A Revolução
não é uma resposta, mas uma pergunta. As teses de John
Holloway podem servir como subsídio para a temática da 5ª Semana Social
Brasileira e sua temática: “Um novo Estado. Caminho para uma nova sociedade do
bem viver”.
John Holloway: Doze teses sobre o
antipoder
1. O ponto de partida é a
negatividade
Começamos com o grito, não com o verbo. Diante da mutilação das vidas
humanas pelo capitalismo, um grito de tristeza, um grito de horror, um grito de
raiva, um grito de negação: NÃO!
O pensar, para dizer a verdade do grito, tem que ser negativo. Não
queremos entender o mundo sem negá-lo. A meta da teoria é conceitualizar o
mundo negativamente, não como algo separado da prática, mas como um momento da
prática, como parte da luta para mudar o mundo, para fazer dele um lugar digno
da humanidade.
Mas, depois de tudo o que passou, como podemos inclusive começar a
pensar em mudar o mundo?
2. Não se pode criar um mundo
digno por meio do Estado
Durante a maior parte do século passado, os esforços para criar um
mundo digno da humanidade se enfocaram no Estado e na idéia de conquistar o
poder estatal. As polêmicas principais (entre “reformistas” e
“revolucionários”) eram acerca de como conquistar o poder estatal, seja pela
via parlamentar ou pela via extra-parlamentar. A história do século XX sugere
que a questão de como ganhar o poder não era tão importante. Em nenhum dos
casos a conquista do poder estatal logrou realizar as mudanças que os
militantes esperavam. Nem os governos reformistas nem os governos
revolucionários lograram mudar o mundo de forma radical.
É fácil acusar todas as lideranças destes movimentos de trair os
movimentos que encabeçavam. O fato de que tenha havido tantas traições sugere,
entretanto, que o fracasso dos governos radicais, socialistas ou comunistas tem
raízes muito mais profundas. A razão pela qual o Estado não pode ser usado para
levar a cabo uma mudança radical na sociedade é que o próprio Estado é uma
forma de relações sociais capitalistas. A existência mesma do Estado como uma
instância separada da sociedade significa que, seja qual for o conteúdo de suas
políticas, ele participa ativamente no processo de separar as pessoas do
controle de sua própria vida. O capitalismo é simplesmente isso: a separação
das pessoas de seu próprio fazer. Uma política que está orientada em direção ao
Estado reproduz inevitavelmente dentro de si mesma o mesmo processo de
separação, separando os dirigentes dos dirigidos, separando a atividade
política séria da atividade pessoal frívola. Uma política orientada em direção
ao Estado, longe de conseguir uma mudança radical da sociedade, conduz à
subordinação progressiva da oposição à lógica do capitalismo.
Agora podemos ver que a idéia de que o mundo poderia ser mudado por
meio do Estado era uma ilusão. Temos a boa sorte de estar vivendo o fim dessa
ilusão.
3. A única forma de conceber
uma mudança radical hoje não é como conquista do poder, mas como dissolução do
poder
A revolução é mais urgente do que nunca. Os horrores que surgem da
organização capitalista da sociedade se tornam cada vez mais intensos. Se a
revolução através da conquista do poder estatal se revelou como ilusão, isso
não quer dizer que devemos abandonar a idéia de revolução. Mas é necessário
concebê-la em outros termos: não como a tomada do poder, mas como a dissolução
do poder.
II.
4. A luta pela dissolução do
poder é a luta pela emancipação do poder-fazer (potentia) do poder-sobre
(potestas)
Para começar a pensar em mudar o mundo sem tomar o poder, deve-se
fazer uma distinção entre o poder-fazer (potentia) e o poder-sobre (potestas).
Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade.
O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas
vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma
ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá
uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o
poder-fazer.
O poder-fazer é sempre social, sempre parte do fluxo social do fazer.
Nossa capacidade de fazer é produto do fazer de outros e cria as condições para
o fazer futuro de outros. É impossível imaginar um fazer que não esteja
integrado de uma forma ou outra ao fazer de outros, no passado, no presente ou
no futuro.
5. O poder-fazer se transforma
no poder-sobre quando se rompe o fazer
A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do
fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de
outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação
dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos
fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados
assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer.
Como fazedores, estão separados de si mesmos. Esta separação, que é a
base de qualquer sociedade na qual alguns exercem poder sobre outros, chega ao
seu ponto mais alto no capitalismo.
Rompe-se o fluxo social do fazer. O poder-fazer se transforma em
poder-sobre. Os que controlam o fazer de outros aparecem agora como os
Fazedores da sociedade, e aqueles cujo fazer está controlado por outros se
tornam invisíveis, sem vez, sem rosto. O poder-fazer não aparece como parte de
um fluxo social, mas existe na forma de um poder individual. Para a maioria das
pessoas o poder-fazer está transformado em seu contrário, a impotência, ou
poder de fazer o que está determinado por outros. Para os poderosos, o
poder-fazer se transforma em poder-sobre, o poder de dizer ao outro o que eles
têm que fazer, e, portanto, em uma dependência com respeito ao fazer de outros.
Na sociedade atual, o poder-fazer existe na forma de sua própria
negação, como poder-sobre. O poder-fazer existe no modo de ser negado. Isto não
quer dizer que deixe de existir. Existe, mas existe como negado, em uma tensão
antagônica com sua própria forma de existência como poder-sobre.
6. A ruptura do fazer é a
ruptura de cada aspecto da sociedade, cada aspecto de nós mesmos
A separação do feito e dos fazedores significa que as pessoas já não
se relacionam entre si como fazedores, mas como proprietários (ou não
proprietários) do feito (visto já como uma coisa divorciada do fazer). As
relações entre as pessoas existem como relações entre coisas, e as pessoas
existem não como fazedoras, mas como portadoras passivas das coisas.
Esta separação dos fazedores do fazer e, portanto, deles mesmos, está
discutida na literatura em termos estreitamente relacionados entre si:
alienação (o jovem Marx), fetichismo (o velho Marx), reificação (Lukács),
disciplina (Foucault) ou identificação (Adorno). Todos esses termos estabelecem
claramente que o poder-sobre não pode ser entendido como algo externo a nós
mesmos, mas que ele permeia cada aspecto de nossa existência. Todos esses
termos se referem a um enrijecimento da vida, uma contenção do fluxo social do
fazer, um obscurecimento das possibilidades.
O fazer está convertido em ser: isto é o núcleo do poder-sobre.
Enquanto o fazer significa que somos e não somos, a ruptura do fazer arranca o
“e não somos”. O que nos resta é simplesmente “somos”: identificação. O “e não
somos” é esquecido ou se trata como puro sonho. A possibilidade nos é
arrancada. O tempo se homogeneíza. O futuro é agora a extensão do presente, o
passado o antecedente do presente. Todo fazer, todo movimento, está contido
dentro da extensão do que é. Pode ser lindo sonhar com um mundo digno da
humanidade, mas isto é nada mais que um sonho. O regime do poder-sobre é o
regime do “assim são as coisas”, o regime da identidade.
7. Participamos na ruptura de
nosso próprio fazer, na construção de nossa própria subordinação
Como fazedores separados de nosso próprio fazer, recriamos nossa
própria subordinação. Como trabalhadores, produzimos o capital que nos
subordina. Como docentes universitários, jogamos um papel ativo na
identificação da sociedade, na transformação do fazer em ser. Quando definimos,
classificamos ou quantificamos, ou quando sustentamos que a meta da ciência
social é entender a sociedade tal como ela é, ou quando pretendemos estudar a
sociedade objetivamente, como se fosse um objeto separado de nós mesmos,
participamos ativamente na negação do fazer, na separação de sujeito e objeto,
no divórcio entre fazedor e feito.
8. Não há nenhuma simetria
entre o poder-fazer e o poder-sobre
O poder-sobre é a ruptura e negação do fazer. É a negação ativa e
repetida do fluxo social do fazer, do nós que nos constituímos através do fazer
social. Pensar que a conquista do poder-sobre pode levar à emancipação do que
nega é absurdo.
O poder-fazer é social. É a constituição do nós, a prática do
reconhecimento mútuo da dignidade.
O movimento do poder-fazer contra o poder-sobre não deve ser concebido
como “contra-poder” (termo que sugere uma simetria entre poder e contra-poder),
mas como anti-poder (termo que, para mim, sugere uma assimetria total entre o
poder e nossa luta).
III.
9. Parece que o poder-sobre nos
penetra tão profundamente que a única solução possível é através da intervenção
de uma força externa. Esta não é nenhuma solução
Não é difícil chegar a conclusões muito pessimistas sobre a sociedade
atual. As injustiças e a violência e a exploração nos gritam, mas entretanto
parece que não há saída possível. O poder-sobre parece penetrar tão fundo em
cada aspecto de nossas vidas que é difícil imaginar a existência de “massas
revolucionárias”. No passado, a penetração profunda da dominação capitalista
levou muitos a ver a solução em termos de liderança de um partido de vanguarda,
mas resultou que isto não foi nenhuma solução, já que simplesmente
substituiu-se uma forma de poder-sobre por outra.
A resposta fácil é a desilusão pessimista. O grito inicial de raiva
ante os horrores do capitalismo não está abandonado, mas aprendemos a viver com
ele. Não nos tornamos aficionados pelo capitalismo, mas aceitamos que não há
nada a fazer. A desilusão implica cair na identificação, aceitar que o que é,
é. Implica participar, pois, na separação do fazer do feito.
10. A única forma de romper o
círculo aparentemente fechado do poder é vendo que a transformação do
poder-fazer em poder-sobre é um processo que implica necessariamente a
existência de seu contrário: a fetichização implica a anti-fetichização
Na maioria das vezes, discute-se a alienação (fetichismo, reificação,
disciplina, identificação, etc.) como se fosse um fato consumado. Fala-se das
formas capitalistas de relações sociais como se tivessem sido estabelecidas na
aurora do capitalismo para seguir existindo até que o capitalismo seja
substituído por outro modo de produção. Em outras palavras, faz-se uma
separação entre constituição e existência: localiza-se a constituição do
capitalismo no passado histórico, e assume-se que a sua existência atual é
estável. Este enfoque conduz necessariamente ao pessimismo.
Se, ao contrário, vemos a separação do fazer e do feito não como algo
terminado, mas como um processo, o mundo começa a se abrir. O próprio fato de
que falamos em alienação significa que a alienação não pode ser total. Se a
separação, alienação (etc.) é entendida como processo, isto implica que o seu
curso não está predeterminado, que a transformação do poder-fazer em
poder-sobre sempre está aberta, sempre está em questão. Um processo implica um
movimento de devir, implica que o que está em processo (a alienação) é e não é.
A alienação, então, é um movimento contra sua própria negação, contra a
anti-alienação. A existência da alienação implica a existência da
anti-alienação. A existência do poder-sobre implica a existência do
anti-poder-sobre, ou, em outras palavras, o movimento de emancipação do
poder-fazer.
O que existe na forma de sua negação, o que existe no modo de ser
negado, existe realmente, apesar de sua negação, como negação do processo de
negação. O capitalismo está baseado na negação do poder-fazer da humanidade, da
criatividade, da dignidade: mas isso não quer dizer que isto deixa de existir.
Como mostraram os zapatistas, a dignidade existe apesar de sua negação. O
poder-fazer existe também: não como ilha em um mar de poder-sobre, mas na única
forma em que pode existir, como luta contra sua própria negação. A liberdade
também existe, não como a apresentam os liberais, como algo independente dos
antagonismos sociais, mas na única forma em que pode existir em uma sociedade
caracterizada por relações de dominação, como luta contra essa dominação.
A existência real e material do que existe na forma de sua própria
negação é a base da esperança.
11. A possibilidade de mudar a
sociedade radicalmente depende da força material do que existe no modo de ser
negado
A força material do negado pode ser vista de diferentes maneiras.
Em primeiro lugar, pode-se ver na infinidade de lutas que não têm como
meta ganhar o poder sobre outros, mas simplesmente a afirmação de nosso
poder-fazer, nossa resistência contra a dominação por outros. Estas lutas tomam
muitas formas diferentes, desde a rebelião aberta até lutas para ganhar ou
defender o controle sobre o processo de trabalho ou o acesso ou adequação a
serviços de saúde, ou a afirmação de dignidade mais fragmentadas e muitas vezes
silenciosas dentro do lar. A luta pela dignidade, pelo que está negado pela
sociedade atual, pode ser vista também em muitas formas que não são abertamente
políticas, na literatura, na música, nos contos de fadas. A luta contra a
inumanidade é onipresente, já que é inerente a nossa existência como humanos.
Em segundo lugar, a força do negado pode ser vista na dependência do
poder-sobre com respeito àquilo que nega. A existência de pessoas cujo
poder-fazer existe como capacidade de dizer a outros o que estes têm que fazer
sempre depende do fazer de outros. Toda a história da dominação pode ser vista
como a luta por parte dos poderosos para libertar-se de sua dependência dos
impotentes. A transição do feudalismo ao capitalismo pode ser vista desta maneira,
não apenas como a luta dos servos para libertar-se dos senhores, mas como a
luta dos senhores para libertar-se dos servos, através da conversão de seu
poder em dinheiro e assim em capital. A mesma busca de liberdade com respeito
aos trabalhadores pode ser vista na introdução da maquinaria, ou na conversão
massiva de capital produtivo em capital dinheiro, que joga um papel tão
importante no capitalismo contemporâneo. Em cada caso, a fuga dos poderosos com
respeito aos fazedores é em vão. Não há forma como o poder-sobre possa ser
outra coisa senão a metamorfose do poder-fazer. Não há como os poderosos
escaparem de sua dependência em relação aos impotentes.
Esta dependência se manifesta, em terceiro lugar, na instabilidade dos
poderosos, na tendência do capital à crise. A fuga do capital com relação ao
trabalho, através da substituição de trabalhadores por máquinas ou por sua
conversão em capital dinheiro, defronta o capital, com sua dependência final em
relação ao trabalho (isto é, sua capacidade de converter o fazer humano em
trabalho abstrato produtor de valor), na forma de queda das taxas de lucro. O
que se manifesta na crise é a força do que o capital nega, quer dizer, o
poder-fazer não subordinado.
12. A revolução é urgente, mas
incerta, uma pergunta e não uma resposta
As teorias marxistas ortodoxas buscaram capturar a certeza para o lado
da revolução, com o argumento de que o desenvolvimento histórico conduziria
inevitavelmente à criação de uma sociedade comunista. Esta tentativa é
fundamentalmente errônea, já que não pode haver nenhuma certeza na criação de
uma sociedade auto-determinante. A certeza só pode estar do lado da dominação.
A certeza pode ser encontrada na homogeneização do tempo, no congelamento do
fazer em ser. A auto-determinação é inerentemente incerta. A morte das velhas
certezas é uma libertação.
Pelas mesmas razões, a revolução não pode ser entendida como uma
resposta, mas como uma pergunta, como uma exploração da realização da
dignidade. Perguntando caminhamos.
NOTA DO GRUPO FIM DA
LINHA: Este texto pode ser considerado uma versão resumida do livro Mudar o
mundo sem tomar o poder. Para maior desenvolvimento dos argumentos, ver o livro
citado (ed. Boitempo).
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