha: "O que é esta `realidade´? O que é o real? São `realidade´ só os bens materiais, os problemas sociais, econômicos e políticos?” Os sistemas marxistas e capitalistas "falsificam o conceito de realidade com a amputação da realidade fundante, e por isso decisiva, que é Deus”. E o papa continua: "Só quem reconhece Deus, conhece a realidade e pode responder a ela de modo adequado e realmente humano”.
Pelo bem da verdade temos que acrescentar que não só sistemas ateístas, mas também religiões e, inclusive o cristianismo, podem responder inadequadamente aos reclamos da realidade. Em seguida temos de admitir que nessa visão da realidade se trata de uma mescla de dois níveis de realidade, de uma teológica sobreposta a uma sociológica.
Entretanto, é possível, numa teologia contextual articular os dois níveis da realidade, nos termos cristológicos de Calcedônia, sem confusão (inconfuse) e sem separação (indivise). O Cristo da fé assumiu como Jesus de Nazaré a cruz, que nos protege "da fuga para o intimismo”, como disse o papa, e de interpretações ideológicas da realidade. A análise da realidade com a premissa da opção pelos pobres, que significa "ver Deus nos rostos dos pobres”, não permite o abandono da realidade sociológica nem a sua redução aos grandes problemas econômicos, sociais e políticos. Mas, igualmente, não permite voltar a um Credo desencarnado ou a um Pai-Nosso sem pensar o "pão nosso” de toda a humanidade.
O prefixo de uma cristologia gloriosa em documentos oficiais recentes da Igreja, quase paralelo à realidade das vítimas dos sistemas e dos crucificados da história, se torna repetitivo, cansativo e distante do povo de Deus. Esse povo de Deus que, provavelmente, não se reconhece nas Diretrizes, ama Jesus e se reconhece, sobretudo, em Jesus crucificado. A Igreja precisa reaprender a falar de Jesus crucificado nos pobres. Nos DGAE 2011, a cruz aparece duas vezes (5, 69) e apenas uma vez essas Diretrizes falam do martírio (3).

3. Da estrutura
A 49ª Assembleia Geral, de 2011, considerou sumariamente "a mudança de época como maior desafio” (27). O tópico da "mudança de época” faz, no mínimo, dez anos que aparece em documentos eclesiais. Na estrutura das DGAE 2011 não somos mais confrontados com desafios do mundo, mas com cinco urgências da Igreja na ação evangelizadora, urgências que representam escolhas caseiras e reparos institucionais dos estragos que a mudança de época causa às Igrejas. Eis as cinco urgências que no IV capítulo das Diretrizes se tornam cinco "perspectivas de ação”:
(1) Igreja em estado permanente de missão;
(2) Igreja: casa de iniciação à vida cristã;
(3) Igreja: lugar de animação bíblica da vida e da pastoral;
(4) Igreja: comunidade de comunidades;
(5) Igreja a serviço da vida plena para todos.
Como a "opção preferencial pelos pobres” no Objetivo geral, também a verdadeira razão de ser da Igreja, estar "a serviço da vida plena para todos”, se encontra em último lugar nas perspectivas de ação. O quê é realmente urgente na Igreja? Urgente é o grito dos pobres, a dor dos excluídos, a cruz dos injustiçados! O resto são tarefas permanentes (estado permanente de missão, iniciação à vida cristã, animação bíblica, construção de comunidades). Com as urgências, os autores das DGAE não conseguem, como é a sua intenção, "ultrapassar uma pastoral de mera conservação ou manutenção para assumir uma pastoral decididamente missionária, numa atitude que, corajosa e profeticamente, [Aparecida] chamou de conversão pastoral”(DAp 370, DGAE 2011 n. 26).
Não podemos trocar desafios por urgências! E as Diretrizes admitem que as urgências elencadas nem sempre correspondam aos desafios reais (131). A urgência das DGAE 2011 aponta, como uma espécie de PAC (Programa de Aceleração dos Católicos) eclesial apenas para a velocidade, não para o caminho. Pela falta de recursos e agentes de pastoral nas periferias das nossas grandes cidades, os ministros que restam se tornaram, muitas vezes, missionários e missionárias de Fórmula 1, sobrecarregados com tarefas e distâncias. Estão "na onda” da aceleração exigida pelo mercado e agora pelas DGAE.
No conjunto das Diretrizes não falta uma cesta básica de desafios. O que falta é a devida priorização. Todos os desafios são subordinados à "mudança de época como o maior desafio a ser atualmente enfrentado” (27, cf. 26): educação na fé (40, 98), ambientes virtuais (59), mundo plural, globalizado, urbanizado e individualista (60), diversificação dos ministérios leigos, a vida dos abandonados, excluídos, ignorados em sua miséria e dor (66). As Diretrizes elencam ainda outros desafios: juventude (81), ecumenismo (82), diálogo interreligioso (83), missão ad gentes (84), testemunho de Cristo e dos valores do Reino (91), aproximação entre fé e razão (117).
Como já mencionamos, as urgências, que representam as partes centrais das DGAE (capítulo III e IV), são precedidas por uma reflexão cristológica, como ponto de partida (capítulo I), e por "Marcas de nosso tempo”(capítulo II). O capítulo V propõe a operacionalização dessas urgências nas Igrejas particulares através de "um processo de planejamento”. Para este propõe sete passos metodológicos, que as próprias DGAE nem sempre seguem.
Aos sete passos metodológicos correspondem sete perguntas: Onde estamos (1)? Onde precisamos estar (2)? Quais são as urgências pastorais (3)? O que queremos alcançar (4)? Como vamos agir (5)? O que vamos fazer (6)? Como renovar as estruturas (7)? Infelizmente, as perguntas bem feitas não podem romper o círculo de giz eclesiocêntrico previamente estabelecido.

4. Nas entrelinhas
O que não pode ser dito na praça pública, atravessa as Diretrizes nas entrelinhas. Queria destacar algumas dessas palavras quase clandestinas que permitem uma leitura mais profunda do que funcional das DGAE. Na esteira de Aparecida, as DGAE desenvolvem um guia de densa espiritualidade para o discípulo missionário universal em torno dos substantivos "alteridade” e "gratuidade”. Aparecida nos lembrou que "na generosidade dos missionários se manifesta a generosidade de Deus, na gratuidade dos apóstolos aparece a gratuidade do Evangelho” (DAp 31). As DGAE 2011 continuam: "As atitudes de alteridade e gratuidade marcam a vida do discípulo missionário de todos os tempos. Alteridade se refere ao outro, ao próximo, àquele que, em Jesus Cristo, é meu irmão ou minha irmã, mesmo estando do outro lado do planeta” (8). As DGAE, quando falam do outro como irmão e do apostolado como graça, enfatizam, em determinados enxertos, a fonte cristológica: "Gratuidade e alteridade são, portanto, modos de compreender o que há de mais decisivo em Jesus Cristo: a saída de si, rumo à humanidade [...]” (12).
Na acolhida do outro acolhemos Jesus e na acolhida de Jesus, que se fez Palavra do Pai, acolhemos o outro (cf. 50s). As diferenças nos convidam "ao respeito mútuo, ao encontro, ao diálogo, à partilha e ao intercâmbio de vida e à solidariedade” (ibd.). O intercâmbio da vida é prefigurado em Jesus e se resume nas palavras "doação”, "desprendimento” e "esvaziamento”(16). Por conseguinte, "todo relacionamento é [...] chamado a acontecer na gratuidade. À semelhança de Cristo Jesus que, saindo de si, foi ao encontro dos outros, nada esperando em troca (cf. Fl 2,5ss)” (9). O discípulo missionário "é chamado a profeticamente questionar, através de suas escolhas e atitudes, um mundo que se constrói a partir da mentalidade do lucro e do mercado” (DGAE n. 9). A gratuidade corta "a raiz mais profunda da violência, da exclusão, da exploração e de toda discórdia” (9). Ela é a "vitória sobre a ambição” (69). Num mundo dominado por lucro e mercado, por vingança e ressentimento, a acolhida gratuita do outro significa despojamento e perdão. São atitudes proféticas que fazem parte de um mundo novo, do outro mundo que é possível, do Reino de Deus no meio de nós (cf. 9s, 140).
Gratuidade e alteridade lembram o que já foi dito no documento "Evangelização e missão profética da Igreja” da 43ª Assembleia Geral, de 2005: "Evangelizar é uma ação eminentemente profética, anúncio de uma Boa-Nova portadora de esperança. A profecia será, pois, a forma mais eficaz de anunciar a Boa Nova” (Evangelização e missão, cap. 1).
Aonde vais, Igreja? Não estamos indo por aí, sem rumo. As reais urgências e os verdadeiros anseios do povo de Deus revelam-se nas entrelinhas das DGAE: a Igreja profética, o reconhecimento da alteridade, a gratuidade da missão e a fidelidade a Jesus Cristo crucificado e ressuscitado no meio do povo. Aí se encontra a possibilidade de a Igreja no Brasil interromper a fuga e ser, o que deve ser: "expressão da encarnação do Reino de Deus no hoje de nossa história” (141).
Paulo Suess

Michal Bajor canta Quo Vadis, Domine