Mês Missionário 3
Eis a nossa missão:
Anunciar outro mundo
Construir outra globalização:
Com novo pano de fundo
Conectando conectados
Em rede, tapete, mutirão.
Mês Missionário 2
(Artista: Habdank)
Missão Profética
Escutar - Ver - Servir

Caminhando para Aparecida do Norte

4. Nossa Senhora da Imaculada Conceição Aparecida

A imagem original de Nossa Senhora Aparecida é uma imagem de Nossa Senhora da Conceição, que precede por muitos séculos a proclamação do dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria. Três pescadores encontraram, no dia 12 de outubro de 1717, uma imagem de barro cozido no rio Paraíba. Levaram a imagem para casa, onde atraiu devotos e operou milagres. No decorrer dos anos, muitas graças foram alcançadas pelos devotos da “Cidinha”, como carinhosamente é chamada.

Em muitos lugares do mundo se conta histórias semelhantes da origem humilde de uma devoção ou aparição de Nossa Senhora. Depois, quando o movimento cresce, a classe dominante percebe o alcance político do fenômeno religioso, manda construir capelas cada vez maiores, Igrejas e Basílicas. Inicia-se um processo de embelezamento dos fatos e das imagens e a integração na religiosidade oficial. Assim a pobre virgem de Nazaré se torna rainha dos cristãos. O povo gosta dessa ascensão social de suas devoções, sem considerar uma ameaça de seu protagonismo e imaginário religioso.

Meio ano depois da assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888, que aboliu a escravatura, a Princesa Isabel visitou a basílica e ofertou à santa uma coroa de ouro cravejada de diamantes e rubis, juntamente com um manto azul, ricamente adornado. Seis anos mais tarde, em oito de setembro de 1904, a imagem foi coroada. O evento contou com a presença do Núncio Apostólico, bispos, o Presidente da República Rodrigues Alves e muitos fieis. Em 16 de julho de 1930, por decreto do papa Pio XI, Nossa Senhora da Conceição Aparecida, foi proclamada Rainha do Brasil e sua Padroeira Oficial. Durante a ditadura militar, em 30 de junho de 1980, o dia 12 de outubro foi decretado oficialmente feriado. Em 1980, João Paulo II, e em 2007, Bento XVI visitaram Aparecida. O “Documento de Aparecida”, resultado da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, de 13 a 31 de maio de 2007, levou mito e realidade, graça e grandeza de Aparecida até os confins do mundo católico.
Entre a “Madona Negra”, a “Imaculada” e a “Aparecida” existem diferenças e semelhanças. A festa da Imaculada é celebrada 8 de dezembro e a festa da Aparecida, 12 de outubro. A “Madona Negra” não tem data determinada. A “Imaculada”, geralmente, é branca e sem filho. A imagem da “Aparecida” é também sem filho, mas negra. A “Aparecida” introduziu a negritude na “Imaculada” e a “Imaculada” introduziu a pureza na “Aparecida”. A “Aparecida” tem a cor em comum com a “Madona Negra”. Mas o triunfo da “Madona Negra” é o filho. A “Imaculada” espiritualizou o filho. Se a “Virgem Imaculada” foi redimida por Cristo de maneira preventiva, a sua mera existência de “Imaculada” pressupõe sempre o “Filho Redentor”.

Que a festa da “Cidinha” nos faça lembrar, que sua imagem de barro cozido e escurecido pela longa permanência nas águas do rio Paraíba, não foi encontrada num berço esplêndido! Desde as profundezas das águas da nossa realidade e do nosso imaginário, onde convivem pobreza e realeza, Nossa Senhora Aparecida é nossa intercessora, nos convoca e envia - a serviço do Reino. O grito “Viva Nossa Senhora Aparecida!” nos lembre da mobilização continental do 12° Grito dos/as Excluídos/as, que se realiza nesse mesmo 12 de outobro sob o lema "Trabalho, Justiça e Vida". Para mais informações, acesse: http://www.gritodelosexcluidos.org

Caminhando para Aparecida do Norte

3. Contexto do dogma da Imaculada Conceição

Aparecida do Norte é um santuário de Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Sua devoção é antiga, sua teologia era controvertida (entre Duns Escoto e Tomás de Aquino), seu dogma é recente.

Em 1823, na viagem de ida ao Chile, onde estaria por dois anos a serviço da nunciatura apostólica, o jovem sacerdote Giovanni Mastai-Ferreti, que 23 anos mais tarde seria eleito papa Pio IX (1846-1878), atracou com uma comitiva de religiosos por alguns dias no porto de Santos, SP. No dia 8 de dezembro, participou de uma procissão popular da Imaculada, que o impressionou. Em 1854, portanto 31 anos mais tarde, Giovanni Mastai-Ferreti, agora já como papa Pio IX, proclamou em Roma o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria.

O pontificado de Pio IX era um pontificado de um perdedor vitorioso. Perdeu os Estados Pontifícios contra as forças progressistas, liberais e nacionais que lutavam pela unificação da Itália. Mas, ele compensou as perdas territoriais com vitórias ideológicas no campo religioso, onde proclamou os dogmas da Imaculada Conceição e da infalibilidade papal, condenou os erros do mundo moderno (Sílabo, 1864) e convocou o Concílio Vaticano I (1870). Na definição do dogma da Imaculada conciliou posições teológicas controversas. Confirmou, que Maria é imaculada, isenta de todo pecado. Mas, como se relaciona essa isenção com a necessidade de redenção? Maria tinha ou não tinha necessidade de ser redimida do pecado original por Cristo? Aí o dogma responde: a Virgem Maria foi redimida por Cristo de maneira preventiva, em previsão de seus méritos.

Assegurada a doutrina da Imaculada, Pio IX partiu para o ataque contra os “maculados”, articulando a força da argumentação teológica e da religiosidade popular contra posições políticas da sociedade secular, influenciadas pela Revolução Francesa (1789) e o Manifesto Comunista (1848). Em 1848, o papa teve que fugir de Roma. Quando voltou, dois anos mais tarde, com a ajuda de tropas franceses, Roma já era capital de uma República em processo de unificação. Até o fim de sua vida, Pio IX defendeu a tese, que a Imaculada legitimava sua luta contra todos os setores modernos, que se acreditavam imunes da mancha do pecado original, da qual só uma criatura foi preservada, Maria da Imaculada Conceição.

Caminhando para Aparecida do Norte

2. Da Mãe Preta à Madona Negra de Aparecida

Nossa Senhora de Aparecida, a Madona Negra do Brasil, tem uma proximidade muito grande e legítima com os afrodescendentes, mas a sua origem está num contexto arquetípico mais amplo e remoto. O mundo inteiro – de Charters (França) até Guadalupe (México) - conhece madonas negras, que originalmente substituíram deusas ligadas ao culto à mãe-terra, zeladoras de fontes e covas sagradas, transmissoras de energias lunares e telúricas.
As três grandes deusas do Leste, Isis, Cibele e Diana de Éfeso, que eram representadas como negras, se estabeleceram no Ocidente antes de sua romanização. Isis, no Egito já conhecida mais de 2.000 anos antes de Cristo, era esposa de Osíris e mãe de Hórus. Sua representação artística mostra uma mãe amável. A Isis foram atribuídas sabedoria e dedicação aos humanos. Ela era a deusa mais popular do império romano tardio. As primeiras imagens da Madona Negra e de seu divino filho são representações de Isis com seu filho Hórus.

Sob a pressão do cristianismo como religião do Estado sobre o paganismo, a partir de Teodósio (346/7-395), as imagens de Madonas Negras critãs substituíram as esculturas de Isis, assumindo a energia telúrica-lunar e o poder milagroso dela. Energia lunar e poder milagroso continuam até hoje nos santuários marianos.
Nas representações da Madona Negra, sentada no trono de deusa-rainha, sobrevive, com novas explicações, o imaginário de Isis, antiga deusa mãe. Nessas representações, muitas vezes, o filho de Maria já é um adulto, apontando para o equilíbrio dos gêneros e a harmonia entre as forças lunares e solares, que são as forças do universo. No mundo andino dos Quíchua e Aimara, esse equilíbrio é o pressuposto do “bem viver” social.

Caminhando para Aparecida do Norte

1. A Mãe Preta dos paulistanos no Paiçandu

O monumento à Mãe Preta do Largo do Paiçandu é o início da nossa peregrinação à Aparecida. Trata-se de um lugar privilegiado para as comemorações pela libertação dos escravos e pelo Dia da Consciência Negra, em 20 de novembro.

Originalmente, o movimento negro pretendia erigir um monumento à Mãe Negra no Rio de Janeiro, então Capital Federal, mas, com a Revolução de 1930, a mobilização foi abandonada. Membros do Clube 220, entidade que congregava agremiações negras do Estado de São Paulo, retomaram ideia no começo dos anos 50. A Câmara Municipal e os jornais mantiveram um longo e acalorado debate. A discussão deu origem a um concurso público. O trabalho vencedor foi o de Júlio Guerra, dada sua simplicidade e realismo.

A inauguração ocorreu em 23 de janeiro de 1955, como parte das comemorações de encerramento do IV Centenário da Cidade de São Paulo. A escolha do Largo do Paiçandu para acolher a homenagem à Mãe Preta se deveu à presença da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e de ser aquele largo, desde a construção da igreja, em 1906, um ponto de referência para a comunidade afrodescendente de São Paulo. Até hoje, fiéis depositam velas, oferendas e pedidos aos pés da Mãe Preta. O lugar é também ponto de encontros, protestos e comemorações. Em 2004, com base em pedido encaminhado pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos, o monumento à Mãe Preta foi tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo.

Autor: P.S.

IV Fórum Social Mundial das Migrações em Quito

"Povos em movimento por uma cidadania universal. Derrubando o modelo, construindo atores" é o lema que embala o IV Fórum Social Mundial das Migrações (FSMM) que começou dia 8 de outubro em Quito, no Equador. O evento reúne pessoas de cerca de 90 países. Movimentos sociais e religiosos, e diversas organizações da sociedade civil e integrantes do Grito dos Excluídos, de todos os continentes, integram o Comitê Internacional do FSMM, numa intensa mobilização mundial em defesa dos direitos das pessoas migrantes, refugiadas, deslocadas e apátridas, lutando contra o processo de globalização, comandado por grandes corporações multinacionais e pelos governos e instituições que sirvam a seus interesses. Quatro eixos temáticos dão o direcionamento dos debates: "Crises globais e fluxos migratórios", "Direitos Humanos e Migração", "Diversidade, convivência e transformações socioculturais" e "Novas formas de escravidão, servidão e exploração humana".

Histórico do FSMM

A primeira edição do Fórum Social Mundial das Migrações aconteceu em 2001, no Brasil, refletindo sobre o tema "Travessias na desordem global". Já a segunda e terceira edições foram realizadas na Espanha abordando as temáticas: "Cidadania universal e Direitos Humanos. Outro mundo é possível, necessário e urgente" e "Nossas vozes, nossos direitos, por um mundo sem muros", respectivamente.

Veja a postagem deste blog no dia 20.06.2010, Dia dos Migrantes, e acompanhe as atividades do IV FSMM através do site: http://www.fsmm2010.ec

Autora: Tatiana Félix, na Adital

08.10.2010

http://www.adital.org.br/

VIVA SÃO FRANCISCO!
4 de outubro
Assista ao video: http://vimeo.com/15142351
Notícia de D. Edson:
Missionário em São Gabriel da Cachoeira e Roma
No dia 01 de outubro, festa de Santa Teresinha do Menino Jesus, quando os sinos da basílica de S. Pedro repicavam às 12 horas, fui recebido pelo Papa Bento. Acompanhou-me o Pe. Reginaldo Cordeiro, salesiano, indio Arapaso de S. Gabriel da Cachoeira, que ordenei presbitero no dia 15 de agosto. Estive com o Papa durante 20 minutos respondendo as muitas perguntas que fez sobre a Amazonia e os indios do Rio Negro. Percebi que o Papa tem carinho especial pelos indios e pela a Amazonia. Abraço vocês com afeto de irmão menor no Amor de Jesus.
dom edson damian

Prémio Nobel Alternativo para D. Erwin Kräutler

D. Erwin Kräutler, bispo de Altamira (PA) e presidente do Cimi, é um dos quatro ganhadores do Prêmio Nobel Alternativo (Right Livelihood Awards 2010). O Prémio foi criado em 1980 “para homenagear e apoiar aqueles que oferecem respostas e exemplos práticos para os desafios mais urgentes que enfrentamos hoje”.
Este ano, o número de candidatos alcançou um novo recorde: 120 propostas de 51 países. D. Erwin partilha o prêmio com o nigeriano Nnimmo Bassey, que "revelou os horrores ecológicos e humanos na produção de petróleo", o nepalês Shrikrishna Upadhyay e a organização SAPPROS, que mostraram “ao longo dos anos o poder da mobilização comunitária para enfrentar as múltiplas causas de pobreza" e a organização israelense "Médicos para os Direitos Humanos", que ganhou o prêmio, segundo o júri, “por seu espírito indomável para trabalhar pelo direito à saúde de todas as pessoas em Israel e na Palestina”.
Segundo a comunicação oficial da Fundação Right Livelihood, de 30 de setembro, D. Erwin receberá o prêmio, numa Cerimônia no Parlamento sueco, em Estocolmo, no dia 6 de dezembro, "por uma vida dedicada ao trabalho com direitos humanos e ambientais dos povos indígenas, e por seu incansável esforço para salvar a Amazônia da destruição".
Jakob von Uexküll, fundador e co-presidente da Fundação que outorga o prêmio, comentou após a decisão do júri:
“A verdadeira mudança começa no nível da base: os médicos que não esperaram pelos políticos para agirem e acabarem com o sofrimento desnecessário no Oriente Médio; os moradores que trabalham para saírem da pobreza; e movimentos ambientalistas que reúnem vítimas da devastação ecológica. Combine o trabalho de base com a advocacia focada, como por exemplo, os direitos constitucionais dos povos indígenas, e você entenderá porque os Laureados deste ano voltam ainda a oferecer modelos de conduta, cujo trabalho e compromisso podem ser replicados em todo o mundo”.
Para D. Erwin, a alegria de receber o prêmio é muito grande. “Não estou feliz em meu nome, mas por causa da Amazônia e dos povos indígenas que merecem esse reconhecimento!”
Fotos mostram os premiados D. Erwin Kräutler e Nnimmo Bassey.

Missão e Povos Indígenas

Os povos indígenas não entraram pela porta dos fundos ou pela janela, neste 2º Congresso Missionário Regional Oeste 2 da CNBB, que se realizou em Dourados. [...] Na oficina “Missão e Povos Indígenas” eles protagonizaram momentos memoráveis ao manifestarem com convicção e clareza a dureza de suas vidas ameaçadas, suas terras negadas. [...]. No documento produzido na oficina, os participantes de todas as dioceses do estado do Mato Grosso do Sul, expressaram seu ardente desejo de que os cristãos, desde os fiéis leigos, os sacerdotes, os religiosos e religiosas até os bispos assumam com amor, ardor e profetismo a causa dos povos indígenas. Essa é uma causa evangélica, de Jesus da cruz, do conflito. Por causa de sua mensagem e testemunho de vida, foi assassinado. O assessor da oficina, teólogo Paulo Suess, que dias antes visitara vários acampamentos e aldeias Kaiowá Guarani da região, insistiu na importância de nós como cristãos, termos a coragem de assumir essa causa, que é a do Cristo da cruz e da ressurreição.[...]
Pe, Estevão, que fez uma reflexão sobre a missão hoje, se referiu à missão e causa indígena dizendo “A metade dos assassinatos de indígenas no ano passado aconteceram aqui. E 100% dos suicídios de indígenas aconteceram aqui. Então como podemos celebrar a Eucarisitia, diante dessa realidade?”

Desafios e compromissos
Diante dessa realidade foi sugerido a formação de pastorais indigenistas em todas as dioceses. E que estas sejam críticas, dinâmicas, criativas e proféticas. [...]
Foi destacado a atitude da CRB (Conferência dos Religiosos no Brasil) regional MS, que assumiu a causa indígena como prioridade de sua ação e está ajudando viabilizar a presença e atuação de uma comunidade de irmãs junto aos povos indígenas no regional.
Autor: Egon Heck
E agora Dourados?
Replay ou novo compromisso?

O que vai acontecer depois do II Congresso Missionário do Mato Grosso do Sul? Haverá uma nova presença missionária ao lado dos povos indígenas, uma formação missionária dos presbíteros e uma voz profética face aos conflitos de credibilidade pública.

Não só os povos indígenas, também os jovens precisam ser melhor acompanhados. Na apresentação do resumo de sua Oficina n. 8 (“Missão e Juventude Missionária”) leram, sob forte aplauso, uma suposta “Carta de João Paulo II aos Jovens”. A dita carta – uma mistura de um falso pentecostalismo com um verdadeiro consumismo - é expressão de uma missão light. Por desconhecer a cruz, tampouco anuncia ressurreição. Ao pregar uma missão sustentável, se torna presença missionária insustentável.
Vejamos alguns trechos dessa carta falsificada:
“Precisamos de Santos sem véu ou batina.
Precisamos de Santos de calças jeans e tênis.
Precisamos de Santos que vão ao cinema,
ouvem música e passeiam com os amigos.
Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar,
mas que se "lascam" na faculdade. [...]
Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola
e comam hot dog, que usem jeans,
que sejam internautas, que escutem disc man.
Precisamos de Santos que amem a Eucaristia
e que não tenham vergonha de tomar um refri
ou comer pizza no fim-de-semana com os amigos [...]”.
Sejamos santos!”
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Adeus missão colonial!
Boa viagem missionárias e missionários!
Missão insustentável e colonialismo replay não!
Missão caminho, memória e conversão
a cada dia!
Frases do dia na oficina
“Missão e Povos Indígenas”
(24.9.2010)
“Fomos três vezes despejados, não pela justiça, mas pelos fazendeiros. Voltamos uma quarta vez. Não queremos qualquer fazenda. Não procuramos terra ociosa. Retornamos a nossa terra sagrada” (Eliseu Lopes, de Kurusu Ambá).
“O branco não respeita a Lei que fez”.
“O acampamento indígena, entre o arame farpado da fazenda e o asfalto da estrada, é como uma universidade; nas noites mal dormidas e por baixo da lona preta pode-se aprender muito”. “Retomada significa retorno à terra sagrada”.
“Nossas armas são as flechas. O fazendeiro sabe que não é dono desta terra.
Mas, ele tem uma arma poderosa, o dinheiro”.
“Precisamos transformar o respeito em reconhecimento e o reconhecimento em amor!”
“A Igreja não é juíza dos povos indígenas, mas a sua advogada”
(cf. DAp 533, 395).

II Congresso Missionário do Mato Grosso do Sul

Depois das nossas andanças pelas aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul, a equipe do Cimi está participando do II Congresso Missionário do Regional Oeste 1 da CNBB. Estamos assessorando a Oficina 8 “Missão e povos indígenas”. Entre os 65 participantes dessa oficina haverá uma boa presença de líderes indígenas que introduzirão os participantes na realidade amarga de sua vida cotidiana. Segundo os organizadores, todos os temas devem ser tratados numa perspectiva da Missão Continental só uma vez mencionada no Documento de Aparecida (DAp 551).

Qual é o sentido da Missão Continental?
1. O continente latino-americano se une para lembrar o significado da missão. Missão latino-americana era missão colonial. Por conseguinte, o Continente começa a pensar estratégias e pedagogias para romper com a missão colonial e neocolonial e para curar os traumas dessa colonização.
2. Missão continental não significa “missão regional”. A missão sempre é universal, visa a todos integralmente. Missão significa ir além-fronteiras.
3. A missão continental acompanha a integração latino-americana. Essa integração visa soberania, não hegemonia; visa, com os dons específicos da América Latina, servir (diaconia!) às outras nações até os confins do mundo (ver, por exemplo, a situação dos Mapuche no Chile, acesse: www.adital.org.br).
4. Com a força do Evangelho e o horizonte do Reino de Deus procuramos romper com o sistema, que explora, e criar uma contra-cultura. Contra os valores hegemônicos da acumulação, do consumo e da aceleração, nossa missão – para o bem viver de todos – visa despojamento e partilha. Para a máquina produtiva, que exclui, somos areia e freio de emergência.
Autor: P.S.

Os Guarani-Kaiowá de Y’poí sitiados por milícias

Continuamos nossa caminhada de solidariedade. Na fronteira com Paraguai confirmou-se a notícia do confinamento de mais de 80 Guarani-Kaiowá em seu Tekoha. Desde 19 de agosto os índios de Y’poí, município de Paranhos, MS, estão sitiados num pequeno acampamento por milícias da fazenda São Luiz. Os indígenas lutam pelo reconhecimento de área de ocupação tradicional. Em outubro de 2009, os professores indígenas Genivaldo Vera e Rolindo Vera de sua comunidade desapareceram após uma emboscada de homens armados da fazenda. O corpo de Genivaldo foi localizado em um córrego. A cabeça estava raspada e ele estava coberto de ferimentos. Rolindo até hoje não foi localizado.
Apesar da situação crítica por causa das ameaças físicas, da negação urgente de atendimento médico e alimentar, as lideranças de Y’poí afirmaram que os indígenas sitiados permanecerão na área. A comunidade não suporta mais as meras promessas de demarcação e a lentidão da justiça. O Ministério Público Federal reiterou dia 17 de setembro pedido de liminar à justiça, solicitando a liberação da estrada para atendimento básico à comunidade pelos órgãos públicos, como Funai, Funasa e Polícia Federal. Esse é um direito humano que é respeitado até em situações de guerra. Se o MST bloqueia uma estrada por meia hora, logo chegam helicópteros e unidades de repressão para desobstruir a estrada. Não valeria para os Guarani-Kaiowá de Y’poí a mesma lei?
Acesse video da Globo "MS: Indios e produtores rurais disputam terras de fazenda":
Enquanto estávamos realizando nossa visitas pela região de fronteira, no outro lado do território Kaiowá Guarani, a comunidade de Ita’y, em Douradina, que havíamos visitado uns dias antes, estavam enfrentando mais um ataque dos produtores rurais a seu acampamento.

A CNBB condena violência contra os Guarani-Kaiowá
A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, na tarde do dia 22 de setembro, uma nota pedindo a demarcação das terras do povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. A CNBB repudiou a violência que os indígenas têm sofrido, especialmente nas comunidades Y’poí, no município de Paranhos, e Ita’y Ka’aguyrusu, em Douradina.
“São ataques a mão armada numa brutal intimidação aos habitantes dessas comunidades que se veem não só cerceadas no seu direito de ir e vir como também privadas de bens essenciais à vida como água, comida, educação e saúde”, diz a nota. A CNBB afirma que a situação exige uma solução “rápida, urgente e eficaz” e “dirige um veemente apelo ao Governo para que faça cumprir os dispositivos da Constituição Federal de demarcar as áreas tradicionalmente ocupadas pelos Guarani-Kaiowá”.
Autor: P.S.
"Meu Deus é EXALTADO entre as nações!”

A grande volta

Dia 21 de setembro 2010. Percorremos aldeias e acampamentos. Kurusu Ambá, município de Amambai, MS, na fronteira com Paraguai, e Apika'y - Curral do Arame, já perto de Dourados. Novamente a experiência do rio que sempre volta ao seu leito. Os Kaiowá Guarani do Mato Grosso Sul nos dão uma lição de perseverança, a lição da grande volta e da volta grande pelo asfalto, pela escravidão nas fazendas, pela catequização de pastores das mais diversas denominações religiosas e pelas usinas de alcool. Sempre voltam às suas origens, ao seu “teko”, que é lugar e jeito, onde está o seu futuro. A história de Kurusu Ambá é uma história de muitas e dolorosas voltas. Os índios falam em retomadas. Retomam da sociedade brasileira uma parte daquelas terras que lhes foram roubadas, uma parte mínima para a sua sobrevivência.

(Foto: CIMI/MS)
Kurusu Ambá, uma história de expulsão por pistoleiros, de despejos pela justiça, desintegração de posse em favor dos fazendeiros. Pelo empenho de sua organização, o Aty Guasu (Grande Encontro do Povo Guarani Kaiowá), pela lealdade constitucional do Ministério Público Federal e pela presença de grupos de solidariedade conseguiram, em abril 2010, que o juiz-desembargador Silvio concedeu 90 dias (que depois foram prolongados por mais 90 dias) para os encaminhamentos legais para a definição da terra indígena Kurusu Ambá. “Encaminhamentos legais” quer dizer, que um Grupo de Trabalho (GT) deve provar que a terra é desde tempos imemoriais dos índios e definir os limites territoriais. Às vezes, os pistoleiros das fazendas impedem o trabalho desse GT, às vezes (sobretudo neste tempo eleitoral) são ordens superiores da Casa Civil que exigem, por causa do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), uma desaceleração nas demarcações de terras indígenas. Nas aldeias indígenas, o PAC tornou-se PEPI, Programa de Extinção dos Povos Indígenas, flores de Alcapone.
Partindo da comunidade de Kurusu Ambá levamos Angélica com seus dois filhos pequenos, um deles muito doente, à Casa de Saúde em Amambai. Hoje de manhã (22.9.), Inocêncio, líder da comunidade, nos comunicou que a criança com seus três aninhos faleceu. Ainda ontem à noite, o corpo foi levado de volta à aldeia. A grande volta – nem para todos significa vida. Com voz indignada Inocêncio disse que essa morte é também consequência da falta de alimentação, porque há inconstância na entrega da cesta básica. “Na terra, onde estamos, somos proibidos de plantar. As crianças, quando não têm alimento, ficam fracas, pegam doença e morrem”, desabafa Inocêncio.
Apika'y - Curral do Arame. 18 de setembro de 2009, uma hora de madrugada, as casas dos 130 Kaiowá Guarani são assaltadas e incendiadas por 20 milícias dos fazendeiros. O procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida, do Ministério Público Federal (MPF) em Dourados (MS), instaurou inquérito para apurar a agressão sofrida por esses indígenas acampados às margens da BR-483 por mais de 6 anos no trecho que liga os municípios de Dourados e Ponta Porã. Eles reivindicam sua terra conhecida como Tekoha Jukeri'y ou Apika'y.

Histórico
Relatório antropológico elaborado pelo MPF revela que a expulsão dos índios de seus territórios intensificou-se a partir da década de 1950. Os guarani-kaiowá passaram então a ocupar áreas de fundo de fazenda, sendo definitivamente expulsos com a morte do líder Ilário de Souza, em dezembro de 1999, atropelado por um funcionário da fazenda onde estavam acampados.
A última tentativa do grupo de retornar à terra considerada sagrada (tekoha) ocorreu em 17 de junho de 2008. Mais uma vez reocuparam uma parcela do antigo tekoha, na Fazenda Serrana, ao redor da qual gravitavam. Nesta ocasião, eles mantiveram-se dentro da reserva legal de mata da fazenda, vigiados por uma empresa particular de segurança. A Funasa e Funai foram impedidas de prestar atendimento. O relatório aponta que "a difícil condição imposta aos índios resultou na morte de uma anciã, que acabou sendo sepultada na mata. A ocupação durou até cinco de abril de 2009, quando a justiça determinou a reintegração de posse em favor do fazendeiro". Desde então, o grupo está acampado à beira da rodovia.O relatório elaborado pelo Ministério Público Federal é enfático ao afirmar que "crianças, jovens, adultos e velhos se encontram submetidos a condições degradantes e que ferem a dignidade da pessoa humana. A situação por eles vivenciada é análoga à de um campo de refugiados. É como se fossem estrangeiros no seu próprio país".
Acesse YouTube "O Mbaraka contra a cana": http://www.youtube.com/watch?v=3qaWLAZh1cQ&feature=related
Fotos: E. Heck
Autores: P. Suess; E. Heck