Marina Silva

Havia ali uma palavra antiga, calada por
séculos de violência, tentando novamente fazer-se ouvir. Reconheço essa palavra
desde a infância na Amazônia, de onde vim. E fiquei ao lado dos poucos
deputados dispostos a ouvi-la no lugar onde a voz do povo deve ser sempre
respeitada.

Alguns dos partidos que outrora elevaram
suas vozes pela democracia, agora a controlam e silenciam. Os que detêm
volumosos e nem sempre lícitos recursos do financiamento privado recusam-se a
democratizar o acesso ao financiamento público. Os que têm largo tempo para
dizer o que já é conhecido negam o acesso à mídia aos que querem anunciar o
devir. Os avaros donos da hora regateiam segundos.
Qual o motivo dessa regressão? Repetem-se
o ocultamento e a transferência, como diante dos índios. Muitos políticos têm
medo de sua própria origem. O pragmatismo estagnado teme o sonho renovador.
Para controlar, alega-se que novos
partidos podem ser siglas de aluguel e vender seu tempo de propaganda. A
pergunta é inevitável: quem aluga siglas e quem compra o tempo? A reforma
política, que deveria ser um aperfeiçoamento da democracia, reduz-se a uma
reserva de mercado: restringe a oferta dos possíveis vendedores sem tocar no
poder de demanda dos compradores.

Os colonizadores usaram espelhos para
atrair os índios e vencer sua resistência. Recebamos os fragmentos que eles
agora devolvem. Muitos deputados não se enxergaram nos cacos. Talvez no Senado,
onde a experiência proporciona mais consciência da autoimagem, os defensores da
democracia possam refletir o zelo que por ela tiveram um dia.
[fonte: F.d.S.P, p. A2, 19/04/2013]
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