O Espírito Santo: Protagonista da Missão e Pai dos Pobres
O Espírito Santo é força divina e dom.
Ele está no início de todas as caminhadas que geram vida. Crer no Espírito
Santo significa crer no Senhor que dá a vida (Credo de Constantinopla I, 381).
Ele é aquele “Espírito de Deus” que no princípio do tempo e do mundo “pairava
sobre as águas” (Gn 1,2). No PRINCÍPIO eram o Verbo e o Espírito. Ambos são
inseparáveis. Um é caminho e o outro é guia, juntos ao Deus Pai, criador do
mundo.
A mesma unidade trinitária, que estava na origem da
criação, está na origem da recriação do mundo, na encarnação. Maria concebeu
seu filho Jesus, Palavra de Deus, redentora do mundo, pela força do Espírito
Santo. E esse mesmo Espírito está no início da missão de Jesus de Nazaré. Nele,
o filho do carpinteiro de Nazaré foi confirmado “Filho bem-amado” de Deus, por
ocasião de seu batismo no Jordão (Lc 3,22). Nele foi ungido Messias e fez o
discernimento decisivo de sua vida sobre a finalidade de sua missão: “Ele me
ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4,18). No mesmo Espírito, na festa de
Pentecostes, a Igreja começa “a falar em outras línguas” (At 2,4) e inicia a
sua missão, revestida “da força do Alto” (Lc 24,49).
a)
Pentecostes
Na festa de
Pentecostes, festa do dom da Lei para os judeus e para os cristãos, festa do
dom do novo mandamento, o testemunho da futura Igreja rompe as barreiras
lingüísticas e étnicas, e a “Lei de Cristo” (Gl 6,2) começa a ser anunciada a
todos os povos. E esse anúncio das maravilhas de Deus na língua dos outros povos
acontece pela força do Espírito. Nele, judeus e gentios são chamados a se
tornarem povo de Deus, povo da Nova Aliança (cf. At 15,14). Nesse evento
pentecostal, a unidade plural no Espírito Santo supera a confusão e dispersão
de Babel (Gn 11,1-9) e os discípulos e as discípulas são convocados e enviados
como testemunhas da ressurreição de Jesus e servos e servas do Reino de Deus.
Pentecostes é a festa pascal que está no início da missão.
A fundação
da Igreja, por princípio, quer dizer, desde o início, missionária, na festa de
Pentecostes, festa da convocação e do envio, estrutura a trajetória universal
do anúncio do Evangelho da Graça. Universalidade dos horizontes e concretude
dos conflitos, contextualidade, pluralidade das formas nas Igrejas locais e
gratuidade dos modos de salvação ligam ação e anúncio missionários de maneira
especial ao Espírito Santo. Em Pentecostes, a Igreja é concebida pelo Espírito
Santo. Ele “acompanha e dirige” (AG 4) os atos dos apóstolos, dos discípulos e
das discípulas sem cessar.
Os Atos
dos Apóstolos são o livro da missão realizada sob o protagonismo do Espírito
Santo. Pentecostes continua na missão dos apóstolos. “Lucas coloca vários
Pentecostes sucessivos: em Jerusalém (At 2; 4,25-31), na Samaria (At 8,14-17),
aquele que inicia a aventura missionária com Cornélio e o evento de Cesaréia
(At 10,44-48; 11,15-17) e até o episódio de Éfeso (At 19,1-6)” (CONGAR, p. 69).
O Espírito do alto converte Pedro e a Igreja de Jerusalém da estreiteza
étnico-religiosa para o horizonte amplo da humanidade e dos confins do mundo.
Sob iniciativa do Espírito acontece o batismo dos primeiros gentios e a
primeira missão na diáspora judaica, em Antioquia. A manifestação do Espírito
produziu uma profunda conversão na liderança de Pedro e nas atitudes das
comunidades judaicas (cf. At 10; 13,2; 15). Foi o Espírito Santo que fez a
jovem Igreja se lembrar de que são “os doentes que precisam do médico e não os
sãos” (Lc 5,31) e que o “Filho do homem veio procurar e salvar o que estava
perdido” (Lc 19,10) e não para manter os salvos.
b) Espírito da Verdade
O Espírito Santo é o “Espírito da Verdade” (Jo
14,17) que fala em muitas línguas, mas “não fala de si mesmo” (Jo 16,13). Este
Espírito faz a comunidade de Jerusalém compreender que sua missão não é cuidar
de si mesma. A comunidade aprende do Espírito que a sua missão está no
despojamento e no descentramento voltado para a unidade com outras comunidades
e povos. O Espírito da Verdade sabe articular o plural e as diferenças numa
unidade maior, sem hegemonias isoladas, e sabe despojar-se dos e nos sinais de
mediação. A diferença étnica e o plural cultural não afetam a verdade. O
Espírito da Verdade pode ser experimentado na água do batismo e no fogo da
sarça ardente, no óleo da unção messiânica e na luz de uma consciência nova, no
imaginário da pomba palpável e da nuvem distante. “Despojamento”,
“descentramento” e “apagamento” (cf. CatIC n. 694, 687) permitem transformar uma comunidade de manutenção
numa comunidade missionária que procura comunicar-se com os outros, os pobres,
os sofredores e os perdidos.
O Espírito Santo é Espírito da Verdade, não por
causa de uma doutrina certa, uma lei perfeita ou uma moral superior, mas porque
nele acontece a verdade na geração da vida: na prática do novo mandamento (Jo
13,34) e da justiça maior em favor dos pobres. Na raiz da pobreza está o “pai
da mentira”, o diabo, que perturba a ordem social – “aquele que acusava nossos
irmãos dia e noite” (Ap 12,10). O Espírito Santo é o Paráclito, o “consolador”,
o “intercessor” e o “advogado” dos pobres (cf. DEV 3b).
A missão exige mais que abrir mão de bens materiais; exige,
sobretudo, abrir mão de tradições, até de tradições salvíficas, mas disfuncionais
e, portanto, fardos dispensáveis, diante de um novo contexto histórico e
cultural. A ação salvífica de Deus – antigamente denominada “salvação das
almas” – ultrapassa todo exclusivismo e esoterismo dos sinais salvíficos de
judeus e de cristãos. Isso não desvaloriza esses sinais, mas os redimensiona
diante da possibilidade cultural das pessoas concretas e os relativiza diante
do poder de Deus. Nessa flexibilidade – não nos conteúdos, mas diante das
práticas corporativistas e da padronização de uma roupagem cultural única –, o
Espírito Santo permanece Espírito da Verdade e se revela na missão como
protagonista do Evangelho da Graça (cf. RM 21b). Ele dinamiza esse Evangelho e
se faz presente em todas as formas de doação da vida: no diálogo paciente, na
presença silenciosa, no testemunho, na contemplação e na ação, na caridade, na
misericórdia e na justiça. Tudo que sustenta a esperança num mundo em desespero
é desdobramento da Boa-Nova sustentada pelo Espírito.
c) Gratuidade
O Espírito Santo, pai dos pobres e protagonista da
missão, é dom divino e doador dos dons. O dom realmente importante é o amor (1Co 13), que gera unidade e gratuidade. As
três formas do agir de Deus são, segundo Santo Agostinho, criar (a humanidade e o cosmo), gerar
(o Filho de Deus) e doar (Espírito
Santo). O Espírito Santo é Deus no gesto do Dom (AGOSTINHO, liv. XV, 29).
Na gratuidade e na unidade do Espírito Santo, que
se concretizam na missão, se manifesta a resistência contra a lógica de
custo-benefício, que divide a humanidade, e contra formas burocráticas do agir
eclesial. A Igreja, com suas instâncias institucionais, não precisa ter medo do
Espírito Santo. O movimento pentecostal e a renovação carismática são, antes de
representarem uma ameaça, uma advertência para equilibrar a dinâmica
trinitária. O perigo da Igreja não está na sua redução numérica, mas numa
mesquinhez crescente. Gratuidade e unidade no Espírito Santo significam
continuidade, ruptura e mobilização, alegria e espontaneidade. “É gratuitamente que fostes salvos, por meio da fé. Isto não provém de
nossos méritos, mas é puro dom de Deus” (Ef 2,8s).
A
gratuidade garante a continuidade da história de salvação. Ela está presente nas diferentes etapas de início da vida
como dom e graça. Por isso, de modo particular, está ligado aos sacramentos de
iniciação que são sacramentos da caminhada, ao batismo, à confirmação e à
Eucaristia. Ao religar e refazer esses inícios, ao
completar a criação pela recapitulação, o Espírito Santo mostra a face de Deus
através de gestos significativos de continuidade e ruptura, de despojamento e
inovação, como princípio dinâmico na história de salvação. A gratuidade, que, simbolicamente,
celebramos na “ação de graça”, na Eucaristia, é a condição da não-violência
e da paz no mundo. A gratuidade aponta para a possibilidade de um mundo para
todos. O Espírito que é dom, graça e gratuidade, o Espírito que dá vida, vive
no Verbo encarnado, na Palavra cumprida. Ele, que é a vida do Verbo, vive
também conosco na Palavra de Deus cumprida na fidelidade à missão.
Poema "Talvez", de Pablo Neruda
Eu sou porque tu és
(Tema da Ação
Quaresmal 2017, da Misereor)
![]() |
| (Tela de Chidi Kwubiri, Nigéria) |
Poema “Talvez”
(de Pablo
Neruda)
Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,
E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...
Seu Nome é Jesus Cristo - hoje no meio de nós
Jesus, quem é
Você?
Sou Filho de
operário
Não trabalho
por salário
Trabalho pela
vida.
Sou Luz do
mundo
E sou Bom
Pastor,
Sou a Videira
e sou Amor.
Sou Filho de
José
e de Maria de
Nazaré.
Não fiz
paredes, não sou pedreiro,
Fiz janelas
abertas, sou carpinteiro,
Sou a porta
da Igreja em saída
Sou
ressurreição, verdade e vida.
Provocar rupturas, construir o Reino: Vicente Cañas SJ: Fragmentos de seu martírio
Memória do mártir Vicente Cañas
(assassinado em 6 de abril de1987)
Paulo
Suess
O
colaborador do Reino, necessariamente, será um provocador de rupturas. Vicente
Cañas foi este colaborador da causa maior do Reino, que irrompeu de sua opção pela
causa dos povos indígenas. Mas Vicente foi também esse provocador que rompeu com
missões sobreviventes do sistema colonial e com sistemas econômicos que matam.
Como poderia ser diferente se ele penhorou a sua vida na luta gigante contra a
morte? As vítimas são lugar da epifania de Deus. O que alguns queriam
interpretar como incompatibilidade de temperamento era e continua sendo uma
incompatibilidade de sistema. Até hoje, a luta pela vida dos povos indígenas é
uma questão da ortodoxia da Igreja, e não apenas a luta por uma questão social.
Pecado não é apenas “matar índios” ou explorá-los. “Pecado” significa também
indiferença diante das ameaças de sua causa pelos três poderes, ingenuidade de
parcerias e indigenismo de gabinete.
Companheiros
de ontem, que estavam ao lado de Vicente, hoje se adaptaram, surfando em ondas
altas subvencionadas pelo sistema que matou o missionário. Outros, 30 anos
atrás, na hora do assassinato, ainda estavam arredios ao estilo radical de
Vicente Cañas. Entrementes, se aproximaram. Pediram carona e perdão. Se
converteram. Deus seja louvado!
A
vida missionária de Vicente se realizou na transição tardia do sistema colonial
ao tempo pós-vaticano. Não se trata de uma transição linear. Diferentes setores
eclesiais se combateram pela hegemonia na condução dos processos de interpretação
entre Teologias da Caridade, da Prosperidade, do Pentecostalismo e da
Libertação.
Duas racionalidades
Duas
racionalidades estavam em jogo: a racionalidade ocidental e uma racionalidade a
partir do mundo dos pobres e de múltiplas colorações culturais. A racionalidade
ocidental, em sua forma de zelo pelo bom aproveitamento do tempo, quer dizer,
da aceleração dos processos de trabalho e produção, adquiriu, no cristianismo,
o estatuto de uma virtude. A virtude dessa racionalidade recomenda reservas
(poupança e acumulação) e pressa, porque a generosidade da natureza pode falhar
e a vida é curta. O tempo economizado deve ser gasto com virtude, portanto, com
trabalho, economia e oração. A preguiça é a mãe de todos os vícios e trabalhar
significa participar na criação do mundo novo. Portanto, a tarefa da missão era
incentivar trabalho e oração. Aplicar os bens economizados significa
investí-los, diligentemente, e aumentá-los.
Onde
aplicar os bens economizados? Na construção de templos, na riqueza da Igreja, na
missão e nos pobres. Mas os pobres e os excluídos são produtos desta economia.
Assim a ética ocidental faz parte de um círculo vicioso e a juventude
missionária da época mostrou-se, mais que muitas missões tradicionais, capaz de
conviver despojadamente com os povos indígenas e romper amarras estruturais.
Tornaram-se fatores de inquietação em suas casas religiosas e Igrejas locais.
Recusaram-se a viver o seguimento de Jesus engessados por virtudes secundárias
da pequena burguesia como pontualidade, parcimônia, obediência e limpeza,
virtudes que servem para garantir o bom andamento de qualquer aparato
repressivo. Aceitaram essas virtudes secundárias somente a serviço de outras
virtudes como justiça, solidariedade, tolerância, simplicidade, despojamento e
caridade em prol, não de almas, mas da vida de pessoas concretas ameaçadas.
Também
Vicente Cañas encontrava na defesa da vida dos povos indígenas protagonizada
pelo Cimi o lugar que dava sentido à sua vida. A racionalidade ocidental
desequilibrou a mensagem evangélica e a Missão desequilibrou, pela proposta de
um novo bem-viver para todos, a racionalidade, a ética, o bem-estar e a lógica
ocidental. Achava-se por muito tempo, que as promessas da missão - ordem,
trabalho e sabedoria ocidental - produzissem progresso. Produziram entulho
colonial, porque o progresso nunca era para os colonizados. Destruiu o mais
valioso que os povos indígenas tinham para oferecer ao cristianismo: a
igualdade que emergiu da festa e a liberdade entre iguais.
A festa
A
festa, na maioria das culturas indígenas, é o centro da economia de
reciprocidade. Trabalho só faz sentido sendo realizado em função e a partir da
festa. Quando os missionários proibiram as festas dos indios, cujos
“desperdícios” não corresponderam à virtude da racionalidade ocidental, os
índios se recusaram a trabalhar e a fome se espalhou pelas aldeias. A proibição
da festa era o início da acumulação. “`Pobre´, para os povos Guarani, é aquele
que não pode praticar a reciprocidade das mãos abertas”, nos dizia o padre
Melià. “`Pecador´ é aquele que não quer praticar a reciprocidade porque produz
para acumular, e ao acumular, impede a realização da festa”.
Diante
da proposta do bem-viver dos povos indígenas, a luta de Vicente Cañas e de
tantos outros missionários e missionárias tem um sentido profundo e se torna
relevante para todas as sociedades. Muitos povos indígenas conseguiram até hoje
reproduzir sociedades igualitárias. Qual é o segredo destas sociedades? Nenhum
segredo, nenhuma magia, apenas outras prioridades: o investimento nas pessoas e
na educação para a igualdade e para a partilha em vez de uma educação para a
inserção no mercado concorrencial dos bens e do trabalho.
A
vida de Vicente Cañas é uma advertência. O cristianismo pode ter as qualidades
de um pharmakon que significa na
língua de Sócrates, “remédio” e “veneno”. A religião pode ser “religião do
mercado” para acumular mercadorias e “religião do sagrado”, para defender a
vida. Carregamos os tesouros de Deus em vasos de barro. Vicente deu a sua vida
pelos Enawenê Nawê na Igreja que procura ser “companheira de caminho” (DAp 396)
dos índios e “casa dos pobres” (DAp 8, 524), segundo a proposta do “Documento de
Aparecida” (2007).
Itinerário de Vicente Cañas
Vicente
Cañas nasceu na Espanha, mas sua verdadeira nacionalidade era Enawenê Nawê. Os
que o conheceram de perto contam que Vicente herdou de seu pai o sonho
revolucionário e a audácia de seu temperamento. Entrou na Companhia de Jesus,
em 1961, e viveu ao longo de sua vida religiosa a radicalidade de uma vocação
que culminou no martírio. Não facilitou esse martírio, nem aos seus inimigos
nem aos seus amigos nem a si mesmo.
Ao
chegar no Brasil, em 1966, Vicente viveu algum tempo no Ceará e logo foi
enviado ao Mato Grosso, à Missão Anchieta, em Diamantino. Seu batismo de fogo e
sangue aconteceu em 1969, por ocasião de uma expedição da Funai aos chamados
Beiço de Pau (Tapayuna) que habitavam entre os rios do Sangue e Arinos, no
norte de Mato Grosso. Esse grupo indígena, que contava com mais de 600 índios,
ficou reduzido a 41, devido a uma gripe transmitida pela equipe da Funai. O
Padre Antonio Iasi, da Missão Anchieta, que havia iniciado os primeiros contatos
com os Beiço de Pau, foi chamado às pressas para salvar o restante daquele
povo. Iasi convidou Vicente para ajudá-lo a cuidar da saúde dos sobreviventes.
De outubro de 1969 a abril do ano seguinte, Vicente viveu com os Beiço de Pau,
transferidos em maio para o Parque do Xingu.
Tempos
depois, Vicente Cañas conviveu por cinco anos com o povo Pareci, no noroeste de
Mato Grosso. Nesse período, em 1971, participou do primeiro contato com o povo
Myky, na época apenas 23 pessoas. Em 1974, participou dos primeiros contatos
com os Enawenê Nawê, no rio Juruena, com uma população de cem pessoas, às quais
dedicou os próximos anos de sua vida. Participava dos seus trabalhos e rituais,
era enfermeiro, dentista, mecânico, pescador e cozinheiro. No decorrer dos
anos, os Enawenê Nawê consideravam Vicente como um deles. Em seu Diário
descreve minuciosamente os costumes culturais dos Enawenê Nawê.
Por
causa do interesse de fazendeiros e madeireiros que viam em Vicente um
empecilho aos seus negócios, Cañas sabia que estava jurado de morte. Ele mesmo
chegou a comentar com os companheiros: “Não estranhem se um dia vocês me
encontrarem morto”. Os próprios índios o haviam alertado: “Te cuida. As picadas
dos jagunços já estão perto do teu barraco”. No processo, que 10 anos mais
tarde, em 1996, levaria à demarcação do território dos Enawenê Nawê, Cañas foi
assassinado. Só um mês depois de sua morte, ocorrida no início de abril de
1987, o corpo mumificado foi encontrado, adornado com os colares, as
braçadeiras e pulseiras dos Enawenê Nawê.
Depois
de ser periciado pelo Instituto Médico Legal (IML) do Estado de Mato Grosso, o
crânio do missionário foi enviado para novas perícias ao IML do Estado de Minas
Gerais. De lá, em 1989, o crânio do Ir. Vicente desapareceu misteriosamente.
Depois foi encontrado por um engraxate de sapatos, numa caixinha que declarava
seu conteúdo, perto da rodoviária de Belo Horizonte, fato até hoje não
explicado.
Por
causa do assassinato de Vicente Cañas foram indiciados os fazendeiros Pedro
Chiquette e Carlos Camilo Obici, o ex-delegado da polícia civil na cidade de
Juína (MT), Ronaldo Antônio Osmar, na ação penal apontado como um dos mandantes
do crime, e o Martinez Abadio e José Vicente como executores do crime. Até
hoje, nenhuma condenação.
Apoio institucional e travas institucionais
O
martírio de Vicente Cañas estava respaldado pela reorientação de sua ordem
religiosa. Na época em que se iniciou em sua missão indigenista (1974/1975),
200 representantes da Ordem dos Jesuítas estavam reunidos, em Roma, na sua 32ª
Congregação Geral (CG). Um dos delegados era Mário Jorge Bergoglio, então
Provincial dos Jesuítas da Argentina e hoje Papa Francisco. No célebre Decreto
Quarto, essa CG assumiu, seguindo Medellín (1968), como prioridade apostólica o
anúncio da fé e a promoção da justiça: “A missão da Companhia de Jesus é o
serviço da fé, da qual a promoção da justiça é uma exigência absoluta” (CG
XXXII, D. 4, n.2). Não há verdadeira fé cristã sem preocupação com justas
relações humanas e justas relações humanas têm sua base no anúncio de Jesus
Cristo e sua mensagem de reconciliação. O Geral advertiu à assembleia de que
essa escolha traria para a Companhia novos adversários e mártires. De fato, de
1973 a 2006, morreram 48 jesuítas em missão por morte violenta. O pobre Irmão
Vicente, que procurou viver a sua fé na prática da religião dos Enawenê Nawê,
era um deles.
Arquitetura da fé
Na
arquitetura da fé, o martírio é uma singularidade histórica. Por isso, a Igreja
nunca definiu o martírio como “normalidade” da vida cristã. Também num estado
de injustiça e nas frestas de um sistemas de alienação é possível viver a vida
– na luta aberta e na resistência clandestina. A militância, porém, se
entrelaça com a mística, com mansidão e esperança, como São Pedro pediu no
início da era cristã: “Estai sempre prontos a dar a razão da vossa esperança a
todo aquele que a pedir. Fazei-o, porém, com mansidão e respeito e com boa
consciência” (Pd 3,15s). Não nos é permitido, em nome do Evangelho, eliminar a
vida falsa com violência, a não ser pelo preço de inquisições e zelotismos. A
“vida certa” é vivida entre dois extremos: a luta armada, que pretende eliminar
com violência os inimigos da “vida certa”, e a resignação depressiva, que
espera a morte debaixo de um junípero, como o profeta Elias (cf. 1Rs 19,4).
O
martírio aponta para o núcleo da esperança de uma causa aparentemente perdida,
de uma causa que na última instância e antecipadamente recebeu o veredito de
Deus fiel e justo: serás livre e tua causa viverá. Faz tempo que o território
dos Enawenê Nawê foi demarcado. Em regimes desencontrados na contramão do
Reino, essas demarcações, porém, sempre serão vitórias parciais, sinais da vida
maior no horizonte escatológico ainda não plenamente realizável.
[Esses
“fragmentos” foram recentemente publicados no blog do autor e em: E. Heck/P.
Suess (orgs.), Provocar rupturas,
construir o Reino. Memória, martírio e missão de Vicente Cañas, São Paulo,
Loyola, 2017].
A alegria do Evangelho para uma Igreja em saída
A alegria do
Evangelho para uma Igreja em saída
podemos aprofundar a partir de cinco eixo:
1. A encarnação como
alegria da proximidade;
2. A missão como
alegria do encontro;
3. A misericórdia
como alegria de acolher e ser acolhido;
4. O diálogo como alegria
de comunicar-se com humildade;
5. A sinodalidade
como alegria de caminhar juntos.
Essas cinco alegrias
apontam para lugares onde se concentra a presença de Deus na miséria humana.
A
comunidade missionária “acompanha a humanidade em todos os seus processos, por
mais duros e demorados que sejam” (EG 24). “No irmão, está o prolongamento
permanente da Encarnação” (EG 179).
A Igreja em saída
parte para o encontro com marginalizados e marginais, fugitivos e refugiados,
pobres e feridos, excluídos e não reconhecidos.
Esses encontros são também
encontros com Deus, que no presépio se fez pequeno; no Egito se fez um
refugiado; no Monte das oliveiras, um desesperado; no tribunal da época, um
acusado; na cruz, um condenado à morte e, aparentemente, um abandonado por Deus
e pela humanidade.
Ao situar a alegria do Evangelho no
mistério pascal conseguimos evitar a “alegre irresponsabilidade” (LS 59) e
viver na “sobriedade feliz” (LS 224s) partilhada com todos.
“O Silêncio” de Martin Scorsese que dá para falar
A obra-prima do diretor Martin Scorsese também questiona as realidades que costumam manifestar de forma mais direta a vocação missionária da Igreja, porque permite vislumbrar a fonte viva e surpreendente da qual pode brotar em qualquer época a missão que Cristo confiou aos seus no Evangelho. Sugere que cada investida missionária não deve gerar fruto por sua própria força, mas precisa confiar a cada instante nos sinais da graça de Cristo.
A reportagem
é de Gianni Valente, redator da Agência Fides, publicada por Omnis Terra, 14-02-2017.
A tradução é
de Luisa Rabolini. Fonte: IHU
Silence não é “apenas” uma obra-prima destinada a deixar
sua marca no cinema dos últimos anos. O filme do diretor estadunidense Martin Scorsese, baseado no romance -
publicado em 1966 - pelo escritor japonês Shusaku Endo, representa um presente
inesperado que deveria ser agradecido por todos aqueles que, de diferentes
maneiras, estão envolvidos na missão apostólica da Igreja. Porque seguindo o
próprio gênio artístico, tanto Scorsese como Shusaku intuem e contam até nos
detalhes mais íntimos e arrebatadores o dinamismo incomparável e único do
empreendimento missionário que adentra o mundo com a promessa do Evangelho. E apresentam sua proposta
para a sensibilidade do nosso tempo com uma eficácia e uma força expressiva que
não são facilmente encontradas nas reflexões missiológicas que costumam
circular entre os “encarregados aos trabalhos”.
O filme e o
livro, que ganha o título a partir do "silêncio" de Deus, acompanham
um evento de quase quatro séculos atrás, ambientado no Japão na época da violenta perseguição contra os cristãos começada
em 1587 com o shogun (general) Hideyoshi
e depois continuada pelo shogun Tokugawa,
a partir de 1614. O cineasta nova-iorquino de origem siciliana, durante a
realização do filme, também se valeu da consultoria histórica dos padres
jesuítas David Collins, historiador da Universidade de Georgetown, e Shinzo
Kawamura, da Sophia University. Nas perseguições do século XVII, um grande
número de fiéis e muitos missionários e sacerdotes locais morreram como
mártires, muitas vezes em decorrência de graves torturas.
O filme gira
em torno da figura do jesuíta português Cristóvão Ferreira, “líder”
das missões católicas no Japão, que enviava cartas inflamadas para a Europa sobre a celebração dos
mártires, narrando indescritíveis torturas capazes de “apavorar até o mais
forte de homens, se não fosse pela graça de Deus”. Até que se espalha a notícia
de que justamente ele, submetido à tortura, teria renegando a fé cristã
tornando-se um apóstata. Dois de seus jovens alunos jesuítas, o português Sebastião Rodrigues e espanhol Francisco Garupe, tendo como guia a
controversa figura de Kichijiro -
um japonês convertido, que foge para Macau
depois de ter também apostatado - vão para o Japão com a missão de verificar se as notícias inquietantes sobre
o seu ex-mestre são verdadeiras, ou se apenas se trata de rumores postos
propositadamente em circulação pelos japoneses ou pelos holandeses para minar o
espírito dos missionários católicos e de seus fiéis. Ao chegar, os dois
jesuítas europeus são literalmente sugados pelas conturbadas vicissitudes da
comunidade cristã japonesa assolada pela fase sangrenta da perseguição. Garupe irá morrer como um mártir,
enquanto o protagonista do romance e do filme, Sebastião Rodrigues, acabará
tornando-se também um apóstata, e irá viver por décadas em uma espécie de
prisão domiciliar até sua morte. Os ritmos às vezes alucinantes e o sombrio
frenesi que dominam grande parte do filme - com passagens de tirar o fôlego,
como todas aquelas que detalham às muitas formas de tortura que padecem os
pobres cristãos japoneses – não deixam espaço a sublimações hagiográficas para
a angústia do sofrimento infligido e suportado sem motivo algum, onde o
terrível momento da dor é vivenciado por mártires mostrados como perdedores,
vítimas de um sacrifício aceito pelo aparente silêncio de Deus.
Precisamente
na desenfreada sequência de eventos e cenários onde tudo parece estar
desmoronando, Scorsese, seguindo fielmente e com originalidade Shusaku, dissemina no filme detalhes e
pequenas pistas que podem questionar até mesmo hoje as realidades que costumam
manifestar mais explicitamente a vocação missionária da Igreja. Porque essas
permitem que se perceba sine glossa a fonte viva e surpreendente de onde pode
florescer a missão que Cristo confia aos seus no Evangelho, e também o traço
genético que desde sempre e para sempre, diferencia a missão confiada à Igreja
de todas as formas de propaganda ideológica, religiosa ou cultural.
Vale a pena
uma análise mais aprofundada sobre algumas dessas passagens e pontos-chave da
narrativa.
Um tesouro para disseminar
Quando os
dois jesuítas em busca de seu mestre-apóstata chegam ao Japão, Scorsese descreve
com detalhes comoventes a alegria dos cristãos “escondido”, felizes por ter
novamente entre eles sacerdotes que podem celebrar a Eucaristia e absolvê-los
dos pecados. Sua “fome” por sacramentos, e até mesmo por imagens e objetos
sagrados, expressa a concretude de uma fé percebida como uma promessa e
experiência inicial de salvação, encontrada em meio a uma condição humana
atroz, de miséria e de padecimento. Quando um jovem casal faz o batismo de seu
bebê, perguntam cheios de alegria para os dois missionários se dessa forma o
seu filho está entrando no Paraíso: eles são imediatamente
"corrigidos" pelos dois jesuítas, pois justamente a condição terrena,
marcada pelo sofrimento e pela maldade dos homens, não é o Paraíso.
No entanto,
com a sua pergunta singela e pulsante de alegre esperança, os dois pais
cristãos - pobres analfabetos desavisados dos tratados de escatologia -
manifestam e confessam estar caminhando na mesma fé dos apóstolos, que
reconhece no batismo o princípio da felicidade eterna prometida por Cristo.
Em cenas que
descrevem seu ministério sacramental, ofertado à noite e na clandestinidade aos
"cristãos escondidos", os dois jovens jesuítas saboreiam a grandeza
da missão para a qual foram chamados. Acreditam que podem ser os únicos a
preservar e alimentar a semente lançada por outros.
No seu
livro, Shusaku Endo descreve com
breves e eficientes acenos que um fator que contribuiu para atrair à nova fé os
pobres agricultores e pescadores das ilhas japonesas foi certamente a doce
caridade dos missionários que os batizaram, os primeiros a tratar os neófitos
com dignidade de homens e mulheres. Mônica,
uma das muitas mártires da narrativa, descrita no romance como uma mulher pobre
com um cheiro repugnante, “falava o seu nome de batismo, como se fosse o único
ornamento que possuísse no mundo”.
O Silêncio de Deus
Todo o
filme, e o livro, vibram com a desorientação causada pela perseguição que
irrompe precisamente contra aqueles que de acordo com a promessa do Evangelho são os abençoados e os
favoritos. Rodrigues não se
conforma em ver que tanto sofrimento atinge apenas as pessoas mais vulneráveis,
só porque acreditaram nas promessas de Cristo. A essas vidas miseráveis e
oprimidas, o encontro com Cristo parece acrescentar apenas mais dor e medo.
Como o Senhor pode permitir isso? Como podem ser impostos fardos tão pesados em
ombros tão frágeis? Às perguntas que o missionário lhe endereça, Deus não
parece responder, “impenetrável como o mar”. Nos sofisticados métodos de
suplício, todos pensados para prolongar ao máximo a agonia dos mártires, até mesmo
a crueldade dos carrascos assume traços que ultrapassam o humano. E para
conduzir a tortura está - como relatado na novela Shusaku Endo, e igualmente aconteceu e acontece ao longo da
história da Igreja - um batizado, o sofisticado e perverso
"inquisidor" Inoue,
que, na época em que a missão católica florescia com toda a exuberância havia
se tornado um cristão “para melhorar a sua posição”.
Terras e povos “incompatíveis” com o cristianismo?
A estratégia
persecutória de Inoue visa transformar em apóstatas os padres aprisionados. Ele
assim acredita “cortar as raízes” da árvore do cristianismo que criou raízes em
terras japonesas, para impelir as massas de agricultores e pescadores
ignorantes a renunciar a sua fé. Mas essa estratégia tem seu fundamento em um
teorema: a fé cristã não pode encontrar o Japão. É destinada desde o início a não dar frutos, para continuar
a ser um corpo estranho nas ilhas do Sol Nascente.
Desta forma,
a história narrada por Shusaku Endo
e agora por Scorsese também
chega a um acordo com a sombra desconsiderada de tantas doutrinas e reflexões
missiológicas: a suspeita atemorizante de que existem terras, contextos e
pessoas onde a semente da anunciação do Evangelho, por sua própria natureza,
não pode e nunca poderá criar raízes. Âmbitos excluídos a priori da
possibilidade de conhecer a verdade cristã. Essa suspeita pode corroer por
dentro cada abordagem confiante nas possibilidades que se abrem para o
testemunho evangélico, quando essa se baseia apenas e somente nos processos,
apesar de tudo necessários, de inculturação. Mas também alimenta em sua raiz
fantasias de oposto teor, ou seja, que a “expansão” do cristianismo só pode
acontecer através da assimilação/ colonização de caráter cultural.
Ferreira,
que antes de apostatar havia desempenhado um grande trabalho apostólico nas
ilhas durante vinte anos, mesmo quando tem que empurrar seu coirmão Rodrigues à apostasia, insiste na
proposição de que no Japão “nossa religião não cria raízes”, e que, mesmo
quando a obra apostólica prosperava e os senhores feudais locais competiam para
construir igrejas e abrir as portas para os missionários, na verdade, os
japoneses “não oravam ao Deus cristão”, porque “distorceram Deus para adequá-lo
ao seu próprio conceito de Deus”. Aliás - acrescenta peremptoriamente Ferreira
no romance de Shusaku Endo – “os japoneses, até hoje, nunca tiveram o conceito
de Deus e jamais o terão”, pois “eles são incapazes de pensar em um conceito de
Deus separado do homem. Eles não podem conceber uma existência que transcende a
do ser humano”.
A Igreja dos lapsos
Além da
teorizada "incapacidade genética" de realidades humanas individuais
ou coletivas para encontrar o Evangelho,
a história que tem fascinado Scorsese
aborda - adentrando os recessos mais íntimos do coração do protagonista Rodrigues - também as muitas
possibilidades de fracasso da missão, a dissipação que parece jogar no
esquecimento até mesmo os testemunhos mais valiosos e comoventes da dedicação
incondicional e desmedida ao anúncio do Evangelho. Os dons da graça dos
sacramentos, concedidas pelo padre Fernandes
e seu coirmão Garupe recaem
sobre uma humanidade que permanece frágil, continua a cair e trair,
especialmente representada por Kichijiro,
personagem fundamental do romance e de sua adaptação para o cinema: um bêbado
preguiçoso e servil que entra na história já como apóstata, e durante o
desenrolar da narrativa vai repetir atos escandalosos de traição e apostasia,
até se tornar cúmplice por covardia pela captura do próprio padre Rodrigues. No
entanto, durante o tempo todo, o jesuíta protagonista continua a atender suas
solicitações para confessar e receber o perdão depois de cada traição.
Kichijiro
será o único a pedir e receber de Rodrigues a absolvição dos pecados em
confissão, mesmo quando esse já está em sua condição final de apóstata e
prisioneiro.
Dessa forma,
Rodrigues atesta a abundância inesgotável e a fonte misteriosa do perdão de
Cristo, que ele próprio vai experimentar até o fim.
Olhando para
as repetidas quedas e traições do fraco Kichijiro,
torna-se fácil lembrar e reconhecer que Jesus confiou sua promessa nas mãos e
nos corações de homens frágeis e capazes de renegá-lo, como aconteceu com o
apóstolo Pedro. Partido com a
ousadia de um missionário chamado para proteger e defender a planta frágil do
cristianismo em terras japonesas, o mesmo padre Rodrigues, quando acaba paralisado diante de seus pobres amigos
condenados à morte, é posto diante de sua impotência, de sua limitação, de suas
traições. Até a da apostasia. A mais escandalosa.
O encontro com Cristo no abismo da apostasia
No entanto,
justamente quando afunda no abismo de apostasia, Rodrigues encontra para sempre
o rosto e o abraço de Cristo. Os perseguidores querem forçá-lo a apostatar com
a chantagem: eles repetem que se cumprir o “gesto formal” de pisar o fumie, a
tabuleta sagrada com a imagem de Cristo, poderá salvar seus amigos do suplício
da morte no poço (onde os condenados eram enfiados de cabeça para baixo,
enquanto por pequenas feridas abertas atrás das orelhas gotículas de sangue
escorriam lentamente, numa longa e terrível agonia). Até mesmo Ferreira, para incentivar seu jovem
ex-aluno a realizar o ato sacrílego, alterna palavras duras e expressões
convincentes ( "Se você apostatar, aqueles pobrezinhos serão removidos do
poço. Será poupado seu sofrimento. Mas você se recusa a fazê-lo porque lhe
aterroriza trair a Igreja. Você tem pavor de se tornar um daqueles que são
considerados a escória da Igreja, como eu. Você se considera mais importante
que eles. Importa-se apenas com a “sua” salvação .... (...)”. Mas a convencer Rodrigues a executar o ato sacrílego
não serão nem Ferreira, nem a piedade para os supliciados e nem os carrascos às
ordens de Inoue: é o próprio
Jesus, que da tabuinha preparada para ser pisoteada pelos pés de Rodrigues
fala, convida-o a confiar nele e colocar o pé no rosto de seu Redentor, com
palavras que tocam de forma palpitante o dinamismo misterioso e incomparável da
salvação operada pelo Filho de Deus: “Pisa! Pisa! Mais do que ninguém eu sei
como está cheio de dor o teu pé. Pisa! Para ser pisado pelos homens, eu vim a
esse mundo. Para compartilhar a dor dos homens, eu carreguei a cruz”.
No exato
momento em que ele o renega, Rodrigues
coloca-se totalmente nas mãos do próprio Cristo, impossibilitado agora de
reivindicar qualquer crédito para si mesmo. Com essa visão poderosa e arrebatadora,
os dois artistas modernos, Shusaku
e Scorsese, têm a intuição e
sugerem também que cada investida missionária da Igreja que tenha a pretensão
de se realizar em regime de auto-suficiência, sem depender a todo momento dos
atos de graça de Cristo, destina-se a longo prazo a se transformar em miragem
de poder e de auto-ocupação para os aparatos clericais. Pois nenhuma
"animação missionária" pode pretender trazer frutos duradouros de
salvação por força própria.
Rodrigues, transformado em Apóstata - como zombam até mesmo as crianças de Nagasaki - termina a sua vida de
derrotado em uma gaiola dourada, a “residência dos cristãos”, com um nome e uma
esposa japoneses impostos por seus perseguidores. Mas durante as longas décadas
de vida como recluso, pontuadas por verificações periódicas feitas por seus
carcereiros para verificar se ele e as pessoas que lhe são próximas perseveram
na negação da fé cristã, ele vive no íntimo de seu coração a sua vitória
secreta: nunca mais irá celebrar uma missa, ler o Evangelho, orar em voz alta. Mas vários detalhes (que aqui não serão
revelados, para não “estragar” a surpresa de quem eventualmente for assistir a
essa obra-prima) sugerem que o próprio Cristo continua até o fim a consolar e
confortar o coração do padre apóstata, cristão “escondido”. O amor perseverante
de Cristo também preservou a tocante perseverança final, dissimulada, mas real,
do jesuíta Rodrigues, "Sacerdos in aeternum".
Mesmo fora
dos eventos acompanhados pela arte de Scorsese,
a marca historicamente visível daquela "vitória" que permaneceu
escondida no coração de Rodrigues
e dos muitos japoneses batizados irá se manifestar nas comunidades de “cristãos
escondidos” que os missionários europeus encontraram nas ilhas do Japão, quando puderam retornar para lá
um século mais tarde. Aqueles mesmos de quem o Papa Francisco tantas vezes falou, dedicando-lhes inclusive uma
carta, em março de 2015, para mostrar que as "raízes" da Igreja não
podem ser cortadas quando são nutridas pela fonte viva da graça de Cristo:
“Sobreviveram com a graça de seu Batismo! Isto é grande: o Povo de Deus
transmite a fé, batiza os seus filhos e segue adiante. E mantiveram, em
segredo, um forte espírito comunitário, porque o Batismo lhes tinha feito
converter-se em um só corpo em Cristo: estavam isolados e ocultos, mas sempre
foram membros do Povo de Deus, membros da Igreja”.
(Papa Francisco,
Carta ao enviado especial para a celebração do 150º aniversário da descoberta
dos "cristãos escondidos do Japão" (Nagasaki, 14-17 de março de 2015/São Paulo 2017).
Epígrafe do meu livro recentemente lançado: "Missão e Misericórdia
Aos
bem-aventurados do Reino
Na luta e na contemplação,
Nas conversas noite adentro,
No desespero e na oração,
De braços dados
Com os bem-aventurados do Reino,
Com indígenas na estrada acampados,
Com pobres barrados na porta da Lei,
Migrantes esperando no semáforo
Que nunca lhes dá sinal verde
Para percorrer a vida em liberdade.
Missionárias e missionários
Sem plano de carreira,
Sem instrumentos náuticos
Para navegar nesse mar de miséria.
Aviso aos navegantes:
O conforto da gaiola dourada
Não compensa o sofrimento da solidão.
Vocês não terão mais esperança,
Como posse de ontem e hoje de manhã;
Vocês serão esperança e resgatam ela
Nas frestas da vida mutilada,
No caminho da missão,
Nas galáxias da misericórdia.
A travessia por esses territórios
Faz a vida outra vez vibrante
Na luta e na gratuidade,
Na contramão da competição,
Partilha relevante,
Na simplicidade do pão.
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