Governo da presidente Dilma paralisa a demarcação das terras indígenas.






 
AGUIRRE TALENTO
EM SÃO PAULO
 
A presidente Dilma Rousseff é a que, em média, menos concedeu terras a índios na comparação com dados dos governos de Fernando Henrique Cardoso e de Luiz Inácio Lula da Silva.
A conclusão é possível ao analisar a média anual tanto de terras homologadas como de áreas destinadas às reservas nas últimas administrações federais.
Casa Civil freia reserva indígena no Paraná
Foram dez terras reconhecidas por Dilma em dois anos, totalizando 966 mil hectares. Nos oito anos de FHC (1995-2002), foram homologadas 145 terras (41 milhões de hectares), ante 84 (18 milhões de hectares) na gestão de Lula (2003-2010), segundo os dados da Funai (Fundação Nacional do Índio).
A homologação é uma das últimas etapas para reconhecer que uma área pertence aos índios. É de atribuição exclusiva do presidente. Ela ocorre depois que a Funai e o Ministério da Justiça demarcam e delimitam a terra.
A gestão da petista tem sido alvo de críticas tanto dos ruralistas, que acusam a Funai de inflar conflitos ao demarcar as áreas, como dos índios, que reclamam da demora do governo no reconhecimento de suas terras.
Em meio ao fogo cruzado, o governo prepara um novo modelo de demarcação, que incluirá outros órgãos federais no processo.
O Cimi (Conselho Indigenista Missionário) afirma que essa queda nas homologações é uma "opção" e que há 59 terras na fila aguardando a assinatura de Dilma.
Para a antropóloga Iara Ferraz, na gestão Lula foram feitos esforços a favor dos índios, mas Dilma retrocedeu.
Integrante da bancada ruralista, o deputado federal Valdir Colatto (PMDB-SC) diz que "nunca houve pressão tão grande" contra os produtores rurais para a demarcação de terras indígenas.
 
[fonte: Folha d. S.P., Poder, 10/05/2013]
 

Saída – sem saída: Belo Monte


“Como entramos de maneira pacífica, decidimos sair de maneira pacífica”, disse grupo de indígenas ao desocupar o canteiro de Belo Monte.

 
De Vitória do Xingu (PA)

 
Saída sem saída
 
Com um prazo de 24 horas dado pela desembargadora Selene de Almeida, do TRF-1, Brasília (DF), os cerca de 180 indígenas de nove povos dos rios Teles Pires, Tapajós e Xingu, afetados por projetos hidrelétricos, decidiram se retirar do principal canteiro de obras da UHE Belo Monte, às margens da Transamazônica, no Pará, no início da noite desta quinta-feira, 9.

“Como entramos de maneira pacífica, decidimos sair de maneira pacífica. Mostramos que não somos bandidos e respeitamos a decisão da Justiça. Esperamos que a nossa atitude mostre que isso é estar aberto ao diálogo”, explicou Valdenir Munduruku em entrevista coletiva aos jornalistas às portas do canteiro.

Ao redor da liderança indígena, a mais de uma centena de indígenas, que durante uma semana ocuparam o canteiro, num dos mais contundentes protestos contra a usina, pediam pela consulta às comunidades afetadas pelas usinas hidrelétricas que o governo federal pretende construir na Amazônia – parte da pauta que motivou a ocupação. Contrariando a Convenção 169 da OIT e a Constituição Federal, o governo Lula e Dilma passaram a executar grandes obras sem consultar as comunidades afetadas. 


“Não estamos saindo por conta de nenhum acordo. Nós vamos sair daqui porque desde quando chegamos o ministro não veio conversar conosco. (Ao contrário) Escreveu muita mentira na internet sobre a gente”, afirmou Cândido Munduruku, presidente da Associação Pusuru. Os indígenas deixaram claro que não vão abandonar a agenda de luta contra as hidrelétricas na Amazônia e pela consulta prévia.

Valdenir e Cândido ressaltaram que o grupo sai “revoltado com o governo federal”, que ao invés de enviar o ministro Gilberto Carvalho para dialogar mandou a Força Nacional e a Polícia Federal. Os indígenas foram cerceados e impedidos de fazer contato com seus advogados, com a imprensa; agentes da Força Nacional chegaram a impedir a entrada de comida.

No final da noite de ontem, quarta, 8, a desembargadora Selene deferiu pedido de reintegração de posse feito por dez advogados da Norte Energia S A. Hoje, o Ministério Público Federal (MPF) do Pará pediu a suspensão da reintegração. Selene manteve a reintegração, mas reconheceu o movimento como pacífico e despachou um prazo de 24 horas para os indígenas abandonarem a ocupação.  

Militarização e relações perigosas

 
Entre 80 e 100 policias da Força Nacional estiveram presentes no canteiro ocupado pelos indígenas. No final da tarde desta quinta, a procuradora Federal Thais Santi chegou ao canteiro e constatou que só ocorreria violência no local caso a reintegração ocorresse.

De acordo com relatório feito pela chefe da Polícia Federal em Altamira (PA), os indígenas estariam ameaçando cerca de 3 mil trabalhadores, o que justificaria a reintegração. Porém, em contradição, a imprensa noticiou atos de solidariedade dos funcionários da usina com o movimento dos indígenas.

Em nota, o MPF/PA mostrou preocupação com a condução da operação de reintegração de posse, “já que a chefe da PF em Altamira, responsável pelo relatório feito à Justiça, é casada com o advogado da Norte Energia S.A Felipe Callegaro Pereira Fortes, autor do pedido de reintegração de posse. No agravo feito ao TRF1, o advogado chega a citar o relatório da PF, assinado pela sua esposa”, diz a nota.

[Fonte da notícia: Assessoria
de Comunicação - Cimi]
 

Levantamento das excomunhões – um sonho realizado



O último dia do Vaticano II e seu recado descrito por Helder Camara:
  

“O ponto mais emocionante foi o levantamento das excomunhões mútuas, feito ao mesmo tempo em Roma e Constantinopla, de excomunhões que já tinham 10 séculos de triste tradição... [desde 1054!] No momento em que se abraçaram o Santo Padre e o representante de Atenágoras o Povo vibrava de felicidade e chorava de emoção”.
[fonte: Dom Helder Camara, Circulares Conciliares, vol 1, tomo III, p. 325]

Israel lançou esta noite (5/6 de maio) ataque aéreo à Síria que, segundo médico Sem Fronteiras, “é a maior tragédia humana do século”.




O bombardeio desta noite
 

O Irã, importante aliado do presidente sírio, Bashar al-Assad e arqui-inimigo de Israel, conclamou os Estados da região a resistir à investida israelense. Segundo a Agência Reuters/Damasco, a operação atingiu mísseis iranianos a caminho do grupo libanês Hezbollah, que também tinham sido alvo dos outros dois ataques israelenses este ano. No Líbano, o Hezbollah não quis fazer comentários de imediato. A mídia estatal da Síria afirmou que o ataque de Israel foi uma resposta aos recentes sucessos das forças de Assad contra os rebeldes que, com o apoio de países ocidentais, vêm tentando há dois anos derrubar o presidente sírio.
 
Neste contexto, confira a entrevista que Adriana Carranca (O.E.d.S.P.) fez com o médico Paul McMaster (70). Ele cruzou as montanhas da fronteira com a Turquia à noite, arrastando-se "como um crocodilo", e entrou secretamente na Síria para dar apoio à equipe em um centro cirúrgico improvisado no subterrâneo de uma caverna.

Qual a situação na Síria?


Paul McMaster: (Ele mostra a foto de uma sala de cirurgia no que parece ser um subterrâneo com teto e paredes de terra). Este era um hospital de campanha improvisado dentro de uma caverna, muito próximo de um dos palcos da guerra (possivelmente Alepo). Nós saímos desse lugar em dezembro, pois senti que estava muito perigoso. Havia bombardeios constantes e próximos. Quando as bombas caíam, as lâmpadas balançavam, partes do teto ruíam. Eu sabia que era uma questão de tempo. Então, mudamos para outro lugar, uma fazenda, e improvisamos o hospital ali. Três semanas depois, o antigo local foi bombardeado e completamente destruído. Teríamos morrido todos!

Como o senhor e suas equipes chegaram às áreas de conflito?

Paul McMaster: Atravessamos as montanhas à noite, nos arrastando como crocodilos. Você vai até um ponto de travessia na fronteira com a Turquia, vence a cerca de arame farpado e um jovem guia (partidários dos rebeldes ou que ajudam estrangeiros a entrar no país por dinheiro) se oferece para carregar sua mochila, acende um cigarro e some na montanha. Você só precisa segui-lo. É assim que estamos conseguindo colocar nossas equipes dentro da Síria. Mas, dos médicos, eles não cobram, só de jornalistas (risos).

Há sinal do governo sírio sobre o acesso à ajuda humanitária?

Paul McMaster: Se quer saber se temos autorização para operar na Síria, não, não temos! Bombardearam o meu hospital! Aquilo foi uma mensagem muito clara (do governo sírio).

Onde as equipes operam?

Paul McMaster: Estamos operando 3 hospitais de campanha no noroeste do país, não posso revelar o local exato. Mas precisamos de mais gente e suplementos. O conflito se expandiu para o sul, de Alepo a Homs, de Damasco até Dera. Toda essa faixa do oeste do país, na fronteira com a Turquia, Líbano e Jordânia, está em conflito. Estamos fazendo de tudo para chegar ao sul. Nosso temor é o de que a situação seja ainda pior onde não temos acesso.

Quais são as condições nos hospitais de campanha?
 
 


Paul McMaster: Não estão em grandes tendas, como os que temos no Haiti ou Afeganistão. Na Síria, temos de montar os hospitais subterrâneos, onde nossos cirurgiões podem operar em relativa segurança. E estão lotados, inundados de sangue. Tivemos dificuldades de recrutar médicos, as enfermeiras são pessoas das redondezas que vieram oferecer ajuda e nós as treinamos. A segurança limita nossos passos e a chegada do material. Então, o que estamos fazendo na Síria é o atendimento clássico de guerra: gerenciar o desastre com recursos limitados. Não podemos ter uma UTI numa caverna, não temos banco de sangue suficiente, o que podemos fazer são cirurgias emergenciais que salvam vidas.

Quando o sr. fala em atendimento clássico de guerra com recursos limitados, está dizendo que precisa fazer escolhas?

Paul McMaster: Sim, existe uma triagem... Esse é o tipo da coisa que temos de fazer num cenário de guerra. Você tem os que podem esperar - com fraturas, ferimentos que não precisam de cirurgia - e os que estão em estado gravíssimo. Se focarmos nestes, a equipe não faz mais nada. É o grupo do meio que você trata. Aqueles com ferimentos sérios, que precisam de uma cirurgia que vai durar uma hora, uma hora e meia e podemos atender outro e o próximo. A ética é a do maior benefício para o maior número de pessoas. Em São Paulo ou em Londres você trabalha com o principio igualitário: o que quer que um paciente precise, deve-se atender. No cenário de uma guerra, quando uma bomba explode e os feridos estão chegando, isso não é possível, e alguém tem de fazer essa escolha.

O sr. se lembra quando teve de fazer essa escolha pela primeira vez?

Paul McMaster: Sim. Somália... Eu me lembro bem. Sempre me lembrarei. Houve uma grande explosão a bomba em Kismaayo, no sul da Somália, e cinco crianças estavam entre as vítimas. Tínhamos cerca de 40 ou 45 feridos, quase todos graves, muitas amputações. Eu tive de decidir que duas das crianças nós não tentaríamos salvar, porque os ferimentos eram tão severos que consumiriam recursos e tempo de cirurgia com os quais poderíamos salvar mais vidas. Tenho três netos e essa é uma escolha muito dura a fazer. (Ele faz um longo silêncio). Parte do meu trabalho para a MSF agora é preparar médicos para enfrentar esse tipo de situação no campo.

Como é a situação dos refugiados?

Paul McMaster: Há 1,5 milhão de refugiados em campos na Turquia, Líbano, Jordânia e um pouco no Iraque, segundo a ONU. Nos últimos 4 ou 5 meses, o número aumentou muito e esses países já não conseguem absorvê-los. Desde dezembro, temos recebido um número crescente de feridos vindos do sul da Síria - 300 por mês estão chegando à Jordânia! E não estamos falando de soldados. Mais de 70% das pessoas que tratamos são civis feridos ou pessoas com sérias necessidades médicas, como diabéticos, que estão sem medicamentos.

Pelas condições dos feridos que chegam à Jordânia, o que o sr. pode dizer sobre o que está ocorrendo no sul da Síria?

Paul McMaster: Estamos vendo ferimentos a bomba e ferimentos de artilharia. Veja, sou um simples médico, não posso comentar, tenho de ser neutros e imparcial... Mas isso é uma guerra civil completa e de larga escala! No campo, testemunhamos helicópteros M25 despejarem bombas de cacho (ele faz um gesto com as mãos, mostrando como o artefato explode em diferentes direções) e elas provocam destruição em massa. Você se sente esmagado por isso.

Entre os refugiados, quanto estão seriamente feridos?
   

Paul McMaster: A maioria. Eu diria cerca de 80 a 85% dos casos são severos. E estes são os que conseguem chegar. Muitos não podem se mover, têm ferimentos e fraturas múltiplas graves, e ficam para trás, assim como os velhos e as crianças, encolhidos de medo. As ambulâncias muitas vezes chegam trazendo só corpos. O transporte é feito por organizações sírias ou informalmente. Na fronteira, têm de esperar por escolta da polícia local e muitos morrem no caminho. Estamos em negociação com o Ministério da Saúde da Jordânia para colocar um hospital cirúrgico no campo de refugiados. Nossa esperança é de que, dali, possamos encontrar uma forma de chegar ao sul da Síria. Atualmente, isso não é possível, as autoridades sírias estão restringindo os deslocamentos dentro do país e não é seguro.

O FIM E A VOLTA. Fernando Lugo três em um: Bispo, Presidente paraguaio, Senador


 
Roberto Simon

Pouco após o Congresso paraguaio lhe cassar o mandato, na noite de 22 de junho de 2012, Fernando Lugo irrompeu salão adentro no Palácio de los López, a colonial sede da presidência em Assunção, afoito, quase amassando o discurso que trazia entre os dedos. A sua espera, havia uma fileira de jornalistas desesperados por respostas. Aceitaria ele o impeachment relâmpago, decidido em 24 horas (seus assessores falavam em "golpe parlamentar")? Se curvaria o presidente ante de uma decisão que já havia qualificado de ilegítima e inaceitável? De um lado da sala, câmeras e gravadores em riste, empurra-empurra entre repórteres; de outro, um Lugo irrequieto, cercado pelos aliados que lhe restaram e de costas para um enorme quadro de Solano López. Segundos de silêncio e o ex-bispo começa o sermão, agora com um tom inesperadamente calmo.
 

"Eu, na condição de ex-presidente…", soltou, em uma de suas primeiras frases, enquanto tirava os olhos do papel e erguia a cabeça. A tolha estava jogada. Jornalistas que se preparavam para um discurso grandiloquente de resistência , algo como "quero ver quem me tira daqui", ou "peço apoio dos militares legalistas", ou então um clássico brado de "patria o muerte!" deixaram os ombros caírem. Terminado o discurso, Lugo saiu pisando firme. Seu vulto desapareceu do palácio presidencial para nunca mais voltar. Passaria a viver trancado em sua casa, em uma rua calma de Lambaré, ao lado de Assunção.
 
Um de seus assessores mais próximos desabafou naquela noite fria: "Lugo não tem vocação para Salvador Allende" (continua a atormentar a pergunta, não feita, sobre quem seria, no caso, o Pinochet paraguaio). Mas é essa característica, estar sempre um passo atrás das disputas político-partidárias na hora das grandes decisões, o traço mais marcante da personalidade do teólogo da libertação, nascido há 61 anos na pobre San Solano. Para os que o admiram, Lugo, na Igreja e na política, sempre foi um conciliador, avesso à voracidade e ao jogo sujo e corrupto que travam os políticos do Paraguai. Para os que o detestam, ele é omisso, incompetente, um lobo chavista em pele de cordeiro paraguaio.

Na eleição da semana passada, dez meses após o impeachment, pouco se ouviu falar de Lugo no Paraguai, embora ele fosse candidato ao Senado. Antes aberto aos jornalistas, o ex-bispo silenciou a pregação na reta final da campanha (por duas vezes, deu o cano neste repórter). No entanto, as duas maiores novidades trazidas pela votação do último domingo tocam diretamente o ex-presidente.

A primeira: ficou claro que sua vitória em 2008 jamais representou o fim da hegemonia de colorados e liberais, que desde o fim do século 19 se revezam no poder entre eleições e golpes. Venceu Horacio Cartes, que, apesar de não ser um novato na política e no Partido Colorado, ganhou por estar amparado na imagem e no sistema de uma legenda que, por 61 anos, até 2008, foi dona do Paraguai. A segunda mudança: Lugo está de volta, não no colonial Palácio de los López, mas no Senado, um prédio bolo de noiva cinza e vinho, de gosto altamente duvidoso, doado por Taiwan. Cabeça de chapa, ele conseguiu fazer a esquerda se tornar a terceira força no Congresso, com nove assentos no Senado, quatro a menos que os liberais, segundo resultados preliminares.

"Nem mesmo quando Lugo foi presidente tivemos uma bancada progressista desse tamanho", lembra Mario Ferreiro, candidato de esquerda que terminou em terceiro nas eleições presidenciais. Em uma entrevista ao Estado um mês após sua destituição, Lugo admitira: "Nunca tive nenhum apoio no Congresso".

Como será o ex-bispo e ex-presidente na versão Senado é uma incógnita. O Poder Legislativo de Assunção é, digamos, peculiar. Do narcotráfico aos casos de execuções, cinco minutos de conversa com um insider da política paraguaia sobre o Congresso do país equivale a toda a trilogia da família Corleone. Conciliador radical ou lobo chavista, Lugo estará imerso em um novo e inóspito ecossistema. Um outro colaborador do ex-presidente afirma ser falsa a ideia de que ele não sabe tomar decisões. O principal exemplo, argumenta, ocorreu no dia 4 de maio de 2009 em Brasília, em um encontro com o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em meio a uma intensa campanha paraguaia para renegociar o preço da energia de Itaipu vendida ao Brasil. Técnicos dos dois lados não se entendiam, o clima pesava. Lugo e Lula se trancaram por uma hora em uma sala e concordaram em resolver no gogó, entre eles, o enrosco. O ex-bispo pararia de fazer campanha na imprensa, o ex-sindicalista reveria a posição brasileira. Dois meses depois, Lugo anunciava que o Brasil triplicaria as compensações ao Paraguai em Itaipu, seu maior triunfo no poder.

Na presidência, Lugo também decidiu reconhecer três filhos após exames de DNA atestarem sua pouca castidade enquanto ainda era da Igreja - algo que, no conservador Paraguai, custou-lhe caro. Na semana das eleições, a Justiça paraguaia anunciou os resultados do exame de uma outra mulher que dizia ter engravidado do ex-bispo. Deu negativo. "O problema não é tomar decisões, mas tentar mudar o imutável", afirma o ex-assessor. "O Senado paraguaio é uma arena romana com leões que devoram cristãos", completa, com o sorriso de ironia nos lábios. No Palácio de los López, Lugo fracassou. Agora, de Lambaré, lutará novamente contra o imutável Paraguai, à frente da maior bancada de esquerda na história.
[fonte: Suplemento Aliás do Estadão, 27 de abril de 2013]

 

Cortador de cana-de-açúcar, doutor da USP e professor em psicologia social na PUC: entrevista com José Agnaldo Gomes




 
Parabéns José Agnaldo e gratidão aos seus benfeitores D. Luciano de Almeida Mendes, que te conseguiu uma bolsa integral na Universidade S. Judas, D. Cláudio Hummes que deu um empurrão na PUC, quando a sua bolsa de Mestrado não foi para frente, e a D. Bernardo Johannes Bahlmann, que te proporcionou um estágio na Alemanha, para aprender alemão, que serviu para entrar na USP. Continue lutando por um mundo justo de iguais!

 

A seguir alguns trechos das “Considerações Finais da tese de Agnaldo:

 

    
      Ao percorrer o canavial vinte anos depois da minha primeira passagem por ele, cheguei em casa fisicamente exausto, porém cientificamente mais informado para transformar no banco da vida minhas diárias em renda flexível, e na banca acadêmica meu diário em prestação de contas. Já não seria mais capaz de cortar as 12 toneladas de cana-de-açúcar por dia. Aprendi a fazer outros cortes para enfrentar o canavial da vida. Com o facão da Teoria Crítica procurei fazer cortes na história brasileira e na realidade do mundo, nas aparências e nas racionalidades, nas ideologias e nos interesses.

          Não se trata de cortes cartesianos da realidade que separam a verdade da mentira e a “vida correta” da “vida falsa”. As ponderações, sobre a possível escolha dos próprios canavieiros entre “exclusão”, “acomodação” e “transformação” se revelaram tipológicas. No canavial “como realidade e metáfora”, com suas dimensões sistêmicas e vivenciais, se entrelaçam e se sobrepõem em combinações dialéticas sem fim. Tenho mais claro por mim que a “vida correta” e a “vida falsa” são inseparáveis. A cada dia procuro aceitar a ambivalência da vida, do canavial e do canavieiro e, ao mesmo tempo, lutar contra essa ambivalência em sua forma de racionalidade mutilada e vida degradada. Escrever é uma forma de lutar contra a vida falsa, programada, burocratizada, unidimensional e colonizada. Nossos cortes não são tão certeiros que nos impeçam de permanecer devedores diante dos enigmas da realidade e da ciência. Fazemos parte da realidade mutilada que queremos desvendar.

          Resta perguntar se a saída do canavial de Cosmópolis paulistano e cidade-universo é fatalmente uma saída para um reencontro com o mesmo ou para a terra de ninguém. O fato de não haver saídas sistêmicas por falta daquele ponto arquimédico fora do sistema não significa o fim da História. Nem a luz messiânica de Adorno, que clama por redenção e proíbe fazer imagens do futuro, nem o universalismo kantiano de Habermas, que procura dissolver os problemas em prolegômenos infinitos...

          O sofrimento mantém acesa a tocha de restos do imaginário que resistem em nós contra a submissão e o consentimento do “sim senhor”. Esse imaginário permite constelar os fragmentos em configurações sociais novas, óbvias: a coincidência do real com o racional. Numa dessas configurações será devolvida à máquina seu significado original de meio auxiliar do trabalhador e não de seu concorrente eliminatório. Isso trará uma mudança que afetará profundamente todo o projeto civilizatório: os meios desvirtuados em fins se tornariam novamente meios. A desconstrução do trabalho penoso pode ser ponto de partida para que sejam repensados os fins do projeto civilizatório. Sentado na minha colina, parece que comecei a cochilar e a sonhar.

          Vejo os canavieiros na minha frente, cuja permanência no canavial não é opção, mas necessidade. A necessidade assumiu o papel da irracionalidade e está permanentemente empenhada na expulsão da racionalidade da vida social.

          Estou descendo da minha colina. Jogo um aceno discreto aos cortadores de cana. O sol já está forte. Adeus canavieiros e canavieiras! Sua luta pelo pão é o primeiro passo de uma longa caminhada. Este “pan del mañana, para todas las bocas, sagrado y consagrado [...] sera el producto de la más larga y de la más dura lucha humana” (Pablo Neruda).

Em Rondônia, sociedade civil se mobiliza em favor do povo Cinta Larga


 Representantes de instituições públicas e entidades da sociedade civil atenderam ao chamado do Ministério Público Federal (MPF) em Rondônia e criaram o Grupo Clamor (Cinta Larga: Amigos em Movimento pelo Resgate). Os participantes do grupo terão como objetivo buscar e propor soluções, em conjunto com os indígenas, para a situação daquele povo.
 [A informação: Ministério Público Federal - MPF/RO, 25-04-2013.]
 
 
 
 O Grupo Clamor foi formado a partir da inscrição de interessados durante a reunião pública sobre o povo Cinta Larga, realizada na última semana. “Não vamos restringir o grupo. Quem quiser participar ainda pode se inscrever pelo e-mail contato@prro.mpf.gov.br”, afirmou o procurador da República Reginaldo Trindade. Já se inscreveram para participar do grupo 23 pessoas, representando instituições públicas, ONGs, universidades, entre outros.
Durante a reunião pública, os participantes puderam iniciar o conhecimento sobre aquela população indígena e a situação em que estão devido ao garimpo ilegal de diamantes em suas terras; sendo que a triste situação em que se encontram está diretamente ligada à omissão do governo federal. “O descaso do governo federal com esse povo pode causar o extermínio desses índios”, enfatizou Trindade. Um dossiê Cinta Larga foi entregue aos participantes da reunião.
 
Depoimentos
O cacique Nacoça Pio Cinta Larga relatou, durante a reunião pública, uma parte da história de seu povo. Ele contou como sobreviveu após o Massacre do Paralelo 11, nome dado ao episódio que causou destruição de aldeias cintas largas na década de 1960, matando cerca de 3,5 mil índios e pelo qual o Brasil foi, pela primeira vez, denunciado internacionalmente por genocídio. “Da nossa aldeia escaparam só quatro meninos. Ficamos durante muito tempo perdidos na floresta até acharmos os (índios) mais velhos”, contou.
Marcelo Cinta Larga falou sobre o preconceito que seu povo sofre. “Nós recebemos o preconceito de que o povo Cinta Larga não precisa de um projeto, não precisa de apoio, porque existe diamante em seu território, que dormimos em berço de ouro. Por isto o governo e as ONGs deixam de nos apoiar. Isto é muito triste. Algumas mídias dizem que povo Cinta Larga não presta, que é assassino, que rouba. Isto não é verdade. O povo Cinta Larga não entende muito ainda (a cultura do não índio) e precisa de capacitação”, afirmou.
[fonte: Instituto Humanitas Unisinos, 26.4.2013]

Mensagem da Pastoral Operária para o 1º de maio 2013


 “Bem viver. Caminho para a nova sociedade: com novo Estado e novas relações do trabalho”


 O dia 1º de maio, Dia dos Trabalhadores e das Trabalhadoras, continua sendo um momento de denunciar as injustiças que ainda reinam em nossa sociedade e de anunciar uma nova forma de relações de trabalho e de vida. Apesar dos aparentes avanços, muito ainda há de ser feito. Não é momento de festa, mas de luta por garantir os direitos que já conquistamos e por garantir os direitos que estão no papel, porém estão muito distante da vida do povo.

Enquanto o governo brasileiro esta preocupado se o Brasil é a 6º ou 5º maior economia do mundo o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) brasileiro é o 84º. Ficando atrás de países como Cuba, Uruguai, Venezuela, Equador... O crescimento da economia não garante uma melhora no IDH. A concentração de renda no Brasil continua alta, os 20% mais ricos concentram 57,7% das riquezas, enquanto que os 20% mais pobres ficam com apenas 3,5% (IBGE).

Um dos grandes causadores desta desigualdade é a dívida pública que absorveu 45% do orçamento da união em 2012, ou seja, 18% do PIB. O trabalhador brasileiro tem que trabalhar quase 68 dias só para pagar os juros da dívida pública. Este mecanismo diabólico retira dinheiro dos pobres, através dos impostos, e passam para os ricos, através do pagamento dos juros. Desta forma faltam recursos para a saúde, saneamento básico, educação, transporte coletivo, reforma agrária e urbana, demarcação de terras indígenas e quilombolas...


A taxa de desemprego no Brasil esta em 9,8%, 2,215 milhões de pessoas (Dieese), porém o desemprego junto a juventude é de 19,5% (Dieese). Os novos empregos pagam de um a dois salários mínimos. Alias 32,7% dos trabalhadores brasileiros recebem até 1 salário mínimo, que hoje é de R$ 678,00 e é bem menor do que seria necessário segundo o Dieese (R$ 2.561,47). Esta situação somada a maior rotatividade de emprego do mundo, que é a brasileira, leva a classe trabalhadora a viver na corda bamba.

Trabalho penoso no lixão
A juventude trabalhadora sofre com as condições desfavoráveis com relação ao restante da sociedade brasileira e em competição com jovens de outros países. A taxa de desemprego é maior entre os jovens, eles recebem salários menores e trabalham em situações de precariedade maior.  Enquanto em países de PIB alto os jovens estudam e depois que terminam os estudos trabalha. No Brasil a juventude tem que somar as cargas de trabalho e estudo. Como consequência os jovens tem menos tempo para o lazer, a oração e até para organizar os conhecimentos adquiridos. Por isso criar condições para que os jovens brasileiros possam completar seus estudos antes de entrar no mercado de trabalho é imprescindível.
 
  
 As crises continuam tirando o direito a vida em plenitude da classe trabalhadora. A crise cíclica do sistema capitalista continua tirando direitos adquiridos dos trabalhadores europeus. E estas ameaças aos direitos pairam nas cabeças dos trabalhadores brasileiros. A chamada desoneração dos encargos trabalhistas (como se o pagamento dos direitos dos trabalhadores fossem os responsáveis pelo custo Brasil), já começa a acontecer de forma sutil. A redução da cobrança do INSS em 60 setores da economia, a desvinculação do reajuste do salário desemprego em relação ao salário mínimo são exemplos do que podem vir. Por outro lado percebemos uma forte fragmentação da classe trabalhadora, o que dificulta a defesa de nossos direitos.

Dia dos Trabalhadores em São Paulo, 1.5.2013
Ao refletirmos o lema: “Bem viver. Caminho para a nova sociedade: com novo Estado e novas relações do trabalho”. Resgatamos o conceito andino do Bem viver (Sumak Kawsay) – conceito milenar do modo de viver e se relacionar das sociedades indígenas latino-americanas – e que está na agenda de muitos movimentos sociais na atualidade. Nós somamos enquanto Pastoral Operária do Brasil a esses lutadores e lutadoras.

Por estes e outros motivos conclamamos que a “O FRUTO DA JUSTIÇA SERÁ A PAZ” (Is 32,17). E só garantindo a justiça social é que teremos a verdadeira paz em nossa sociedade. Esta justiça só se concretizará no dia em que colocarmos em prática uma nova relação de trabalho e de vida, conforme nos ensinaram os primeiros cristãos: “NÃO HAVIA ENTRE ELES INDIGENTE ALGUM, PORQUANTO OS QUE POSSUIAM TERRAS E CASAS, VENDIAM-NAS, TRAZIAM O DINHEIRO E O COLOCAVAM AOS PÉS DOS APÓSTOLOS".

A erosão do trabalho


RICARDO ANTUNES

"Arbeit, lavoro , travail, labour, trabajo." Não há nenhum canto do mundo que não esteja vendo o desmoronar do trabalho. A atividade que nasceu sob o signo da contradição foi, desde o primeiro momento, um ato vital, capaz de plasmar a própria produção e a reprodução da vida humana, de criar cada vez mais bens materiais e simbólicos socialmente vitais e necessários. Mas trouxe consigo, desde os primórdios, o fardo, a marca do sofrimento, o traço da servidão, os meandros da sujeição.

Se o trabalho é um ato poiético, o momento da potência e a potência da criação, ele também encontra suas origens no "tripalium", instrumento de punição e tortura. Se, para Weber, o trabalho fora concebido como expressão de uma ética positiva em sintonia com o nascente mundo da mercadoria e o encanto dos negócios (negação do ócio), para Marx, ao contrário, o que principiara como uma atividade vital se converteu em um não valor gerador de outro valor, o de troca. Daí sua síntese cáustica: se pudessem, todos os trabalhadores fugiriam do trabalho como se foge de uma peste!
 


Trabalho e Kapital
E a sociedade da mercadoria do século 20 se consolidou como a sociedade do trabalho. Desde o início, no microcosmo familiar, fomos educados para o labor. O sem-trabalho era expressão de pária social. Mas a mesma sociedade que se moldou pela formatação do trabalho se esgotou. Ele se reduz a cada dia, e de modo avassalador. Enquanto a população mundial cresce, ele mingua. Complexifica-se, é verdade, em vários setores, como nas tecnologias da informação e em outras áreas de ponta, e resta exangue em tantos outros.

Onde cresce avassaladoramente, como no telemarketing, produz um ser falante quase mudo, repetidor do trabalho prescrito, movido a pequenos "regalos" ao final de um dia extenuante, cujos minutos e segundos são contabilizados e controlados. Assim nos encontramos hoje: temos muito menos empregos para todos os que dele necessitam para sobreviver. Os que têm emprego trabalham muito, sob o sistema de "metas", "competências", "qualificações", "empregabilidades" etc. E, depois de cumprirem direitinho o receituário, vivem a cada dia o risco e a iminência do não trabalho.

E isso não só nos estratos de base, onde estão os assalariados no chão da produção. Foi-se o dia em que os gestores, depois do corte, iam para suas casas com a garantia do trabalho preservado. Eles sabem que o corte deles se gesta enquanto eles laboram o talhe dos outros. Se vivêssemos em outro modo de produção e de vida, o tempo de trabalho poderia ser muito menor e mais afinado com o tempo de vida fora do trabalho, ambos dotados de sentido e fora dos constrangimentos do capital.

Mas, ao contrário, esses tempos se complementam em outro diapasão, com a casa se tornando espaço de trabalho adicional, e o tempo de vida fora do trabalho se vê cada vez mais encolhido e reduzido à esfera do que fazer para não perder a guerra quando o labor recomeçar no dia seguinte. A resultante é áspera e se conta na casa dos bilhões: aqueles que têm emprego trabalham muito, muitos já não mais encontram trabalho e outros fazem qualquer trabalho para tentar sobreviver com o que sobra da arquitetura societal da destruição. Em plena crise estrutural e sistêmica do capital, da Ásia à América Latina, da Europa à África, há uma nota tristemente confluente: como os assalariados que só dispõem de seu labor poderão sobreviver neste mundo sem trabalho e sem salário?
Dos EUA à China, de Portugal ao Canadá, da Inglaterra ao Japão, passando pelos tristes trópicos, novos recordes de desemprego são batidos todos os dias. Um incomensurável processo de corrosão e erosão se efetiva. Tal como foi desenvolvido ao longo do curto século 20, o trabalho tayloriano-fordista sofreu forte retração a partir dos anos 1970. Mas, com a intensificação desse quadro crítico, adentramos um novo ciclo de demolição do trabalho em escala global.
 

As diversas formas de "empreendedorismo", "trabalho voluntário" e "trabalho atípico" oscilam frequentemente entre a intensificação do trabalho e sua autoexploração. Dormem sonhando com o novo "self-made man" e acordam com o pesadelo do desemprego. Empolgam-se pela falácia do empresário-de-si-mesmo, mas esbarram cada vez mais na ladeira da precarização.
Em volume assustador, uma massa de homens e mulheres torna-se supérflua, esparramando-se pelo mundo em busca de um labor que já não mais existe. Este 1º de Maio nos leva, então, a indagar: qual trabalho queremos para este tenso século 21 que mal está começando?

 RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 60, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp  e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho" e "Adeus ao Trabalho?".
[fonte: 1.5.2009. F.d.S.P.]