
A reportagem é de
Patrícia Bonilha, e está na íntegra no portal do Cimi, 11-05-2013.
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O ar não era bom nessa audiência |
Porém,
antes que o marco seja oficializado, o Palácio do Planalto já suspendeu as
demarcações de terras indígenas no estado do Paraná, com base em análises da
Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) sobre estudos da Funai. A
intenção vai além: relatórios do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA),
do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e do Ministério
das Cidades também serão levados em consideração. Em outras ocasiões, o
ministro da Justiça José Eduardo Cardozo indicou que tais mudanças ocorreriam.

Após
inúmeras falas nervosas e contundentes em que a Funai, este órgão público do
governo federal - é bom lembrar - foi chamada pelos deputados ruralistas de
criminosa, vigarista, fraudulenta, incompetente, desonesta, dentre outros
adjetivos, a ministra-chefe da Casa Civil afirmou que "a Funai não está preparada
e não tem critérios claros para fazer a gestão de conflitos. Ela não tem a
capacidade para fazer a mediação [entre índios e agricultores] pelo
envolvimento que tem com os índios". Era tudo o que os ruralistas queriam
ouvir: falava contra a Funai a voz delegada pela Presidência da República.
Raposa
no galinheiro

Tudo
muito bem articulado
O
espetáculo protagonizado pela ministra da Casa Civil e pelos ruralistas já
vinha sendo armado há bastante tempo. Há meses, o ministro da Justiça José
Eduardo Cardozo faz declarações à imprensa indicando que para a atual gestão a
Funai não deve ser o órgão com preponderância para definir a demarcação das
terras indígenas, tal como determina a Constituição Federal. Mais recentemente,
no dia 29 de abril, em Campo Grande (MS), a presidenta Dilma foi vaiada por
ruralistas que protestavam contra a demarcação de terras indígenas. A partir
daí uma avalanche de boatos têm sido diariamente estampados nas páginas dos
jornais sobre a possível demissão da presidenta da Funai, Marta Maria do Amaral
Azevedo.
Na
última terça-feira, 7, com base em análise da Embrapa, a ministra Gleisi pediu
ao Ministério da Justiça a suspensão de estudos da Funai para a demarcação de
terras indígenas no Paraná. Este ato foi divulgado pela mídia como “uma
intervenção de Dilma na Funai” e agradou bastante a ala ruralista um dia antes
da ministra Gleisi ir “se explicar” no parlamento sobre a demarcação de terras
indígenas neste governo, atendendo a convocação da bancada ruralista.[...]
Coincidência
ou não, a ministra Gleisi, um dia após pedir a suspensão das demarcações no
Paraná, compareceu à audiência pública dos ruralistas, com as “boas” notícias
sobre a efetivação de um novo marco regulatório para as demarcações de terras
indígenas até o mês de junho. Na prática significa, em um primeiro momento, o
esvaziamento e desmonte completo da Funai.
A
tragédia vai além
[...]
“Esta audiência pública é um divisor de águas e tem como objetivo a suspensão
de todas as demarcações. Não há alternativa”, afirmou de modo bastante nervoso
o deputado Vilson Covatti (PP/SC), conhecido detrator dos povos indígenas e de
seus aliados, imputando falsas acusações e respondendo a processos por tais
atitudes em seu estado de origem.
A
instalação da Comissão Especial sobre a PEC 215, que passa para o Legislativo a
prerrogativa de definir as demarcações de terras indígenas, e a vigência da
Portaria 303, que estende as condicionantes da demarcação da Terra Indígena
Raposa Serra do Sol para todas as terras indígenas do Brasil, também foram
temas recorrentes e exigências apresentadas pelos ruralistas. Em relação a esta
Portaria, o Advogado Geral da União (AGU), ministro Luís Inácio Adams, também
assumindo claramente de que lado está, afirmou que “quanto mais rápido for o
julgamento dela, maior clareza e certeza teremos em relação às condicionantes,
que estão absolutas corretas em seu mérito[...]”.

Por
outro lado, 50 indígenas estiveram na audiência. Com o plenário tomado pelos
ruralistas, que ultrapassavam em muito o número de 50 representantes acordado
com a presidência da Câmara, os indígenas demonstraram força e coragem. De
forma altiva, deixaram seu recado – apesar da censura imposta pelos ruralistas.
Após cerca de duas horas, com gritos de “aqui é casa de ruralista e não de
índio”, contra as manifestações preconceituosas dos deputados e da claque
ruralista.
Os
pequenos usados pelos grandes
O
deputado Dionilso Marcon (PT-RS) alertou para a necessidade de explicitar o
jogo armado pela bancada ruralista que, segundo ele, nunca se manifesta em
nenhuma ação concreta para ajudar os índios que estão em situação de miséria.
“O que me entristece é ver os pequenos agricultores e os quilombolas sendo
colocados contra os índios. Os coronéis se escondem e estão usando os pequenos
para atingir os seus objetivos”, afirmou. [...]
Já
o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) afirmou que para discutir questões indígenas
importantes, como a PEC 215, era “fundamental que caciques indígenas estivessem
na mesa, já que os caciques do agronegócio, como a senadora Kátia Abreu
(PSD/TO) e o deputado Homero Pereira (PSD/MT), compuseram a mesa da audiência”.
[...] “A Funai virou a Geni. Os índios não são responsáveis pelos problemas que
estão ocorrendo. Eles são vítimas. Há 100 milhões de hectares na mão de
proprietários particulares, e mesmo assim, não se discute a reforma agrária e o
sistema fundiário. As soluções são complexas e não podem ser encaminhadas
somente para beneficiar o agronegócio, sojeiros e madeireiros ”, afirmou
Valente. Em relação à CPI da Funai, ele afirmou que até a assinaria desde que
ela analisasse as atrocidades e violências cometidas contra os povos indígenas
relatadas pelo recém descoberto Relatório Figueiredo, realizado pela ditadura
militar em 1967. “Dois mil indígenas Waimiri-Atroari desapareceram na
Amazônia”, exemplificou.[...]
No
lugar errado, na hora errada? Ou muito pelo contrário...
O
deputado Sarney Filho (PV/MA) fez a última fala da audiência e afirmou que quem
deveria estar naquela sessão respondendo às questões relativas à Funai era o
ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, já que esta instituição indigenista
é vinculada ao seu ministério. “Com todo respeito, ministra, a Casa Civil não
tem nenhuma atribuição constitucional para discutir as questões indígenas”,
declarou ele, que defendeu o quadro qualificado da Funai e a sua atuação. “O
Congresso quer promover um retrocesso na legislação. Trata-se de uma manobra
para não se criar mais nenhuma terra indígena”, concluiu ele.
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