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Simpósio missiológico: "Vida boa – para todos?”

Entre os dias 18 e 19 de novembro 2010, realizou-se na Universidade de Innsbruck, Austria, um Simpósio Missiológico com a temática: “Vida boa – para todos?”.
Ser feliz, como indivíduo, e viver bem, como ser social em família e sociedade são duas tarefas conjuntas que procuramos cumprir em nossa vida. Parecem duas tarefas contraditórias. No centro da primeira está a felicidade própria do indivíduo, o núcleo da segunda é a moral da sociedade, os costumes e prescrições da cultura, a virtude e a lei da sociedade com seu imperativo categórico. Temos exemplos históricos que mostram, que é possível esmagar o indivíduo pelo coletivo como tempos exemplos do contrário que nos mostram como o indivíduo com sua igualdade e liberdade, que são grandes e perigosas conquistas da modernidade, se impõe à coletividade através de privilégios herdados ou prestígios sociais conquistados. Praticamente todas as lutas sociais representam tentativas de equilibrar felicidade individual e moral social.
O evento foi organizado pelo “Instituto de Teologia Prática” da Faculdade de Teologia Católica (www.uibk.ac.at/praktheol).
A palestra de Paulo Suess sobre ”Teses, experiências e questionamentos para a contribuição de Igrejas e religiões ao bem viver de todos” norteou o Simpósio e seus círculos de discussão. O Simpósio, organizado por ocasião da aposentadoria do titular da cadeira de Teologia Pastoral, professor Dr. Franz Weber, e para homenagear o titular anterior, professor Hermann Stenger, que alcançou, nessa data, com boa saúde seus 90 anos de idade, reuniu praticamente todos os professores de Pastoral e Missiologia de língua alemã.
Para nós, da Escola Missiológica de São Paulo, foi um reencontro particularmente grato. Não só o jubilar, Franz Weber, estudou um ano conosco. Também Franz Helm, que se doutorou com um trabalho sobre Ricci e Acosta (comparação de dois catecismos) em São Paulo, maracou presença e coordenou um dos Workshops. Também o professor Johannes Meier, Mainz, que administrou um curso na então Missiologia da Assunção, se fez presente.
Foto: Missiologia de São Paulo encontrou-se em Innsbruck - Franz Weber, Paulo Suess, Franz Helm.

Encontro no Comina: Viver Bem - Sumak Kawsay – Reino de Deus

No encontro do Conselho Missionário Nacional (Comina), dia 16.08.2010, Brasília, foi apresentada uma reflexão sobre o "viver bem" como novo paradigma latino-americano e planetário:
No discurso público, o projeto de vida plena real para todos, desapareceu completamente. Vivemos não só num mundo pós-moderno, mas também num mundo pós-utópico. Exatamente neste momento pós-utópico emergiu em países latino-americanos muito pequenos e economicamente frágeis, a proposta de um projeto sócio-político alternativo.
Enquanto Brasil está competindo com os países com economias fortes, nas discussões constitucionais da Bolívia e do Equador irrompeu uma proposta que procura superar as políticas alinhadas com os projetos de hegemonia competitiva. Essa proposta, de origem kechwa, se articula em torno de um novo paradigma do “viver bem”, em kechwa, “sumak kawsay”. O “sumak kawsay” é uma utopia política não muito distante da nossa utopia do Reino. Ambos são precedidos ou representam um pachakuti, uma reviravolta em dimensões cósmicas. O pachakuti restabelece o equilíbrio perdido e abre o caminho para “viver em plenitude”.
Autor: Paulo Suess
Leia o texto integral:

X Assembléia Continental de Ameríndia

De 20 a 23 de julho de 2010, sob o olhar milenar do Cotopaxi, o grupo Ameríndia realizou sua Assembléia Continental, em Quito, Equador. AMERÍNDIA teve sua origem em 1978 preparando a Conferência de Puebla. Um grupo de teólogos se constituiu como assessores dos delegados de Puebla. Um trabalho semelhante o grupo realizou nas Conferências de Santo Domingo, em 1992, no Sínodo de América, em 1997, e em Aparecida, em 2007.
Ameríndia pretende manter e renovar a tradição teológica e pastoral latino-americana e caribenha, e atualizar a teologia da libertação. Juntamente com outras pessoas e grupos, pretende criar alternativas econômicas, políticas, sociais e culturais ao modelo neoliberal de globalização. Hoje, Ameríndia é uma rede de teólogos, comunicadores, educadores, cientistas sociais, religiosos/as e leigos/as comprometidos na Igreja e em movimentos sociais (cf. http://www.amerindiaenlared.org/).
O objetivo dessa X Assembléia era projetar a missão da entidade para os próximos três anos. Para essa finalidade, e a partir da análise social (Manuel Hidalgo) e eclesial (Virgilio Uchoa, Gabriele Cipriani), Paulo Suess foi convidado para oferecer ao grupo de aproximadamente 45 pessoas um discernimento que permita assumir os novos desafios como tarefas teológico-pastorais. Em seu texto “Prospectivas e tarefas desde um olhar crítico sobre os desafios da realidade em vista do “buen vivir” (sumak kawsay) de todos“, Paulo Suess teceu em cinco círculos concêntricos “Elementos para um discernimento teológico”:
- O enfoque dos desafios estruturais e conjunturais da realidade nos permite fazer primeiros discernimentos (1).
- O contexto político-cultural-eclesial dificulta hoje assumir o conflito social como ponto de partida para a reflexão teológica. A “ação afirmativa” substituiu ação e reflexão crítica na sociedade e nas Igrejas. Precisamos, portanto, recuperar o espírito crítico e, profeticamente, desafinar o coro dos contentes e coniventes (2).
- Para dar um fundamento sólido à crítica profética do nosso agir teológico devemos recorrer à revelação no plural (bíblia, sabedoria dos povos, sinais do tempo) e aos ensinamentos inovadores do Vaticano II e seus desdobramentos no magistério latino-americano (3).
- A interpretação teológica e prático-pastoral do Concílio nos envolve numa disputa sobre as diferentes leituras possíveis, leituras em chave de continuidade e continuísmo, e de ruptura ou prosseguimento criativo (4).
- Por fim, Paulo Suess procurou, a partir do novo paradigma sócio-planetário e ameríndio do “buen vivir” (sumak kawsai) dos pobres e de seu entrelaçamento com justiça maior do Evangelho, elencar alguns núcleos para a produção teológica e ética solidária dos próximos anos (5).
- Um destes núcleos éticos de uma nova civilização, é o desprendimento. Esse desprendimento em sua forma individual pode ser compreendido como conversão e ascese, em sua forma comunitária ou sociopolítica, como ruptura e solidariedade. O desprendimento como descontentamento profético emerge da consciência de que “remendos novos em odres velhos” não mudarão o curso da História.
Depois da Assembléia, alguns dos participantes tiveram ainda a graça de visitar a “Capela do Homem”, obra de Oswaldo Guayasamin. Trouxemos dois retratos que podem ser considerados como lembretes e imperativos da nossa solidariedade teológica: “Ternura” e “Lágrimas de Sangue”.
Fotos: Quito; Oswaldo Guayasamin, "Ternura", Capela do homem, Quito; Oswaldo Guayasamin, "Lágrimas", Homenagem a Salvador Allende, Pablo Neruda, Victor Jara (essas mãos representam a máscara do silêncio imortalizada no tempo, ocultando a verdade que está na arte de fazer política e literatura, e no canção da vida).