A memória lembra passagens pela história. O futuro, se dizia, a Deus
pertence. Antigamente, as leis da natureza, os artigos da fé ou os cálculos da
razão deram firmeza e certeza às nossas projeções do futuro. Hoje somos
aparentemente entregues “ao Deus dará”, a arbitrariedade total. Na era das
incertezas, também as três colunas históricas, a natureza, a religião e a razão
não sustentam mais um futuro previsível. “Em fim, nada basta” (João da Cruz),
nem o silêncio, nem as nossas obras, nem o “Nada te turbe”, da Santa Teresa de
Ávila (1515-1582).
O Dom do amanhã está na possibilidade de construirmos com os
cacos quebrados do passado um vaso para guardar as flores que a vida nos
permitiu colher. O Documentário 'Utopia e barbárie' de Silvio Tendler, pode-nos
politica e pessoalmente animar de colher flores das ruínas e fazer vasos de
espelhos quebrados.
“Utopia e Barbárie” interpreta os cinquenta anos que precederam o
início do século XXI que retratam também partes da nossa vida. O cineasta foi à
procura dos sonhos que balizaram o século XX e inauguram o século XXI. O filme
fala da geração que viveu as revoluções de esquerda e da contracultura, as
guerras de independência na África e na Ásia, a guerra do Vietnã, as ditaduras
latino-americanas, a queda do muro de Berlim e a disseminação da globalização e
do neoliberalismo, funcionando como um "pensamento único". "Utopia"
e "barbárie" são, para o diretor, dois movimentos complementares,
sucedendo-se um ao outro pela história - assim como ao sonho igualitário da
Revolução Russa de 1917 seguiu-se o pesadelo do genocídio estalinista, ao
projeto do Brasil Novo de Juscelino Kubitscheck e João Goulart, a ditadura
militar de 1964.
Viajando nestes anos por 15 países, Tendler acumula entrevistas
históricas - como a do lendário general Giap, 94 anos, o estrategista
vietnamita que derrotou sucessivamente os colonizadores franceses, em 1954, e
os invasores norte-americanos, nos anos 70. O escritor uruguaio Eduardo
Galeano, autor de uma das bíblias para o entendimento do continente, "As
veias abertas da América Latina", além do poeta Amir Haddad, do dramaturgo
Augusto Boal, e os cineastas Denys Arcand, Gillo Pontecorvo e Amos Gitai, vêm
somar suas posições. Todos reveem erros e acertos desta geração que tentou
mudar o mundo pelas ideias e pelas armas, e hoje repensa não só os motivos de
seus fracassos como tenta entender o contexto atual.
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