Protestos e Silêncios nos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas



É lamentável falarmos do teto do refeitório que  desabou ontem cedo,   no local de alojamento das delegações indígenas brasileiras, resultando em três funcionários feridos e as refeições preparadas e  servidas precariamente em locais improvisados.

Assim como é inadmissível que, na semana passada o sistema de aclimatação da cozinha entrasse em pane, elevando a temperatura do local a 65 graus, como confirmou o Ministério Público Federal, levando oito trabalhadores/as  do local a serem atendidas em unidades de emergência, com sinais de desidratação, devido à exposição ao calor excessivo. E por falar em cozinha fomos informados de que as cozinheiras trabalham das 4 da manhã até as 10 da noite, sem que haja rodízio, sendo submetidas a uma jornada de trabalho exaustiva.
Essas são apenas algumas amostras da forma irresponsável com que foi implantada às pressas uma precária infra estrutura para os jogos mundiais dos povos indígenas, em Palmas-TO
É para que não aconteçam coisas mais graves e comprometedoras que o Ministério Público Federal se encontra no local dos jogos. Alertas foram dados, mas infelizmente a atitude autoritária e pouco transparente na condução do processo  não permitiu que se realizasse esse trabalho com mais tempo e segurança.
Tendo em vista essa precariedade, por um lado, e uma atitude contrariando o espírito de integração e celebração, por outro,  com barreiras arbitrárias, cercas da vergonha, que foram realizados atos de protesto dentro e fora da Arena de Abertura do evento.
Os protestos
Indignações e protestos, especialmente dos povos indígenas,  foram registrados desde o início da chegada das delegações, na semana passada, seja pela impossibilidade de credenciamento para assistir a abertura dos jogos, ou ainda, pela falta de estrutura para alojar as delegações que não estivessem credenciadas. Eles aumentaram de intensidade na medida em que foram acontecendo os desmandos, a falta de diálogo, o descaso e a falta de transparência.
Os protestos tiveram maior intensidade no dia 23, por ocasião da abertura. Barrados na entrada do local dos jogos, centenas de indígenas fizeram o seu protesto do lado de fora, procurando obstruir a entrada das delegações e ameaçando derrubar as grades. Os gritos e as palavras de ordem eram contra a PEC 215, a demarcação das terras indígenas e fora Kátia Abreu. Faixas com os mesmos dizeres  foram  abertas dentro da arena.
Próximo ao local do evento também protestaram representantes dos movimentos sociais e aliados da causa indígena. Com inúmeras faixas e mais de uma centena de cruzes fincadas ao longo da avenida de acesso ao local dos jogos, procuraram dar visibilidade aos povos indígenas, seus direitos, suas lutas e sua resistência. Jogos sim, mas com terra demarcada, respeito e dignidade. As faixas refletiam a indignação de “Fora Kátia Abreu, “Fim do Genocídio Indígena”,  ”Não ao MATOPIBA”, além de exigir  o fim dos Projetos de Lei e Reforma Constitucional, como a PEC 215, PL 1610 dentre outras. Quando a noite veio nos envolver com seu manto, acendemos as velas da esperança embalados com canções de luta, resistência e transformação.
O silêncio eloquente da presidente
Quando o mestre de cerimonial chamou a Presidente Dilma os participantes se dividiram entre vaias e aplausos. Era então esperada a fala da presidente. Diante do total silêncio dela, um representante da coordenação do evento desandou falação dizendo que “vaia não é do povo indígena, isso aqui não é comício”. Podem vaiar nas eleições do ano que vem”.
Qual terá sido a razão do silêncio? É notório que a presidente tem evitado se encontrar com os povos indígenas. Não seria um gesto de desconsideração para com os povos indígenas de todo mundo, por parte das autoridades brasileiras?
Deprimente
Destaco a seguir o sentimento contido no desabafo de uma indígena, a partir do ritual de abertura e presença no local do evento.
“Deprimente, este e o sentimento que me corta a alma. Deprimida é como me sinto ao estar presenciando o que aconteceu aqui na vila olímpica. Vejo e  me recuso a olhar a Corrida de Torra, Ritual Sagrado para nós os povos indígenas,  sendo apresentada  em uma arena e narrada como se fosse rodeio.
É um Ritual Sagrado praticado pelos povos indígenas em momentos especiais de suas vidas  buscando sempre o equilíbrio do povo com o Todo. Demonstra a igualdade e a importância que todos têm dentro da comunidade, duas partes que correm sempre buscando estar juntas, caminhar em equilíbrio e respeito uns com os outros. Não é rodeio, não é e nunca foi competitivo. Não são animais correndo, carregando toras que jamais podem cair. Não existe ninguém querendo chegar antes que o outro. Não há competição.
É deprimente estar na feira de artesanato indígena, coordenado pelo Sebrae e  me deparar com uma jovem que está vestida com uma roupa diferente que não caracteriza nenhum povo indígena. Usava um cocar indígena e estava de prontidão frente a um painel simplesmente para posar para fotos com visitantes.  Me aproximei dela   e perguntei de que povo era. Ela respondeu: não sou indígena, sou modelo. Fiquei estarrecida com tamanho desrespeito. Quantas mulheres indígenas lindas ocupam aquele espaço e não são vistas, muito menos consideradas pelos organizadores do evento. Contrataram uma modelo para posar de índia.”
JMPI onde os indígenas, continuam invisíveis para aqueles que organizaram o evento. E do lado de fora da arena mais de 200 indígenas são proibidos de adentrarem. Sendo somente eles o público que teria a compreensão do significado de todos os rituais e atividades que ali aconteciam .
Texto e fotos Egon Heck Laila Menezes
Cimi GOTO
Palmas 26 de outubro de 2015

Ato a favor da CPI do Genocídio e do Cimi reúne 45 entidades e 300 índios

Mariana Rodrigues e Michel Faustino


Antes de entrar na Assembleia, um grupo de 50 índios Guarani Kaiowá fizerm
uma reza em forma de dança (Foto: Gerson Walber)


   O ato ecumênico em favor dos povos Guarani Kaiowá realizado nesta quarta-feira (7), na Assembleia Legislativa, reúne 30 movimentos sociais e 15 instituições religiosas do Brasil e América Latina, e uma da Holanda. O grupo defende o cancelamento da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Cimi (Conselho Missionário Indigenista), que investiga a atuação do Conselho em possíveis incitações dos conflitos indígenas no estado e são favoráveis a criação da CPI do Genocídio que apure as mortes e violência cometida contra comunidades indígenas em Mato Grosso do Sul.
   Ao todo, cerca de 300 índios de sete comunidades indígenas de Dourados foram até a Assembleia para participar do ato ecumênico. Antes de entrar na Assembleia, 50 índios Guarani Kaiowá fizeram uma dança que representa um tipo de reza, uma forma simbólica de manifestação contra a Assembleia devido a criação da CPI que investiga o Cimi.
   O evento que acontece no Plenarinho da Assembleia conta com a presença de cinco policiais militares motorizados. Os indígenas que chegaram ornamentados foram revistados e tiveram que deixar na entrada da Casa, alguns objetos que eles usam, como arcos, flechas chocalhos, lança e qualquer outro objeto pontiagudo, mesmo criando um pequeno tumulto na entrada, o ato segue tranquilo. De acordo com a segurança, o procedimento é de praxe.
   
Lindomar Terena, cacique da aldeia Mãe Terra de Miranda
Coordenador executivo da Apib (Foto: Gerson Walber)
Lindomar Terena, que é cacique da aldeia Mãe Terra de Miranda e coordenador executivo da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), comentou que a presença dos indígenas é para se manifestar contrários a forma que a Assembleia vem intervindo na vida dos povos indígenas. Para ele a Casa está sendo omissa e fugindo do seu papel que é resolver a insegurança jurídica no Estado. "Vemos que eles estão tomando um lado com a criação da CPI do Cimi, que é uma instituição que tem lutado em prol dos povos indígenas", comenta ele ao lembrar que a luta dos índios tem mais de 500 anos.
   O cacique diz ainda que repudia a atitude dos deputados que colocam o Cimi como sendo um manipulador dos povos indígenas. Para ele, a CPI não vai levar a lugar nenhum e sim acirrar a disputa no Estado ocasionando insegurança aos indígenas. Ele cobra uma atitude quanto ao fundo de investimentos de áreas de terras, criado para restituir indenização dos produtores. "Na verdade, o que eles deveriam discutir é o por que não se está investindo nesse fundo, não está angariando recursos para resolver a demarcação de terras, pagar os produtores e garantir que os indígenas tenham suas terras e ao invés disso ficam esperando o Governo Federal", acrescenta.



https://youtu.be/LeRaJoBF2fs

   A seguir, o pronunciamento de D. Roque, presidente do Cimi, durante o Ato Ecumênico em Campo Grande (07/10/2015):

     
D. Roque Paloschi, presidente do Cimi
Agradeço essa convocação oportuna para a participação desse Ato Ecumênico ou melhor, desse Ato Macro Ecumênico em defesa do povo Guarani Kaiowá aqui no Mato Grosso do Sul e, um pouco também, em defesa do Cimi que foi “agraciado” com uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI). Eu digo “agraciado” porque essa CPI nos abrirá oportunidades para a repercussão, nacional e internacional, dos crimes cometidos contra os Guarani Kaiowá e demais povos originários do MS e do Brasil.
   A CPI do Cimi me lembra de uma novela do grande escritor austríaco, Franz Werfel, perseguido pelos nazistas e expulso de sua terra por causa de sua origem étnica. O título dessa novela, que poderia servir também para os cenários, nos quais se encontram os povos indígenas, aqui no MS, é: “Não o assassino, os assassinados são culpados”.

Ler mais:

Povos Indígenas do Tocantins: Palmas para eles


Egon Heck

Um calor de rachar, característica de uma das cidades mais quentes do país, vai amenizando no final desse dia 22 de setembro. Aos poucos representantes da maioria dos povos indígenas do Estado vão chegando ao simpático espaço Krãnipi Casa do estudante Indígena de Palmas.

 “Essa é uma conquista de todos nós. Mais um espaço de apoio às nossas lutas”, afirmou Wagner Krahô Kanela, presidente da organização indígena UNEIT (União dos Estudantes Indígenas do Tocantins). Antonio Apinajé complementou dizendo aos estudantes indígenas “Lembrem-se de que o estudo que vocês vêm buscar aqui na Universidade só tem sentido se vocês continuarem ligados à luta e conhecimentos tradicionais dos nossos povos. Não esqueçam e deixem de buscar os conhecimentos e sabedoria dos anciões. Essa Casa do Estudante só terá sentido e cumprirá seus objetivos se vocês fizerem dela um espaço de apoio aos direitos dos povos indígenas deste Estado”.
O Reitor da Universidade Federal do Tocantins, Márcio Antônio da Silveira, de forma muito espontânea foi recebendo as delegações indígenas que foram chegando.  Ao se referir a esse gesto, Adelar Cupinsk, da assessoria jurídica do Cimi comentou “Alguma coisa está mudando. Quando se via um reitor ir ao encontro e receber dessa forma os povos e estudantes indígenas?” A equipe do regional do Cimi Goiás Tocantins nutria um sentimento de alegria ao ver finalmente um sonho dos estudantes indígenas realizado. Eles não mediram esforços para que esse momento acontecesse. Buscaram aliados para a construção da obra e realizaram todo o processo de forma participativa e em diálogo permanente com as comunidades, povos e organizações indígenas. Após cantos, rituais e falas indígenas, foi descerrada a placa de inauguração do espaço onde 48 estudantes indígenas estarão hospedados durante o período de seus cursos universitários. A Universidade Federal do Tocantins assumiu o espaço e sua administração. Lembrou o Reitor que existem atualmente 200 estudantes indígenas e que buscarão ampliar esse número através do sistema de cotas, assumido por esta Universidade.

Resistir para existir, na luta e na esperança

No dia 23 teve início, no Colégio Marista de Palmas, um importante seminário sobre a luta dos Povos Indígenas e populações tradicionais em defesa de seus direitos e territórios. Com a participação dos povos indígenas do Estado de Tocantins, do Maranhão, Pernambuco e Bahia, e dos movimentos sociais e aliados dessas causas, ecoou o grito das vítimas de um sistema perverso de avanço do agronegócio, desrespeitando os povos indígenas e comunidades tradicionais, gerando destruição brutal da natureza e lágrimas. A natureza chora, seus filhos clamam, pedem socorro.



Diante desse processo de violência e desrespeito dos direitos e da vida, os participantes debateram e definiram suas estratégias de luta e resistência.  Só existe um caminho de enfrentamento: a união de todos os atingidos por esse avanço do agronegócio e seus rastros de destruição e morte.
Durante todo o dia foram realizadas mesas de exposição e debates em que foram expostos os sofrimentos e o clamor da mãe terra e seus filhos. Nailton Pataxó relatou o processo de luta de seu povo para a reconquista de seu território. “Esperamos 30 anos pela justiça, depois formei guerreiros que foram retomando nossas terras.  Terra não se ganha, se reconquista” expressou sua alegria e felicidade por terem suas terras de volta e poderem cuidar da mãe natureza e viver de seu jeito, em paz e harmonia. “A luta não acabou. Me sinto em missão, enquanto todos os povos indígenas não tiveram suas terras demarcadas estaremos com eles apoiando esse sagrado e constitucional direito às suas terras. O índio sem-terra não tem vida” Diante da decisão do governo de total paralisação da demarcação das terras, acredita que o caminho será o das autodemarcações. Fez relatos emocionados das lutas de conquista dos direitos indígenas na Constituição.
Gercília Krahô após reiterar as denúncias das graves conseqüências do avanço dos grandes projetos sobre o território de seu povo demonstrou a confiança de que enfrentarão esses grandes interesses que não conseguirão destruir os filhos da terra pois “somos o broto e a semente da terra e por ela vamos lutar até morrer”.
...Continuação da matéria

Idas e voltas da “Igreja (s)em saída”



        O pedido de perdão do Papa Francisco aos povos indígenas por pecados cometidos, em nome de Deus, durante o regime colonial, está em contradição com a canonização de frei Junípero Serra, missionário daquela época.



Pedido de perdão na Bolívia

        
       Em seu discurso aos movimentos populares, no Equador, dia 9 de julho/2015, o Papa Francisco pediu perdão aos povos indígenas pelos “muitos e graves pecados contra os povos nativos da América, em nome de Deus”. O papa pede “humildemente perdão, não só para as ofensas da própria Igreja, mas também para os crimes contra os povos nativos durante a chamada conquista da América” (cf. sítio do Vaticano, 09.07/2015, n. 3.2.).

         Ao pedido de perdão segue, como é costume em documentos que passaram pela “revisão” curial, um “porém” sobre a graça que superabundou na desgraça da conquista, um autoelogio eclesial sobre “tantos bispos, sacerdotes e leigos que pregaram e pregam a boa nova de Jesus com coragem e mansidão”. Estes arautos da evangelização, segundo o mesmo discurso de Francisco, “deixaram impressionantes obras de promoção humana e de amor, pondo-se muitas vezes ao lado dos povos indígenas ou acompanhando os próprios movimentos populares mesmo até ao martírio”, não sem lembrar que “a nossa fé é revolucionária, porque a nossa fé desafia a tirania do ídolo dinheiro”.

Há um descompasso entre o “pedido de perdão” pelos pecados contra os povos nativos da América e a “autorreferencialidade” de “impressionantes obras de promoção humana” que fizeram os índios trabalhar no regime da encomenda colonial. Há outro descompasso entre posturas da teologia e pastoral da libertação do século XX que, na contramão da teologia hegemônica pós-conciliar, acompanharam os povos indígenas e “movimentos populares mesmo até ao martírio” e as pastorais que procuravam integrar os povos indígenas e populares nos sistemas colonial, mercantilista e capitalista.



Percebe-se que o papa permitiu enxertos ideológicos em seu discurso que o enfraqueceram profundamente. A teologia colonial considerou os índios não como sujeitos de culturas, mas como objetos da natureza e por isso os chamou de “los naturales”. O dominicano Bartolomé de las Casas documentou as crueldades genocidas da conquista. Sua luta contra a exploração da força de trabalho dos índios e a de Antonio Montesinos, foram lutas solitárias como as lutas de Oscar Romero, Leonidas Proaño, Samuel Ruiz e Tomás Balduino foram solitárias.[1]

         Canonização de Junípero nos Estados Unidos

         Ao pedido de perdão, do dia 9 de julho/2015 na Bolívia, acompanhado pelo aplauso dos índios presentes no evento, segue, sob o protesto de muitos indígenas dos Estados Unidos e do México, a canonização de Frei Junípero Serra (1713-1784), no dia 23 de setembro em Washington.

Quem era o franciscano Junípero (1713-1784) e a quem serve sua canonização? Filho de pequenos agricultores, nasceu em Petra, na ilha Maiorca. Tornou-se franciscano e chegou a lecionar teologia na Universidade de Palma. Em 1749, Junípero chega com 20 frades no Vice-Reino da Nova Espanha (México). Depois da expulsão dos jesuítas da Nova Espanha (1767/68) por Carlos III, os franciscanos assumem, sob a responsabilidade de Junípero Serra, o cuidado dos indígenas na península Baixa Califórnia, que na época ainda pertencia ao império da Espanha. Os frades percorreram os vastos territórios de presença indígena, ergueram capelas e cabanas, convidaram os índios para morarem perto para poder ensiná-los catequese e fixa-los à terra através de noções de agricultura e pecuária.  Os confrades de Junípero se tornam fundadores de uma vasta rede de missões nas quais os índios, progressivamente, passaram de donos da terra para inquilinos das missões onde foram submetidos a trabalhos forçados. Quem fugiu dessas missões, foi trazido de volta por soldados e castigado.

Quando os índios falam hoje daquele tempo, relatam “atrocidades”, “etnocídios” e “mitologias das missões”, criadas pelos não indígenas da elite católica e política regional, que propulsionou a canonização de Junípero Serra. Andrew Galvan, historiador indígena e curador da “Missão Dolores”, fundada por Junípero em 1776, pergunta: “Se eu sei o que aconteceu com os meus antepassados, como posso ser devoto de Junípero Serra?” E Galvan cita uma carta “na qual o frei Serra ordenava chicotadas para os índios desobedientes”.[2]

 Desde que o Papa Bento XVI, por ocasião da beatificação de João Paulo II, esclareceu que a pessoa beatificada ou canonizada necessita ter vivido apenas uma virtude heroicamente, não precisamos discutir a santidade de Junípero que, certamente, mais de uma virtude viveu com o heroísmo da época. O que precisa ser discutido é a oportunidade de sua canonização. Muitos dos “Santos Padres”, por exemplo Agostinho e Ambrósio, hoje, seguramente, não seriam mais canonizados porque seus sermões e atitudes antijudaicas seriam considerados não só politicamente incorretos, mas pérfidos e até criminosos.

A pergunta correta no contexto da canonização de Junípero é: Cui bono (a quem beneficia) hoje? Será que um Santo Junípero vai fortalecer as lutas dos povos indígenas ou vai legitimar o paternalismo e autoritarismo dos seus tutores e enfraquecer suas lutas pelo reconhecimento de seus direitos, de suas culturas e autodeterminação? A “Igreja em saída” não sobreviverá nos passos de um tango: “Dois pra lá e dois pra cá”. Pode acontecer que, ainda em vida de Francisco, os novos horizontes de uma Igreja em saída são apagados pelas neblinas da herança colonial.

Paulo Suess


[1] LAS CASAS, Frei Bartolomé de, Brevíssima relação da destruição das Índias: O paraíso destruído, Porto Alegre, L&PM, 1984. Cf. SUESS, Paulo (org.), Conquista espiritual da América Espanhola: 200 documentos – Século XVI, Petrópolis, Vozes, 1992.
[2] “Índios dos EUA levantam dúvidas sobre a santidade de Junípero Serra”, reportagem de Carol Pogash (The New York Times, 21/01/2015), republicado em IHU, Notícias, 23/01/2015. Cf. tb. a entrevista de Thomas Reese com Roberto Senkewicz “Junípero Serra, santo ou não?”, in: National Catholic Reporter (15/05/2015), republicado por IHU, Notícias, 28/05/2015.

Os ecos de Laudato Si’ e do discurso do Papa Francisco no Encontro dos Movimentos Populares




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Entrevista IHU Instituto Humanitas Unisinos

Paulo Suess

1. Qual a novidade da Encíclica Laudato Si’ acerca das questões ambientais? Quais são os conceitos principais?

          A Encíclica Laudato Si´ (LS) caiu como uma fruta madura no jardim da Igreja Católica e no mundo. Recebeu raios de sol, ventos, águas e tempestades que contribuíram para esse amadurecimento. Sabe-se que colaboradores discretos e indiscretos contribuíram para um compêndio socioecológico que, afinal, tem o pulso do Papa Francisco que o assinou no dia 24 de maio de 2015, na festa de Pentecostes. Grandes inovações científicas e filosóficas, muitas vezes, surgem numa certa sincronicidade em vários lugares do planeta, sem ligação causal ou dependência explícita. Assim existiu uma simultaneidade inexplicável entre descobertas de Copérnico e Galilei. A Encíclica respira o frescor pentecostal e a jovialidade franciscana, sem excessiva preocupação com conceitos, já que o papa não quer propor umas “palavras definitivas” (conceitos), mas animar um “debate honesto” (LS 61) e aberto entre os interessados.
          Fontes
    Para fundamentar as questões abordadas, Francisco recorre à Gaudium et spes, a contribuições de seus antecessores, a documentos das Igrejas locais, sejam católicas ou ecumênicas, e ao consenso científico sobre a situação climática hoje.
          No Brasil, desde os anos 70 do século passado, a questão social foi articulada com a questão ecológica, como já mostravam tema e lema da Campanha da Fraternidade (CF) de 1979: “Por um mundo mais humano” (ecologia humana!) e: “Preserve o que é de todos” (bem comum!). Em 1992, com a iminente realização da Conferência das Nações Unidas sobre “Meio Ambiente e Desenvolvimento”, o Setor Pastoral Social da CNBB realizou um Seminário sobre “A Igreja e a Questão Ecológica” (cf. LS 88), que tratou os custos sociais e ambientais do desenvolvimento. A CF de 2004 focou a questão da água (“Água, fonte de vida”), que repercutiu na CF 2011 (cf. n. 71-76) e na Laudato Si´ (cf. LS 27 a 31). Na CF de 2011, a Igreja do Brasil convidou outra vez para a “conversão ecológica” abordando o tema do aquecimento global e das mudanças climáticas: “Fraternidade e a Vida no Planeta”. O lema deu voz à palavra do apóstolo Paulo: “A criação geme em dores de parto” (Rm 8,22). Muitas outras CF anteciparam preocupações de uma “ecologia integral” tratadas na LS: trabalho (CF 1978, 1991, 1999), migração (CF 1980), terra (CF 1986), moradia (CF 1993). Cursos, Semanas de Estudo, Planos Pastorais assumiram e divulgaram o pensamento sócio ecológico nas respectivas bases, embora devamos admitir que o conjunto do povo de Deus e da humanidade ainda não mordeu a questão.
          As reflexões teológicas, que precederam a LS, apresentam em seu conjunto um dossiê bíblico completo geralmente assumido pela Encíclica. Uma ou outra vez, por exemplo na questão da evolução (cf. LS 81), ela parece ter dificuldade na conciliação entre exegese bíblica e ciência, o que não impede, como na parábola do Bom Samaritano que com duvidosas opções teológicas, pelos quais os samaritanos foram excluídos do Templo de Jerusalém, assumiu práticas corretas (Lc 10,30ss).
          Linhas mestras
      A Encíclica LS não precisava inventar a roda da reflexão ecológica. Ela se beneficia de preocupações prévias e conceitos socioecológicos já consolidados e os assume como linhas mestras:
1. Existe um nexo essencial entre questões ecológicas e questões sociais (cf. LS 43). “O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto” (LS 48) e exigem uma “ecologia integral” (LS 137ss).
2. A noção do desenvolvimento subordinado ao lucro produziu a “cultura do descarte” (LS 16, 22, 43) e a deterioração da qualidade de vida.
3. Somente uma “ecologia humana” (LS 5, 148, 152, 155s), que antes de tudo deve ser uma “ecologia integral” (LS, cap. IV), pode frear a degradação socioambiental e climática. Ela exige “conversão ecológica” (LS 5, 216-221) e responsabilidade.
4. A “ecologia humana” é o cuidado da “casa comum” do planeta terra e é expressão vivencial e responsável do “bem comum” (LS 23ss, 156ss).
          Novidades?
    A falta de novidade teológica e científica da Encíclica nos faz perguntar: “Por que essa curiosidade do mundo jornalístico antes da publicação da Laudato Si´”? “O que explica o sensacionalismo que precedeu à publicação da LS, como se o Vaticano tratasse do lançamento do mais novo produto de Tim Cook e de sua Apple-Comunity, de uma nova versão do iPad, do lançamento antecipado do Apple Watch ou de uma nova versão do Android da Google”? Os setores eclesiásticos interessados não se perguntaram sobre eventuais novidades teológicas, mas sobre implicações pastorais daquilo que já se sabe: “Como a LS vai articular a poesia franciscana com a realidade ecológica e a prática pastoral”? “O papa vai propor um capitalismo verde ou vai avançar com a crítica sistêmica? Francisco vai poder comunicar questões tão complexas numa linguagem acessível que rompe com o hermetismo científico e a erudição teológica”?
          A “novidade” da LS pode ser atribuída ao ministério universal do papa, à assunção de conteúdos e horizontes da teologia latino-americana pelo magistério universal da Igreja e ao carisma pessoal de Francisco que, em sua biografia, nem acadêmica nem institucionalmente, foi obrigado através de um estágio prolongado a adaptar-se ao pensamento curial:
- A LS assume e devolve muitas perguntas. Das respostas, hoje possíveis, procura construir imperativos pastorais e categóricos em benefício de toda a humanidade: “Torna-se indispensável criar um sistema normativo que inclua limites invioláveis e assegure a proteção dos ecossistemas” (LS 53).
- A reflexão ecológica aprofunda as questões sociais e a opção pelos pobres: “Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental” (LS 139).
- Sem pestanejar, o papa faz uso da metodologia indutiva do ver-julgar-agir, que Roma, depois de Medellín (1968), tachou teologicamente incorreta impondo novamente teologias dedutivas.
- Denuncia uma concepção idolátrica e mágica do mercado (cf. LS 190, 56) e a economia que exclui os mais pobres (cf. LS 95).
- Francisco assume amplamente a reflexão das Igrejas locais que articulam os verdadeiros problemas do povo de Deus, e respalda os resultados da comunidade científica sobre as questões climáticas e ambientais.
          A atenção política do peregrino, a autenticidade espiritual do místico, a crítica do sistema milenar, que representa, e a sensibilidade humana do militante, contribuíram para um interesse mundial antes nunca observado na publicação de uma Encíclica. O mundo queria ouvir a voz de um ser humano confiável. Como a estrela de Belém não errou quando parou sobre o casebre de gente pobre, também Francisco não errou em sua recente viagem visitando os países mais pobres da América Latina: Equador, Bolívia e Paraguai. Mostrou que é possível falar sem diplomacia do óbvio, da necessidade de mudanças, da necessidade e do direito fundamental de ter acesso a um teto, ao trabalho e à terra. Eis a novidade: O Papa Francisco representa hoje sujeitos e destinatários de uma comoção inquieta e de uma grande esperança. Como um Condor desce dos Andes, cumprindo a promessa de Caetano Veloso (cantada por Milton Nascimento) que fala de “Um Índio” que virá:
          “E aquilo que nesse momento se revelará aos povos
          Surpreenderá a todos não por ser exótico
          Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
          Quando terá sido o óbvio”.

          [https://youtu.be/-TD1t2zWWAU]

2. Qual a importância de uma instituição como a Igreja Católica se manifestar sobre as questões ambientais? Quais as relações entre ecologia e religiosidade?

          O próprio Francisco se faz essa pergunta: “Por que motivo incluir neste documento dirigido a todas as pessoas de boa vontade, um capítulo referido às convicções de fé” (LS 62)? E ele responde que no caso da ameaça de toda a humanidade, ciência e religião, ambas com finalidade humanística, têm o dever de colaborar na mudança desta realidade.
          A partir da reflexão teológica da fé cristã compreende-se a argumentação fundamental da LS: “Não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres” (LS 49).
          Nessa situação, a Igreja não só pode produzir documentos na altura do status quaestionis, mas precisa assumir seu papel de uma instância mediadora e mobilizadora de suas bases. Quem não ama e defende sua “irmã maior”, a natureza, nem a sua “mãe”, a terra, regride ao estado animal da evolução que faz prevalecer a lei do mais forte.
          A Igreja do papa Francisco tem muitos registros e razões para o engajamento nessa causa:
- seus imperativos doutrinários radicados na fé,
- sua capacidade de costurar alianças com todos os setores, abrindo mão de interesses corporativistas, em benefício do "bem viver” e da sobrevivência de toda a humanidade,

- e, pela autenticidade e facilidade de comunicação, observa-se um convencimento crescente sobre as massas populares, num momento, em que adesão institucional à Igreja católica perde expressividade.

As oito perguntas restantes com as respostas você pode ler nas páginas 91-103 da própria Revista IHU onde foram publicadas:

Versão para folear

Viagem Apostólica do papa Francisco – Bolívia



II. Encontro Mundial dos Movimentos Populares - 

Discurso do papa Francisco


Quinta-feira, 9 de julho de 2015



Hermanas y hermanos, buenas tardes.

https://youtu.be/ava3Zmf1H6A


Hace algunos meses nos reunimos en Roma y tengo presente ese primer encuentro nuestro. Durante este tiempo los he llevado en mi corazón y en mis oraciones. Y me alegra verlos de nuevo aquí, debatiendo los mejores caminos para superar las graves situaciones de injusticia que sufren los excluidos en todo el mundo. Gracias Señor Presidente Evo Morales por acompañar tan decididamente este Encuentro.

Ventos novos no Congresso e na XIX Assembleia Geral da Clar


CANTEIRO DE OBRA DE UMA IGREJA EM SAÍDA

Paulo Suess

        
Entre os dias 18 a 21 de junho, a Clar (Confederação Caribenha e Latino-americana de Religiosos e Religiosas) reuniu mais de 1.200 pessoas da Vida Consagrada (VC) em Congresso de Bogotá, Colômbia. O tema do evento versava sobre “Horizontes de novidade na vivência dos nossos carismas hoje. – Escutemos a Deus onde a Vida Consagrada clama”. Os horizontes foram descortinados durante esses dias segundo o esquema ver-julgar-agir, agora denominado “clamores”, “convicções” e “compromissos”. O tema foi abordado através de palestras e talleres que procuravam mostrar as frestas pelas quais hoje é possível sentir o afago de ventos novos da presença de Deus. As sínteses dos mais de 40 talleres – um feixe de problemas do mundo de hoje - foram acolhidas em dez núcleos temáticos e apresentadas aos plenários no início do dia seguinte. Apesar da multiplicidade dos temas tratados nos talleres, os organizadores fizeram um grande esforço de não perder o foco do tema: horizontes, novidades, saídas.


Encolhimento
       
Hoje, a Vida Consagrada está atribulada por muitos lados. Dados do Anuário Pontifício da Igreja revelaram, ano por ano, um crescimento estável da Igreja Católica, porém, uma queda do número de homens e mulheres consagrados. De 2000-2008, o número de religiosos no mundo passou de pouco mais de 800.000, em 2000, para 740.000 em 2008. A VC no Brasil é composta por 80% de idosos com mais de 65 anos enquanto a população do Brasil está com pouco mais de 12% de idosos.



Na sociedade secular, o sistema capitalista resolve o enxugamento da máquina, quer dizer, a diminuição de operários, através de uma aceleração do processo de trabalho em função de maiores rendimentos e da competitividade. Na vida consagrada, o próprio Deus parece encarregar-se desse “enxugamento” através de um encolhimento vocacional que perpassa a maior parte de congregações e institutos religiosos.


O fenômeno do encolhimento atravessa comunidades com ênfase radical no despojamento e na encarnação, como atinge fraternidades que levam uma vida mais adaptada aos padrões do mundo secularizado e do conservadorismo de classes tradicionalistas. As causas são múltiplas e complexas: a diminuição dos filhos nas famílias, a migração do campo para a cidade, o imediatismo da cultura contemporânea com mudanças rápidas de cenários, com ofertas imediatas e certo desprezo por compromissos a longo prazo. Secularização, individualismo e relativismo são outros fatores da cultura moderna que contribuem para a configuração da crise da VC.

Leigos, Periferia, Novas Gerações

Guiado por necessidades e opções, o lado positivo dessas pressões permitiu melhor “escutar Deus, onde a vida clama” (cf. tema e Mensagem final do evento) e aponta para três sujeitos e áreas de presença: o mundo leigo (a), a periferia dos pobres (b) e as gerações novas (c).


a) O hospital e o grande colégio da Congregação ou da Ordem, que no passado prestaram bons serviços e garantiram o sustento para a atuação em áreas mais pobres, hoje passam progressivamente às mãos de leigos e ao estado laical, sem vínculo com a Vida Consagrada. As grandes obras sempre serviram mais às elites do que aos pobres. Com menos obras, consagrados e consagradas estão livres para a evangelização e a realização de uma “Igreja em saída” (EG 46).

b) A passagem das grandes obras administradas pela VC para a administração pública ou a gestão privada, geralmente, não é uma opção. Muitas vezes, é uma passagem forçada e dolorosa na qual é possível experimentar o desígnio de Deus que quer a VC livre para outros serviços nas periferias, para avançar na opção de uma Vida Religiosa pobre para os pobres. A VC está prestes a dar um adeus ao status de classe média.

Desde os primórdios da conquista espiritual das Américas e em suas fases de prosperidade e expansão, a VC dividiu-se entre acompanhamento dos conquistados e presença entre os conquistadores, entre serviços aos pobres e serviços aos abastados. Nas aldeias indígenas, os primeiros jesuítas aprenderam a ser Igreja inculturada, missionária, pobre e militante. Nos colégios adaptaram-se às demandas da classe dominante. Trabalharam como educadores a serviço dos conquistadores e dos colonos que já eram iniciados na fé de sua classe social e dispensaram grandes esforços de inculturação.

c) A partir da situação geral da VC é compreensível que participação e posicionamento das Novas Gerações ganharam destaque como “fato significativo” (cf. Mensagem final). O núcleo temático “Novas Gerações”, com cinco talleres, “reconheceu sua componente utópica positivamente como chave de reforma em consonância com a utopia de Jesus: o Reino”, capaz de “gerar novos horizontes e motivar compromissos”.


É importante que a VC aprenda pelas Novas Gerações abrir mão de certa rigidez nas estruturas que não estão a serviço dos pobres. Mas é importante também não substituir o antigo autoritarismo dos idosos pelo culto às Novas Gerações com que a mídia televisiva nos tenta distrair dos verdadeiros problemas do mundo de hoje.

É fundamental manter um diálogo sincero com as Novas Gerações, que batem na porta dos noviciados ou dos seminários, para saber se além do canto e da beleza das roupas litúrgicas, amam também os pobres que, às vezes, não são bons nem belos.


 Às Novas Gerações, que chegaram um dia antes em Bogotá, numa espécie de pré-congresso, eu perguntei no meu coração: Será que são capazes de amar em suas casas religiosas os velhinhos e as velhinhas que eram a maioria entre os participantes do Congresso? Em 2050, na América Latina, o número de pessoas com mais de 80 anos de idade será quatro vezes maior que agora, e o dinheiro em caixa da comunidade, certamente, vai ser muito menos do que hoje. Provavelmente, a velhice das Novas Gerações de hoje, amanhã, será menos confortável.

Do Congresso à Assembleia



 O Congresso questionou a autorreferencialidade da Vida Consagrada, lastimou as amarras de estruturas rígidas e considerou as contribuições das Novas Gerações sementes que devem passar da teoria à prática (Mensagem final, n. 6). De certa maneira aconteceu essa passagem nos dias que seguiram ao Congresso, de 22 a 24 de junho, nos dias em que uns 80 delegadas e delegados da Clar realizaram sua XIX Assembleia Geral. Estes, a partir da força missionária de seus carismas, procuravam situar a Vida Consagrada (VC) nos grandes conflitos causados pela degradação da vida no mundo de hoje (cf. Mensagem da XIX Assembleia). 

A Assembleia fez a opção por
- uma VC mais humanizada e humanizadora,
- uma vida em comunhão fraterna como respostas a uma sociedade violenta e desintegradora,
- um cuidado carinhoso com a criação como parte da vocação religiosa,
- uma credibilidade da própria pobreza junto aos grupos mais vulneráveis, particularmente ao lado dos imigrantes, afrodescendentes e povos indígenas,
- uma eclesiologia de diálogo como caminho para a paz, uma evangelização encarnada, e uma missão partilhada entre diferentes congregações e com os leigos,
- uma acolhida das contribuições das Novas Gerações,
- uma assimilação da espiritualidade trinitária e mística profética.


Não esqueçam o melhor...
          


Ao despedir-me dos congressistas, antes do início da Assembleia da Clar, queria dizer algo que, na noite anterior, tinha escrito como lembrete: “Não esqueçam o melhor: a Trindade e a Páscoa, os mártires e os pobres, a comunidade e o despojamento, a misericórdia e a alegria!” Com a memória da recente beatificação de Mons. Óscar Romero e a assunção vigorosa da encíclica Laudato Si, do papa Francisco, a Assembleia da Clar celebrou sua Páscoa, e a Vida Consagrada, tantas vezes declarada sem futuro, renasceu como Igreja em saída, martirial e militante - cantando ao sol.