Feliz 2014!


 
“NAVEGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO!”

[Fernando Pessoa]

 

No mundo marcado pelo neoliberalismo, nem viver nem navegar são precisos.

Feliz Ano Novo a todos os amigos e amigas num mundo onde

NAVEGAR É PRECISO E VIVER SEJA DESEJÁVEL!
 
 

Em outubro, Lampedusa foi palco de um dos piores desastres ao longo de duas décadas de imigração, quando um barco afundou perto da costa, matando pelo menos 366 pessoas. Depois de um incêndio, a embarcação superlotada que transportava mais de 500 imigrantes naufragou a poucas centenas de metros da costa da ilha italiana, alvo de milhares de imigrantes que fogem do Norte da África em balsas frágeis.

“não havia lugar para eles“ (Lc 2,7)







 A foto é de Mário Sérgio Rainha Campos, tirada na Aldeia Kararaô, no Xingu. O Departamento de Direito Internacional da OEA promoveu em parceria com o Art Museum of the Americas um concurso de fotografia com o tema “OLHARES INDÍGENAS”. A fotografia de Mário Sérgio foi clássificada como vencedora e ele me pediu um comentário para ser apresentado na premiação que ocorreu em 9 de novembro de 2013 em Washington.

“A menina é filha de um povo ameaçado em sua sobrevivência cultural e física. A ambição, a ganância, a busca desenfreada de riquezas passam por cima de seres humanos, profanam sua sabedoria milenar e os consideram supérfluos e descartáveis. O mundo em que só vale quem produz ou consome os condena à morte.

O Xingu é a última fronteira indígena. Aqui se abrigam ainda povos de todos os troncos linguísticos da América do Sul. Belo Monte é o golpe fatal no coração da Amazônia, o réquiem para os povos indígenas. Belo Monte é a orquestração de dissonâncias e cacofonias que hoje se sobrepõe às vozes paradisíacas das selvas outrora eternas, que sufoca o silêncio das águas intermináveis e irá emudecer o estrondo das majestosas cataratas.


A menina não sabe que está sendo preparada para um rito que um apocalipse implacável engendrado por homens desalmados pretende destruir para sempre. Oxalá a foto se transforme num último ingente clamor de todos os indígenas a sacudir a humanidade, um brado de esperança para quem não quer morrer e acredita até hoje no "sumak kawsay" no "bem viver" para todos e sempre.“

Santo Natal e abençoado Ano Novo!
Que em nosso querido Brasil
haja lugar para os Povos Indígenas!

Erwin Kräutler, Bispo do Xingu

Paraíso sitiado: o território dos Awá no Maranhão


O drama dos índios Awá e a resistência de seu povo que tenta impedir a ação criminosa de madeireiros na Reserva Biológica Gurupi, onde o território indígena já perdeu 30% de sua paisagem original.

Reportagem: Míriam Leitão - Fotos: Sebastião Salgado


Sobreviver com coragem


Piraima’a (à esquerda) e seu pai (Pirama’a) mostram marcas feitas por madereiros  que 
invadem a floresta para cortar ilegalmente árvores em terras indígenas. Esse tipo de árvore 
(Tabebuia) tem alto valor no mercado, mas é também sagrada para os Awá.
Considerados um dos últimos povos caçadores e coletores do planeta, os poucos mais de 400 Awá que povoam o que restou da Floresta Amazônica no Maranhão vivem o momento mais decisivo de sua sobrevivência: impedir que grileiros, posseiros e madeireiros destruam o seu mais valioso bem. É das árvores e da mata densa situadas na Reserva Biológica do Gurupi, de onde tiram o seu alimento, a sua certeza de amanhã poderem garantir a continuação de seu povo, de sua gente. Eles não querem nada mais do que a garantia do governo federal de que não terão o seu terrítório devastado pela ganância do homem branco, que avança a passos largos em busca de madeira nobre.

Apesar de sua terra já estar demarcada, homologada e registrada com 116.582 hectares pela União, eles enfrentam uma ameaça real de assistir à destruição da floresta da qual são tão dependentes e de onde tiram o sustento de seus filhos. Ainda que a Justiça já tenha determinada a retirada desses 'intrusos' ou não índios, como define a Funai, os Awá temem pela própria sorte, se afirmam em sua coragem e não vacilam quando veem sua resistência em xeque. "Não temos medo. Vamos resistir", dizem em discursos emocionados.


Liberação da terra Awá

Míriam Leitão, Coluna no Globo, 24.12.2013 -

Vai começar a desintrusão da Terra Awá. A palavra é estranha, mas quer dizer algo que se esperava que acontecesse ao longo deste segundo semestre, até por ordem judicial: a retirada dos não indígenas da área demarcada e registrada como dos índios do grupo Awá Guajá, no Maranhão. Chove muito esta época do ano, mas será assim que as tropas vão se deslocar.

A ordem do juiz federal no Maranhão José Carlos do Vale Madeira estabeleceu prazos e modos da retirada dos não indígenas. O governo já reuniu todos os órgãos envolvidos e concluiu o plano da retirada dos não indígenas.

Os que estiverem instalados na terra indígena receberão nos próximos dias notificações para deixar o local. Os moradores terão 40 dias para retirar seus bens. Ao final do prazo, serão desapropriados. Foram expedidos mandados de busca e apreensão de todos os equipamentos que estiverem ligados à prática criminosa.

Vão se deslocar para cumprir a ordem judicial, e o plano do governo, tropas do Exército e funcionários da Funai, ICMBio, Incra, Ministério Público, Força Nacional de Segurança, Polícia Militar do Maranhão. Foi criado, por ordem do juiz, o Comitê de Desintrusão da Terra Awá Guajá, com representantes de todos esses órgãos e mais a OAB, ABIN, Secretaria-Geral da Presidência, Ibama, um integrante da Assembleia Legislativa e outro do Governo do Maranhão.

Será instalada para executar a operação uma grande base em São João do Caru e outra em Vitória da Conquista, no Maranhão, onde há grande concentração de madeireiros.

O governo vai derrubar as cercas e fechar os ramais que foram abertos pelos madeireiros nas invasões frequentes da Terra Awá. A ideia é abrir apenas uma estrada que contorne a terra para facilitar o acesso da fiscalização. O risco é a estrada acabar facilitando novos ataques à mata onde vivem os índios, nessa área que é um dos últimos remanescentes de Floresta Amazônica no Maranhão.

Em agosto, o GLOBO publicou uma longa reportagem feita por mim e pelo fotógrafo Sebastião Salgado (*). “O Paraíso Sitiado” teve como título na primeira página o resumo do que vimos lá: “Eles estão em perigo.” Era o começo da estação madeireira, e os índios estavam encurralados por madeireiros que atacavam a floresta por todos os lados. Ameaçavam reagir, mas como? São 400 pessoas de um grupo contactado no final dos anos 1990, depois de terem fugido por quase 500 anos.

Os Awá são nômades, acabaram de ser aldeados, poucos falam português, são do tronco Tupi e têm uma ligação intensa com a floresta, porque creem que a existência do mundo após a morte depende da manutenção da floresta em pé.


Como sempre, nestas situações, a ocupação da terra indígena foi feita tanto por grileiros e madeireiros, quanto pelos posseiros. A Justiça julgou que eles não são ocupantes de boa fé; ou seja, sabiam que era uma terra indígena. Apesar disso, há enorme diferença entre os dois grupos. A ordem judicial determina que os posseiros recebam ajuda do governo através de financiamentos do Pronaf, sementes, inclusão no Bolsa Família, inscrição no INSS e concessão de terra através do Incra. Há uma área próxima, em Bom Jardim, onde devem ser assentadas 60 famílias. Outras receberão crédito fundiário.

Há uma grande fazenda, o empreendimento agropecuário Alto Turiaçu, na terra indígena Awá Guaja, que terá que sair imediatamente. A Justiça determinou a desocupação da fazenda e a retirada — ou demolição — dos imóveis e dos bens móveis e animais.

A Coordenação dos Índios Isolados e Recém Contatados da Funai quer iniciar, em seguida, o trabalho de reconstituição da cobertura florestal na área desmatada da terra Awá Guajá. 

Noite Feliz no Supremo



Noite Feliz no Supremo Tribunal Federal (STF):
Flagramos os Ministros Ricardo Lewandowski, Joaquim Barbosa e Gilmar Mendes

Pesquisa participante: O sociólogo Paulo Magalhães e o Papa Francisco


“Quem tem plano para o futuro possui uma vontade e um desejo de se religar com a sociedade”


Durante um mês, o sociólogo Paulo Magalhães, de 61 anos, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), conviveu com 35 moradores de rua, segundo noticiou a coluna de Ancelmo Gois. Concluiu que vivem em grupos e que a melhor solução é manter essas relações afetivas.

A entrevista é de Catharina Wrede e publicada pelo jornal O Globo, 18-12-2013.

Eis a entrevista.

Como surgiu a ideia do projeto? Você desde o início pensava em morar um mês com os moradores de rua?

Foi uma demanda do Adilson Pires (vice-prefeito), que contratou o Iets pra fazer três coisas: uma contagem da população de rua; em seguida, uma pesquisa qualitativa que tenta aprofundar algumas questões; e uma pesquisa quantitativa, um perfil geral. Eu fiquei responsável pela parte qualitativa.

Qual foi a estratégia de pesquisa in loco?

Durante um mês, passeei por locais, convivi com os moradores de rua, me misturei, sentava nas rodas deles. Me concentrei nas regiões do Centro, Largo do Machado e Leme. Eu estava insatisfeito com o que a literatura sobre o assunto colocava, sempre focando no drama pessoal de cada um, querendo saber como eles foram parar ali. Eles são profundamente marcados por essas histórias e revivem a dor sempre que pedem para recontarem tudo. Eu quis saber das relações deles ali nas ruas, sobre o amor. Fiz uma outra abordagem, sem aquele ranço mais clássico. Teve um negro muito sisudo, fechado, que já tinha um discurso pronto quando queriam saber como ele tinha ido para a rua. Eu virei para ele e perguntei: “você já se apaixonou alguma vez?”. Ele mudou o semblante na hora. Mas o que eu queria mesmo entender era por que é bom morar na rua.

E você conseguiu entender? Por que eles preferem continuar na rua a ir para abrigos?

Consegui. Eles são, em primeiro lugar, territorializados. Eles se estruturam em grupos, desenvolvem relações de afeto, comemoram aniversários, datas festivas — menos o Natal, porque remete à família e aí “ferra” com eles —, há uma forte vida grupal. Em segundo lugar, eles têm uma estratégia. Todo mundo diz que a rua é violenta. Então, eles se banalizam, se misturam à paisagem urbana. Como se tornam rostos conhecidos de determinadas regiões, não são mais hostilizados, porque não representam uma ameaça. É uma invisibilidade que se dá na medida em que não representam perigo para os moradores locais. Depois, eles usufruem de uma rede societária de proteção social. Uma rede local de solidariedade, em que ganham quentinhas de comerciantes, usam os banheiros de alguns estabelecimentos, conseguem tomar banho... E existe uma rede maior, privada, que também contribui: instituições que dão sopas, outras que dão remédios, laboratórios que distribuem café de manhã cedo. Com isso, eles se mantêm perfeitamente.

A maioria dos moradores de rua não passa fome?

Não passa mesmo. A autoestima está muito na alimentação. Eles comem quentinhas boas, não existe problema de alimentação. Agora, aquela sopinha rala e amarela do abrigo... Eu vi o que é. Aquilo não segura. Na rua, o difícil é a droga. Isso eles não ganham, então têm que pedir esmola. Um deles falou claramente para mim: “se você me der R$ 50, eu vou cheirar tudo”. Aí, falam que precisam de dinheiro para comprar um remédio e tal, mas não consideram uma mentira no sentido ético. É tudo representação. Eles podem se vestir de uma forma muito melhor do que vemos. Mas precisam cumprir a expectativa social do que é o mendigo. Não é que eles tenham consciência absoluta disso, mas é por aí.

Na sua opinião, qual é o pior momento para eles?

O choque de ordem que acontece a partir de meia-noite, com as vans da Secretaria municipal de Assistência Social, que passam metendo bronca, mesmo. Recolhem eles e levam tudo que eles têm embora, suas preciosidades. Isso eu não vi, mas eles dizem que apanham muito lá dentro.

E qual foi o momento mais difícil para você durante o processo?

Senti medo no hotel (hotéis do governo, que abrigam a população de rua). É uma loucura, rola “porradaria” entre eles, é um ambiente super depressivo. Acompanhei a chegada deles nesse abrigo, para onde são levados até as 22h. Recebem uma sopa rala e vão para os quartos, completamente separados de seus grupos. Para se ter uma ideia, o porteiro fica numa cela, por segurança. O clima é de tensão absoluta, eles não confiam uns nos outros, acham que vão ser roubados. Não é como a rua. Esses lugares não servem para acalmá-los, muito pelo contrário.

Qual a melhor solução para a questão?

Estou totalmente convencido de que é preciso resgatar o grupo. A questão não é individual, é grupal. Não adianta tentar reintegrá-los às antigas famílias. Elas não existem mais. As relações são outras depois que passam a viver na ruas. As políticas públicas deveriam buscar essas novas famílias afetivas formadas por eles. É preciso analisar o grupo e ver o que fazer. Acho muito mais exequível trabalhar com a rede coletiva como forma de saída do que unicamente o indivíduo. Durante o tempo que passei no Leme, conheci um casal que se conheceu na rua. Ele, apesar de muito drogado o tempo inteiro, sempre se dizia apaixonado pela namorada. Ela, mais lúcida, dizia que eles queriam casar e ter um filho. Como separar esses dois? Não dá. Há muita dor, mas muito amor entre eles também.

O que mais te chamou a atenção?



Eles têm retórica. Essa ideia de que os moradores de rua são pessoas hiper despreparadas é furada. Eles têm uma consciência absoluta, sabem da condição deles. Não é aquela imagem de um cara totalmente degradado, que não tem nada. Eles têm uma reflexão. Básica, mas têm. Não são completamente desprovidos do conhecimento, do saber, ainda que de forma precária. E, além disso, a capacidade de vislumbrar uma perspectiva mínima de futuro também me surpreendeu. Eu concebo que quem tem plano para o futuro possui uma vontade e um desejo de se religar com a sociedade. Falta apenas esse gancho.





Ao lado do esmoleiro apostólico, Konrad Krajewski, o Papa Francisco recebe,
no dia de seu aniversário, três sem-teto e o cachorro de um deles para um 
café da manhã no Vaticano O grupo vive nas proximidades do Vaticano.



Rafael Braga Vieira – Morador de rua, pobre, negro e preso


 
Mais de cinco meses depois de ter sido preso por portar água sanitária e Pinho Sol perto de um protesto no centro do Rio de Janeiro, o morador de rua Rafael Braga Vieira recebeu a primeira visita na sexta-feira passada, dia 6, no complexo penitenciário de Japeri. Só então ficou sabendo da notícia que circulava há três dias pelos jornais de todo o país: fora condenado a 5 anos e 10 meses em regime fechado pelo “crime”.
A visita era a advogada Raphaela Lopes, do Instituto Defensores de Direitos Humanos, que assumiu a sua defesa, e vai recorrer. Rafael estava cabisbaixo, amedrontado e ficou perplexo com a condenação. Depois do encontro, a advogada reforçou sua tese: a polícia e a justiça ignoraram direitos e princípios básicos pelo fato de Rafael ser morador de rua, pobre e negro – uma pessoa sem defesa ou rede de apoio.
 
 
O exemplo mais gritante é a imagem de sua prisão: Rafael foi algemado pelos pés, uma prática de humilhação que deveria estar banida das penitenciárias do país. “Até o uso de algemas no braço hoje é condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o policial só pode algemar se o preso oferecer risco. Imagina nos pés? É desumano, prática do século retrasado, o que se fazia com os escravos”, argumenta Raphaela. A foto foi publicada pelo site Rio na Rua, que faz cobertura independente dos protestos.
Para tentar responder a pergunta do post passado "Quem é Rafael Braga Vieira?" e entender o que essa condenação pode representar para o Brasil, o blog entrevista a advogada e única pessoa a visitá-lo até agora.
Como será a defesa de Rafael?
Ele foi condenado por porte de material explosivo, mas foi flagrado com duas garrafas plásticas. O coquetel molotov necessariamente precisa de garrafa de vidro, é assim que a fagulha se espalha. O juiz diz ainda que uma das garrafas tinha quantidade mínima de álcool e o condena por uma suposta intenção de incendiar. Essa é uma a arbitrariedade sem base jurídica. Assumir que a pessoa tem a intenção de incendiar só porque ela está andando com uma garrafa que contém álcool?
O que ele tem a dizer sobre os protestos?
Nada. Ele não estava na manifestação. Ele não tem nenhum tipo de ligação com as manifestações. Foi a pessoa errada na hora errada.
Poderia falar um pouco sobre quem é Rafael Braga Vieira?
Ele é negro, tem 25 anos, cursou até a 5a série, tem 6 irmãos, a mãe dele mora na Penha ele trabalha em brechós na Praça XV de Novembro. É complicado descrever alguém que se conheceu na cadeia, a pessoa está com medo, o tempo todo recebendo ordens, ele mal olhava nos nossos olhos.
Como ele reagiu à notícia da condenação?
Ele ficou surpreso com a rigidez e por ser em regime fechado. Nos pediu para contatar a sua mãe, que ainda não está sabendo da prisão.
Qual sua avaliação desse caso?
O juiz tira dele direitos básicos, como o benefício da dúvida. No direito penal, há a presunção da inocência. Ou seja, se há alguma dúvida, é preciso dar ao réu o benefício da dúvida. O Rafael teve esse benefício negado, como se certos princípios não se aplicassem a ele. Na minha avaliação, ele não foi condenado por um crime, ele foi condenado por ser morador de rua, pobre, negro. Isso fala muito sobre o atual cenário que vivemos no Rio de Janeiro, onde cresce um modelo de cidade excludente, para poucos, elitista. Pessoas como o Rafael não são desejadas nesse cenário. Esse discurso pode soar radical, mas é a forma como as coisas acontecem, como a argumentação contra ele é construída na sentença.
O que esse caso diz sobre o modo como o estado e a justiça lidam com os protestos?
 
Existe uma pressão para que pessoas sejam responsabilizadas pelo quebra-quebra e vandalismo. As pessoas detidas servem como bode expiatório. O que me intriga é a resposta do estado aos protestos: não há diálogo, abertura para entender o motivo da insatisfação. O estado só responde com mais repressão e criminalização. Que democracia é essa? As pessoas estão protestando dentro de um contexto político, mesmo aquelas que estão quebrando as coisas. O Rio tem um contexto violento de cerceamento e exclusão das populações pobres. A forma como a cidade está sendo preparada para os megaeventos é uma pauta política, mas não há disponibilidade do estado em dialogar.
A condenação de Rafael pode servir como um recado para assustar futuras manifestações?
Sem dúvida. Principalmente pela pena tão alta. Mais uma vez, a reação do estado é a criminalização.
Tem mais alguma coisa a acrescentar sobre Rafael?
Nós fizemos exatamente essa pergunta a ele “tem alguma coisa que você queira falar pras pessoas lá fora?”. Ele não disse nada. Só frisou a vontade de que sua mãe ficasse sabendo.
 
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Eduardo Baker: Moinhos de gastar gente
 
A tentativa do Estado de criminalizar e condenar aqueles e aquelas que têm feito da rua o lugar para expressar seu desejo de transformação social fez sua primeira vítima.
 
Se entre os manifestantes temos uma multiplicidade de classes, raças, corpos e mentes, não por acaso o primeiro enviado ao cadafalso foi um morador de rua negro de 26 anos chamado Rafael Braga Vieira.
 
Ainda que o discurso oficial seja de guerra a quem faz da tática "black bloc" sua forma de resistência, a seletividade garante a repressão penal apenas em um mesmo grupo estigmatizado.
 
 
 
As prisões em manifestações parecem confirmar esse quadro. A outra pessoa detida é Jair Seixas, o Baiano, igualmente negro e militante pela causa dos sem-teto. Ele teve seu pedido de liberdade negado de forma unânime pela 2ª Câmara Criminal sob o argumento da manutenção da ordem. Para a Justiça, não há espaço para garantias penais mínimas se você é negro e pobre.
 
Jair Seixas Rodrigues, o Baiano
Rafael foi condenado a cinco anos de prisão em regime fechado, no dia 2 de dezembro de 2013, por porte de artefato explosivo. Rafael portava duas garrafas de plástico. Uma de água sanitária e outra de desinfetante que conteria álcool. Ele usava o material para limpar seu local de descanso, o chão da rua. A "prova" de seu suposto crime estaria no depoimento de policiais e em um parágrafo do laudo técnico da perícia, que na maior parte comprova que Rafael era inocente.
 
Os PMs, segundo a sentença, "são pessoas idôneas e isentas". Os relatos e vídeos de flagrantes forjados não parecem ter sido capazes de derrubar a falsa ideia, predominante no Judiciário, de que a fala de quem efetua a prisão é prova idônea e suficiente para criminalizar.
 
O laudo técnico, por outro lado, descreve as garrafas como tendo "mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov", servindo no máximo "como arma de coação, intimidação". Ainda assim, a conclusão do Judiciário é que a tese defensiva e o interrogatório evidenciam "uma tentativa desesperada de esquivar-se das imputações formuladas". Uma "uma versão pueril e inverossímil".
 A pena foi agravada de quatro para cinco anos pelo fato de Rafael já ter sido previamente criminalizado. No entender do julgador, é igualmente necessário que o regime de cumprimento seja o fechado, pois é "adequado para garantir o caráter repressivo e preventivo" da pena.
 
A falta de compreensão não parece estar naquele que passará seus próximos anos encarcerado em uma cela superlotada sem acesso adequado à alimentação e saúde. Quando há uma condenação por porte de artefato explosivo sem artefato explosivo, segundo laudo pericial, a incompreensão parece estar em outro lugar. Quando se afirma que é preciso que se prenda (de novo) para o sujeito entender que a prisão previne o suposto crime, a incompreensão parece estar em outro lugar. Quando se fundamenta uma condenação na fala de policiais que realizam o flagrante, contrariando o laudo pericial, a incompreensão parece estar em outro lugar.
 
A incompreensão está do lado do aparato repressivo do Estado. As instâncias se fazem cegas ao prender-se a uma lógica militarista e punitivista que vê na repressão violenta a única forma de se lidar com a demanda popular. Não é por acaso que Amarildos desaparecem e Rafaeis alimentam o moinho de gastar gente do sistema carcerário brasileiro. Quem não entende é quem acredita que essa condenação é neutra e justa. Todos os presos são políticos. Rafael é mais um deles.
 EDUARDO BAKER, 28, é advogado da ONG Justiça Global, que atua na área de direitos humanos; 10.12.2013, F.d.S.P., Opinião, A3
 

 
 
 

Três imaginários da Imaculada Conceição de Nossa Senhora hoje celebrada na Igreja Católica


A Puríssima



 
Nicarágua

 
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Na. Sra. Apárecida


 
Brasil


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Maria Desatadora dos Nós




 
Argentina




Morreu a consciência anti-apartheid: Nelson Mandela (1918-2013)











O ex-presidente da África do Sul Nelson Mandela morreu aos 95 anos em Pretória, nesta quinta-feira (5), anunciou o atual presidente, Jacob Zuma. Mandela ficou internado de junho a setembro devido a uma infecção pulmonar. Morreu às 20h50, no horário local de Pretória. "Ele partiu, ele se foi pacificamente na companhia de sua família”, afirmou o presidente. “Nossa nação perdeu seu maior filho. Nosso povo perdeu seu pai.”
 
Conhecido como “Madiba” na África do Sul, ele foi considerado um dos maiores heróis da luta dos negros pela igualdade de direitos no país e foi um dos principais responsáveis pelo fim do regime racista do apartheid, vigente entre 1948 a 1993.
Ficou preso durante 27 anos e ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993. Foi eleito em 1994 o primeiro presidente negro da África do Sul, nas primeiras eleições multirraciais sul-africanas.
Em 1952, já presidente da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano, foi escolhido líder da campanha de oposição contra seis leis consideradas injustas. Acusado sob a Lei de Supressão do Comunismo, foi preso e condenado a trabalhos forçados.
Havia algum tempo sua saúde frágil o impedia de fazer aparições públicas na África do Sul - a última foi durante a Copa do Mundo de 2010, realizada no país.
 
Biografia
 
Mandela nasceu em 18 de julho de 1918 no clã Madiba no vilarejo de Mvezo, no antigo território de Transkei, sudeste da África do Sul. Seu pai, Henry Gadla Mphakanyiswa, era chefe do vilarejo e teve quatro mulheres e 13 filhos - Mandela nasceu da terceira mulher, Nosekeni. Seu nome original era Rolihlahla Mandela.
Após seu pai morrer em 1927, ele foi acolhido pelo rei da tribo, Jongintaba Dalindyebo. Ele cursou a escola primária no povoado de Qunu e recebeu o nome Nelson de uma professora, seguindo uma tradição local de dar nomes cristãos às crianças. Conforme as tradições Xhosa, ele foi iniciado na sociedade aos 16 anos, seguindo para o Instituto Clarkebury, onde estudou cultura ocidental. Na adolescência, praticou boxe e corrida.
Mandela ingressou na Universidade de Fort Hare para cursar artes, mas foi expulso por participar de protestos estudantis. Ele completou os estudos na Universidade da África do Sul. Após terminar os estudos, o rei Jongintaba anunciou que Mandela devia se casar, o que motivou o jovem a fugir e se mudar para Johanesburgo, em 1941.
Em Johanesburgo, ele trabalhou como segurança de uma mina e começou a se interessar por política. Na cidade, Mandela também conheceu o corretor de imóveis Walter Sisulu, que se tornou seu grande amigo pessoal e mentor no ativismo antiapartheid. Por indicação de Sisulu, Mandela começou a trabalhar como aprendiz em uma firma de advocacia e se inscreveu na faculdade de direito de Witwatersrand.
Mandela começou a frequentar informalmente as reuniões do Congresso Nacional Africano (CNA) em 1942. Em 1944, ele fundou a Liga Jovem do Congresso e se casou com a prima de Walter Sisulu, a enfermeira Evelyn Mase. Eles tiveram quatro filhos (dois meninos e duas meninas) – uma das garotas morreu ainda na infância.
Em 1948, ele se tornou secretário nacional do Congresso Nacional Africano (CNA) – no mesmo ano, o Partido Nacional ganhou as eleições do país e começou a implementar a política de apartheid (ou segregação racial). O estudante conheceu futuros colegas da política na faculdade, mas abandonou o curso em 1948, admitindo ter tido notas baixas - ele chegou a retomar a graduação na Universidade de Londres, mas só se formou em 1989 pela Universidade da África do Sul, quando estava preso.
Em 1951, Mandela se tornou presidente do CNA. Em 1952, ele abriu com o amigo Oliver Tambo o primeiro escritório de advocacia do país voltado para negros. No mesmo ano, Mandela foi escolhido como líder da campanha de oposição encabeçada pelo CNA e viajou pelo país, em protesto contra seis leis consideradas injustas. Como reação do governo, ele e 19 colegas foram presos e sentenciados a nove meses de trabalho forçado.
Em 1955, ele ajudou a articular o Congresso do Povo e citava a política pacifista de Gandhi como influência. A reunião uniu a oposição e consolidou as ideias antiapartheid em um documento chamado Carta da Liberdade. No fim do ano, Mandela foi preso juntamente com outros 155 ativistas em uma série de detenções pelo país.
Em 1963, Mandela e outras nove pessoas foram julgados por sabotagem, no que ficou conhecido como Julgamento Rivonia. Sob o risco de ser condenado à pena de morte, Mandela fez um discurso à corte que foi imortalizado.
“Eu lutei contra a dominação branca, e lutei contra a dominação negra. Eu cultivei o ideal de uma sociedade democrática e livre, na qual todas as pessoas vivem juntas em harmonia e com oportunidades iguais. Este é um ideal pelo qual eu espero viver e alcançar. Mas, se for necessário, é um ideal pelo qual estou preparado para morrer”, afirmou. Em 1964, Mandela e outros sete colegas foram condenados por sabotagem e sentenciados à prisão perpétua. Um deles, Denis Goldberg, foi preso em Pretória por ser branco. Os outros foram levados para a Ilha de Robben.
 
27 anos de prisão
 
Mandela passou 18 anos detido na ilha de Robben, na costa da Cidade do Cabo, e nove na prisão Pollsmoor, no continente – a transferência ocorreu em 1982. Enquanto esteve preso, Mandela perdeu sua mãe, que morreu em 1968, e seu filho mais velho, morto em 1969. Ele não foi autorizado a participar dos funerais.
Durante o período em que ficou preso, sua reputação como líder negro cresceu e sedimentou a imagem de liderança do movimento antiapartheid. A partir de 1985, ele iniciou o diálogo sobre sua libertação com o Partido Nacional, que exigia que ele não voltasse à luta armada.
Em 2 de fevereiro de 1990, o presidente sul-africano Frederik Willem de Klerk reinstituiu o Congresso Nacional Africano (CNA). No dia 11 de fevereiro de 1990, Mandela foi solto e, em um evento transmitido mundialmente, disse que continuaria lutando pela igualdade racial no país.
 
Prêmio Nobel e presidência
 
Em 1991, Mandela foi eleito novamente presidente do CNA. Nelson Mandela e Frederik de Klerk dividiram o Prêmio Nobel da Paz em 1993, por seus esforços para trazer a paz ao país. Mandela encabeçou uma série de articulações políticas que culminaram nas primeiras eleições democráticas e multirraciais do país em 27 de abril de 1994.
O CNA ganhou com 62% dos votos, enquanto o Partido Nacional teve 20%. Com o resultado, Mandela tornou-se o primeiro líder negro do país e também o mais velho, com 75 anos. Ele tomou posse em 10 de maio de 1994. A gestão do presidente foi marcada por políticas antiapartheid, reformas sociais e de saúde.
Em 1996, Mandela se divorciou de Nomzamo Winnie Madikizela por divergências políticas que se tornaram públicas. Em 1998, no dia de seu 80º aniversário, ele se casou com Graça Machel, viúva de Samora Machel, antigo presidente moçambicano.
 
Em 1999, não se candidatou à reeleição e se aposentou da carreira política. Desde então, ele passou boa parte de seu tempo em sua casa no vilarejo de Qunu, onde passou a infância, na província pobre do Cabo Leste. Em 2008, a comemoração de seu aniversário de 90 anos foi um ato público em seu país e no exterior. Em novembro de 2009, a ONU anunciou que o dia de seu aniversário seria celebrado em todo o mundo como o Dia Internacional de Mandela, uma iniciativa para estimular todos os cidadãos a dedicar 67 minutos a causas sociais - um minuto por ano que ele dedicou a lutar pela igualdade racial e para o fim do apartheid.
[fonte: G1, São Paulo]

Voltando do México profundo



Ao voltar do México, José Oscar Beozzo e eu, voltamos de muitos Méxicos contrastantes. Do “México profundo” com sua civilização indígena negada e descrita por Guillermo Bonfil Batalla, do México peregrino da Basílica dedicada à Na. Sra. de Guadalupe e Juan Diego, do México da violência dos narcotraficantes; dos Legionários de Cristo e de Girolamo Prigione, núncio nefasto em México entre 1978 e 1997; do México dos amigos do Cenami e dos ex-alunos do curso de pós-graduação em Missiologia, São Paulo.
Desde a conquista, Bonfil argumenta, os povos do profundo México têm sido dominados por um "México imaginário" imposta pelo Ocidente. É imaginário, não porque não exista, mas porque nega a realidade cultural vivida diariamente pela maioria dos latino-americanos, mexicanos, brasileiros, argentinos...
 
As despedidas, neste Continente, sempre me fazem contemplativas lembrando a despedida de Lévi-Strauss dos Bororo (Tristes Trópicos): “A contemplação proporciona ao homem o único favor que ele sabe merecer: suspender a marcha, reter o impulso que o obriga a tapar, uma após outra, as fendas abertas no muro da necessidade e a concluir a sua obra, ao mesmo tempo que abandona a sua prisão; esse favor que toda a sociedade ambiciona, quaisquer que sejam as suas crenças, o seu regime político e o seu nível de civilização; onde ela situa o seu ócio, o seu prazer, repouso e liberdade; oportunidade fundamental para a vida, de se desligar, e que consiste – adeus, selvagens! adeus, viagens! – durante os breves intervalos em que a nossa espécie suporta interromper a sua faina de colmeia em captar a essência do que ela foi e continua ser, aquém do pensamento e além da sociedade: na contemplação de um mineral mais belo que todas as nossas obras; no perfume mais sábio que os nossos livros, respirando no âmago de um lírio; ou no piscar de olhos, cheio de paciência, serenidade e perdão recíproco que um entendimento involuntário permite, por vezes, trocar com um gato.”

Encerrado o “Ano da Fé - abertura do “milênio de esperança



No dia 19 de novembro, em que a Pontifícia Comissão para América Latina (CAL) esteve reunida na Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe para encerrar o “Ano da Fé", um grupo de ex-alunos do curso de pós-graduação de Missiologia, em São Paulo, e amigos da causa indígena encerraram seu “Simpósio Missiológico” com a abertura de um “milênio da esperança". Foi um evento de celebração, comemoração e projeção em torno dos 50 anos do Concílio Vaticano II.


O “Simpósio Missiológico” reuniu sobreviventes do tempo pós-conciliar com a memória perigosa do Vaticano II cujo legado - uma pedra preciosa - aranhamos apenas com o prego enferrujado de um tradicionalismo sem audácia imposto pela “alfândega pastoral”, como o Papa Francisco diria. A presença do papa do “fim do mundo”, na Igreja universal, e sua luta contra os coveiros fundamentalistas do concílio, abrem novas perspectivas na sua realização.

Os participantes do simpósio trabalham hoje em diferentes trincheiras pastorais e missões, onde a memória perigosa tem nomes concretos: povos indígenas e Teologia Índia, descolonização litúrgica e inculturação da esperança, pastoralização das estruturas eclesiásticas e do direito canônico, auto-referencialidade e clericalismo, igualdade ministerial entre homens e mulheres e reconhecimento da alteridade em todas as suas dimensões. Dois dos nossos ex-alunos se tornaram bispos, nosso Aymara Carlos Intipampa, da Igreja Metodista, em Bolívia, e o Passionista Luiz Fernando Lisboa, em Moçambique.

Ao anoitecer, enquanto grupos folclóricos dançaram na praça entre a velha e a nova Basílica, preparando as festividades de Nossa Senhora da Guadalupe, membros da CAL convidaram seus participantes para rezar o terço na Basílica. A presença de Raul Vera, bispo de Saltillo, no final do encontro missiológico, tornou com sua intervenção o óbvio, público e nos lembrou que “a dimensão profética é dimensão essencial da missão evangelizador da Igreja”.
Paulo Suess


D. Raul Vera 

e

 Clodomiro Siller