16 de maio: Dia do Gari - Obrigado!

Profissionais da “invisibilidade social”

Os garis diariamente estão espalhados pelas ruas da cidade, com uniformes que destacam suas presenças, mas geralmente não são vistos. Não recebem um bom dia e muitas vezes são ignorados por quem anda nas ruas.
O gari enfrenta o drama da “invisibilidade pública” e social, ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde se enxerga somente a função e não a pessoa.

A profissão de gari surgiu no tempo do Império, na cidade do Rio de Janeiro. Tudo começou quando um empresário chamado Aleixo Gary assinou contrato com o governo para organizar o serviço de limpeza das ruas e praias da cidade.

De lá pra cá, os coletores de lixo trabalham todos os dias com seriedade e dedicação, apesar da profissão ser árdua e da jornada de trabalho ser penosa.

Dailane Santana

Primeiro Encontro Diocesano "Fé e Política" de Jundiaí, SP

TRIPÉ DA EVANGELIZAÇÃO:
PALAVRA, AÇÃO POLÍTICO-SOCIAL, CELEBRAÇÃO
Paulo Suess

     O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres (Evangelii nuntiandi, 41).
     Tudo o que tenha relação com Cristo tem relação com os pobres e tudo o que está relacionado com os pobres clama por Jesus Cristo (DAp 393).
Os sinos de Jundiaí:
convocação para "Fé e Política"
Todos os serviços prestados pela diocese, suas paróquias e comunidades à população carente da nossa sociedade em nome do Evangelho e da Igreja são serviços pastorais. Como serviços pastorais, são serviços de evangelização. A dioceses, como Igreja samaritana, evangeliza e, como toda a Igreja, precisa ser evangelizada. A articulação entre fé e política, entre a palavra, a celebração sacramental e o horizonte de sentido aponta para a dignidade de vida das pessoas como criaturas de Deus, para o cuidado com o planeta terra como obra de Deus e para a Vida em abundância, que chamamos a realização histórica e escatológica do Reino de Deus. Ao responder a duas pessoas sobre o alcance da vida eterna, Jesus esclareceu essa questão. Ao jovem rico aconselhou distribuir seus bens entre os pobres e ao doutor da Lei recomendou, na parábola do Bom Samaritano, ajudar aqueles que caíram nas mãos do ladrão.
1. Princípios
A discussão sobre a evangelização explícita e a implícita não tem data de vencimento. Ela marca tradicionalmente a relação entre dois setores pastorais da Igreja em busca de sua convergência, entre a pastoral catequético-sacramental e a pastoral social. O forte, não o monopólio, da primeira é o anúncio, e o da segunda, o testemunho e a diaconia. Ambos não são “departamentos” isolados, mas articulados no interior de uma Igreja samaritana, muito enfatizada no Documento de Aparecida (DAp): “Iluminados pelo Cristo, o sofrimento, a injustiça e a cruz nos desafiam a viver como Igreja samaritana, recordando que a evangelização vai unida sempre à promoção humana e à autêntica libertação cristã” (DAp 26).
Os serviços pastorais da Igreja, a sua diaconia no anúncio da palavra como na prática de solidariedade, são seguimento do Verbo encarnado. Através de ambos os serviços entramos “na vida e na missão d´Aquele que `se aniquilou a Si mesmo, tomando a forma de servo´ (Fil 2,7)” (Ad Gentes, 24; cf. Gaudium et Spes, 32; Lumen Gentium, 8). No conjunto da ação pastoral diocesana, cada serviço é serviço pastoral que envolve uma atividade específica (moradores de rua, creche, reciclagem, vocações, confessionário), integral (material e espiritual), contextual (rua, favela, cidade, campo) e universal. Universal quer dizer que os nossos serviços estão interligados pelos vasos capilares da Boa-Nova e do Reino. Ao contrário do sistema capitalista, com sua divisão funcional de trabalho, com setores hierarquizados e sua lei da concorrência, entre nós, o sucesso de uma pastoral favorece as demais. Nossa atividade pastoral, que é apostólica e profética, exige que tenhamos zelo pelo outro, não ciúme; “exige que anunciemos Jesus Cristo e a Boa-Nova do Reino de Deus, denunciemos as situações de pecado, as estruturas de morte, a violência e as injustiças internas e externas e fomentemos o diálogo intercultural, inter-religioso e ecumênico” (DAp 95). Nem a catequese sem testemunho de vida nem a diaconia sem práxis sacramental e anúncio da “razão da nossa esperança” (1 Pdr 3,15) são coerentes com o Evangelho e relevantes para o mundo. Nós somos esperança num mundo de desesperados!
2. Dificuldades
Aquilo que pelos princípios está claro e consensual pode, na prática das nossas atividades sociais, mostrar unilateralidades. Desde o Vaticano II, a preocupação de muitas pastorais sociais aponta para dois problemas:
Domingo de formação permanente:
Fé e Política
Primeiro, como podemos evitar de nos tornarmos uma ONG, um “substituto caricatural dos movimentos sociais” e um “apêndice dos aparelhos burocráticos do Estado”? O serviço pastoral pode secularizar-se e perder a inspiração de sua raiz evangélica.
Segundo, o grande peso que a ”luta“ e o “„projeto“ têm na vida dos militantes causa, às vezes, um desgaste unilateral entre os pólos que constituem uma vida em sua inteireza. A vida do agente de pastoral ativista pode assemelhar-se a um pneu de carro mal calibrado ou não alinhado. Enquanto o carro roda, adia-se a revisão na oficina. É fácil prever o desandamento do carro na próxima curva.
Qual é o lugar de “fé e política” na busca da eficácia do seu serviço aos pobres e no seu alcance meramente simbólico, entre eficiência e gratuidade? Os pólos que constituem a vida inteira – razão e emoção, espírito e matéria, trabalho e lazer, luta e contemplação, individual e coletivo – criam tensão, mas geram também luz. O preço da luz é a tensão entre os pólos. As pastorais sociais têm as suas compensações, mas também o seu preço. Se o zelo pelo bem-estar do outro ultrapassa os nossos limites, o desencantamento e o estresse poderão bater à nossa porta. Cuidar dos outros exige também cuidar de si mesmo. Cuidar de nós pode significar recontextualizar-nos a cada dia em casa, na fraternidade e na capela, que são fontes de energia para a nossa presença encarnada no mundo: “Toda autêntica missão unifica a preocupação pela dimensão transcendente do ser humano e por todas as suas necessidades concretas, para que todos alcancem a plenitude que Jesus Cristo oferece” (DAp 176).
3. Eixos
“Fé e política” orientados para os mais necessitados, estão comprometidos com os grandes conflitos do mundo de hoje: com a redistribuição dos bens e o reconhecimento do outro. Os impulsos norteadores do nosso serviço, a partir do Evangelho e do nosso Carisma, que não brotam de uma ideologia política, mas da nossa fé em Deus Amor, encarnado, morto e ressuscitado em Jesus Cristo.
A partir daí, surgem dois eixos que atravessam o trabalho social como duplo sinal. O trabalho articulado na dimensão de “fé e política” nos permitem perceber a pastoral como um sinal de contradição e um sinal simbólico. Nossa pastoral é um “sinal de contradição” (Lc 2,34) em relação ao espírito da nossa época e às ideologias hegemônicas do consumo, da acumulação e da concorrência eliminatória, e, ao mesmo tempo, todos os nossos serviços são um sinal simbólico se considerarmos o alcance transformador desse serviço em nossa sociedade. Como “resistentes”, estamos na contramão do sistema e da sociedade, como “servos de Cristo Jesus” (Ro 1,1) somos sempre “servos inúteis” (Lc 17,10).
Estamos na contramão porque a ética cristã vai além da ética culturalmente correta. Quem nasce com Jesus Cristo ao pé da cruz e na força do Espírito Santo, desconfia dos brilhantes falsos dos vencedores. Definitivamente, nós não somos vencedores e a teologia pastoral não é uma “teologia da prosperidade”. Os nossos serviços são, como os milagres de Jesus, sinais que apontam para transformações que não podemos produzir. Jesus não curou todos os leprosos. Também a diocese optou por alguns serviços em que procura “excelência”, articulando a graça de Deus com a obra humana. Nossos serviços são “pingos de gratuidade”, “sinais de justiça” e “imagens de esperança”.
Em dois lugares significativos do Evangelho, Jesus exige algo mais, algo maior do que estava prescrito no código ético, nas normas constitucionais, nas leis casuísticas e nos ritos tradicionais do seu povo. Nas bem-aventuranças, que representam o novo código ético dos cristãos, e na Última Ceia, no discurso-testamento de despedida, do Evangelho de João, em que Jesus de Nazaré propõe uma revisão radical dos valores hegemônicos de seu tempo. Nele, anuncia como núcleo central de seu “Evangelho do Reino” (Mt 4,23) não só a conversão intra-sistêmica, mas a ruptura com aquele sistema religioso-político que não redime, mas, pelo contrário, escraviza. “Se vossa justiça não for maior que a dos escribas e a dos fariseus, não entrareis no Reino dos Céus” (Mt 5,20). Nos trâmites da justiça, não somos juiz entre as partes, mas “advogado da justiça dos pobres” (DAp 395, 533).
Para não cair nas ciladas dos justiceiros, dos zelotes e dos fundamentalistas fanáticos, a maior justiça exige o amor maior. “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). No mundo competitivo e excludente, onde tudo vale somente pelo seu preço de mercado, a missão no mundo está vinculada à derrota do reino da necessidade e à recuperação de um espaço e projeto alternativos de não-mercado e gratuidade. A justiça maior e o amor maior rompem com a lógica do sistema e com as acomodações produzidas na vida de cada um. A comunidade missionária confia na atração de seu testemunho gratuito. Seu "marketing" dispensa propaganda e armas. Não somos caçadores de borboletas, mas jardineiros. “Na generosidade dos missionários se manifesta a generosidade de Deus, na gratuidade dos apóstolos aparece a gratuidade do Evangelho” (DAp 31).
A gratuidade nos impulsiona necessariamente à simplicidade institucional. Somente estruturas leves permitem pensar em gratuidade. Estruturas pesadas são muito caras. Uma Igreja a caminho é uma Igreja simples, transparente, portátil. O caminhar no Espírito é um caminhar desarmado e despojado. Conversão e transformação autênticas tornam as pessoas mais simples. “Quando vos mandei sem bolsa, sem mochila e sem calçado, faltou-vos, porventura, alguma coisa?” (Lc 22,35). A gratuidade, microestruturalmente vivida na contramão do sistema, aponta para a possibilidade de um mundo para todos (cf. DAp 540).

A beatificação confirma virtudes heróicas, não doutrinas

 Um pontificado ousado e disciplinador

Nas últimas décadas vivemos duas viradas importantes no Vaticano. Ambas de João: João XXIII (1958-1963) e João Paulo II (1978-2005). Mas diferem na direção. João XXIII rompeu a tradição hierática da era dos últimos papas Pio (IX, X e XI) que culminara em Pio XII (1939-1958). Iniciou o aggionarmento na Igreja, convocou o Concílio Vaticano II (1962-1965). Seguiu-se verdadeira explosão renovadora que Paulo VI apenas deu conta. Abalou-lhe o ânimo a recepção crítica da encíclica Humanae vitae (1968) por parte de episcopados, da grande imprensa e pela imensa massa dos fiéis. Atormentou-o também a desistência de milhares de sacerdotes, uns pedindo a dispensa, outros deixando sem mais o ministério.

Paulo VI oscilou entre momentos de abertura e de fechamento. Por sua vez, a crescente maré de liberdade no interior da Igreja crescia pela força das transformações institucionais, especialmente no campo litúrgico, do comportamento religioso do clero, das pessoas consagradas e dos fiéis. Identificou-se em tal fenômeno o germe da 'secularização', ora analisado sob ótica positiva, necessária resposta aos tempos atuais, ora com temor e desejo de freios e retornos.
Depois do brevíssimo pontificado de João Paulo I, de 33 dias (1978), começa o de João Paulo II. Sem esses antecedentes não se entende nem a escolha da figura de João Paulo como papa nem também o seu pontificado. Acrescente-se que medrava na Igreja Católica novo tipo de fiel. O então jesuíta François Roustang, diretor da respeitável revista francesa de espiritualidade Christus, constatava, em breve e contundente artigo (1965), o surgimento de uma nova consciência do católico. Ele a chamou de 'terceiro homem'. Sem romper com a Igreja e sem ser por ela expulso, comporta-se com enorme liberdade diante de suas leis, mesmo consideradas graves por ela. Segue-as somente e até onde elas lhe respondem a experiência existencial, sem rebeldia nem desprezo. Esse fenômeno profundo e alastrante explica muito das atitudes de João Paulo II. Ele o enfrenta com decisão e contundência.

Para análise exata e rigorosa, cabe distinguir a pessoa do papa e o seu pontificado. Para isso, necessitaríamos de muito mais informação, especialmente de dentro dos bastidores do Vaticano. Só quem lá viveu e vive obtém dados para perceber o jogo difícil e sofrido entre as decisões que o papa toma e o reagir lento, às vezes, corrosivo da instituição. Vale de todos os governos.
A eleição de João Paulo II correspondeu ao desejo conservador da alta hierarquia em face da crescente liberdade interna no seio da Igreja por parte de alguns bispos, sacerdotes, membros das tradicionais Ordens Religiosas, teólogos e movimentos leigos. João Paulo II assume o pontificado, entre outras coisas, para resolver esse impasse.

Exemplo claro aparece no discurso inaugural em Puebla (1979). Com poucos meses de pontificado, não tinha condição nenhuma de avaliar a caminhada da Igreja na America Latina desde Medellín (1968) até aquela data. No entanto, faz pesado discurso aos bispos do continente. Por trás, estava a intenção de frear as forças renovadoras, libertárias e criativas da Igreja latino-americana: bispos avançados, teólogos da libertação, a vida consagrada e as comunidades eclesiais de base (CEBs). Todos problemas internos da Igreja. Chegou a chamar tais realidades de 'magistério paralelo'. Dava claro recado! Ele era o 'magistério autêntico' e todos os outros paralelos, portanto, inaceitáveis.
Isso já bem no início do pontificado. E, ao longo dele, esses setores foram lentamente sendo reconduzidos à disciplina eclesiástica. Os bispos da libertação e inovadores sofreram restrições. Envelheceram e foram morrendo. No seu lugar, nomearam-se outros, alinhados, com pauta clara de limites no exercício do ministério episcopal. No campo da doutrina, multiplicaram-se as famosas 'notificações', silenciamentos e retratações de importantes teólogos. As CEBs padeceram forte pressão para se tornarem subdivisões da paróquia, perdendo, assim, o traço original de autonomia e de rede em lugar da paróquia. O sociólogo Pedro R. de Oliveira distingue as Igrejas com CEBs, toleráveis, e as Igrejas constituídas por CEBs, condenadas a desaparecerem. Algumas grandes Ordens Religiosas conheceram intervenções de Roma. A Companhia de Jesus viveu alguns anos sem um padre-geral eleito, governada por um jesuíta nomeado pelo Vaticano. Visava-se a que ela se alinhasse às orientações oficiais na sua teologia e prática apostólica. A Confederação Latino-Americana da Vida Religiosa sofreu visitação romana. Até mesmo bispos tiveram visitas canônicas de inspecção. E, no campo dos leigos, incentivaram-se os novos movimentos de espiritualidade e apostolado, bem afinados com Roma.

O lado do disciplinamento interno da Igreja não responde, de modo algum, à totalidade do pontificado e da pessoa de João Paulo II. Pelo contrário, parece que não era o de que ele mais amava. Com as viagens, favoreceu o crescimento e o fortalecimento da Igreja Católica. Personalidade fascinante e vigorosa, atraía multidões. Não interessava tanto o que ele falava. Às vezes, soavam discursos distantes do povo. Mas lá estavam as massas para vê-lo e sentir-lhe a força da personalidade. Três iniciativas públicas merecem destaque entre outras tantas. As Jornadas Mundiais da Juventude mobilizaram, pelo mundo, milhões de jovens e acordaram ideais adormecidos em seus corações. Duas vezes (1986 e 2002), convidou as lideranças das religiões do mundo para rezarem com ele na Jornada Mundial de Oração pela Paz em Assis. Belíssimo momento de ecumenismo e diálogo inter-religioso. Para dissabor de muitos da Cúria Romana, na quaresma de 2000, organizou comovente liturgia na qual os principais representantes dos dicastérios romanos pediram perdão à humanidade pelos pecados da Igreja na evangelização impositiva, na Inquisição e em outros desmandos. Gesto de imensa ousadia. Numa palavra: pontificado profético e ousado para fora e disciplinador para dentro.
Pe. João Batista Libânio, SJ

13 de maio: Lutar pela Abolição do Racismo

Nova forma de racismo:
criminalização das lideranças indígenas e a judicialização de sua causa

(cf. a denúncia de dom Erwin Kräutler
na 49. Assembléia da CNBB, em Aparecida,
 no sitio do Cimi: http://www.cimi.org.br/ ).


Treze de maio: uma data injustiçada?

Ricardo Barros

O dia 13 de maio de 1888 marcou oficialmente o fim da escravidão no Brasil através de uma lei assinada pela Princesa Isabel, durante uma viagem de Dom Pedro II ao exterior. Naquela oportunidade houve uma série de comemorações, principalmente no Rio de Janeiro, capital do Império. Vários ex-escravos saíram às ruas comemorando o feito. É verdade que em várias regiões do país o trabalho escravo persistiu e só foi abolido no início do século XX. Volta e meia a imprensa nos dá informações sobre a existência do trabalho escravo em várias regiões do país ainda nos dias de hoje.

O movimento negro, então, resolveu abolir essa data e comemorar a negritude no dia 20 de novembro, denominado Dia da Consciência Negra. Razão mais que justa, pois, de fato, o 13 de maio foi uma data que ocorreu de “cima para baixo”, sem a participação dos principais interessados no tema, apesar de haver no Brasil um movimento abolicionista bem forte naquele período, principalmente nas cidades importantes do sudeste do país.

O Dia da Consciência Negra não existe por acaso. Em 20 de novembro de 1695, Zumbi, principal liderança do Quilombo dos Palmares – a maior comunidade formada por escravos fugitivos das fazendas no interior de Alagoas – foi morto em uma emboscada na Serra Dois Irmãos, em Pernambuco, após liderar uma resistência que resultou no início da destruição daquela comunidade. Portanto, comemorar o Dia da Consciência Negra nessa data é uma forma de homenagear e manter viva na memória coletiva essa figura tão importante para a história do Brasil e para o povo negro em especial. Não somente a imagem do líder, mas também a sua importância na luta pela libertação da escravidão e na melhoria das condições de vida para esse povo.

Entretanto, o 13 de maio de 1888 ...
(leia o texto na íntegra no sitio do CEBI:

Josimo - Santo subito - Rogai por tua Igreja!

25 anos do martírio de Josimo Tavares

“Feliz de um povo que não esquece seus mártires”, dizia dom Pedro Casaldáliga. Dia 10 de maio de 2011 celebramos 25 anos do martírio do padre Josimo Tavares. Por isso o recordamos.
Após tentativa de assassinato contra padre Josimo Moraes Tavares, no dia 15 de abril de 1986, quando cinco tiros foram disparados contra a Toyota dele, profundamente ameaçado de morte e de ressurreição, incompreendido até por colegas padres e agentes de pastoral, padre Josimo foi "intimado" a elaborar um relatório de suas atividades e a esclarecer as circunstâncias que levaram a tantas ameaças de morte contra ele.
Em seu belíssimo Testamento Espiritual pronunciado durante a Assembléia Diocesana de Tocantinópolis, MA, no dia 27 de abril de 1986, poucos dias antes de seu assassinato, dizia Josimo que sua morte estava anunciada, encomendada e prescrita nos anais das correntes que desejavam ardentemente eliminá-lo. Novos Anás e novos Caifás já o haviam julgado. Mas Josimo se encontrava firme, pois havia assumido o seu trabalho pastoral no compromisso e na causa em favor dos pobres, dos oprimidos e injustiçados, impulsionado pela força do Evangelho. Josimo declarou:
"Pois é, gente, eu quero que vocês entendam que o que vem acontecendo não é fruto de nenhuma ideologia ou facção teológica, nem por mim mesmo, ou seja, pela minha personalidade. Acredito que o porquê de tudo isso se resume em três pontos principais.
Por Deus ter me chamado com o dom da vocação sacerdotal e eu ter correspondido.
Pelo senhor bispo, D. Cornélio, ter me ordenado sacerdote.
Pelo apoio do povo e do vigário de Xambioá, então Pe. João Caprioli, que me ajudaram a vencer nos estudos.
"O discípulo não é maior do que o Mestre. Se perseguirem a mim, hão de perseguir vocês também." Tenho que assumir. Agora estou empenhado na luta pela causa dos pobres lavradores indefesos, povo oprimido nas garras dos latifúndios. Se eu me calar, quem os defenderá? Quem lutará a seu favor? Eu pelo menos nada tenho a perder. Não tenho mulher, filhos e nem riqueza sequer, ninguém chorará por mim. Só tenho pena de uma pessoa: de minha mãe, que só tem a mim e mais ninguém por ela. Pobre. Viúva. Mas vocês ficam aí e cuidarão dela. Nem o medo me detém. É hora de assumir. Morro por uma justa causa. Agora quero que vocês entendam o seguinte: tudo isso que está acontecendo é uma consequência lógica resultante do meu trabalho na luta e defesa pelos pobres, em prol do Evangelho que me levou a assumir até as últimas consequências.
A minha vida nada vale em vista da morte de tantos pais lavradores assassinados, violentados e despejados de suas terras. Deixando mulheres e filhos abandonados, sem carinho, sem pão e sem lar. É hora de se levantar e fazer a diferença! Morro por uma causa justa.”
Mas ele não imaginava que a morte viria tão cedo. Dia 10 de maio de1986 foi assassinado covardemente enquanto subia as escadas do prédio da Mitra Diocesana de Imperatriz, MA, onde funcionava o escritório da CPT Araguaia-Tocantins. Ainda teve forças para entrar no hospital andando.
Padre Josimo era coordenador da Comissão Pastoral da Terra – CPT - no Bico do Papagaio. O pistoleiro Geraldo Rodrigues da Costa efetuou dois disparos com uma pistola de calibre 7,65. Para executar Josimo contou com a participação de Vilson Nunes Cardoso, que até hoje está foragido.
Em 1993, nova denúncia, apontou como mandantes do assassinato de Padre Josimo, Geraldo Paulo Vieira, Adailson Vieira, Osmar Teodoro da Silva, Guiomar Teodoro da Silva, Nazaré Teodoro da Silva e Osvaldino Teodoro da Silva e João Teodoro da Silva. Em 1998 Adailson Vieira, Geraldo Paulo Vieira (pai do Adailson) e Guiomar Teodoro da Silva foram julgados e condenados. Os dois primeiros foram condenados a 19 anos de reclusão e Guiomar, a 14 anos e 3 meses. João Teodoro da Silva faleceu antes de ser levado a julgamento. Geraldo morreu alguns meses depois da sentença. Osmar Teodoro da Silva ficou foragido durante anos, sendo capturado pela polícia somente em 2001, depois de ter sido alvo do programa Linha Direta, na TV Globo. Em setembro de 2003, ele foi condenado, por unanimidade, a 19 anos de reclusão.
Geraldo Rodrigues da Costa, o executor do crime, foi condenado, em 1988, a 18 anos e 6 meses de reclusão. Conseguiu fugir da penitenciária por três vezes, mas, depois da última fuga, nunca mais fora encontrado. Há informações de que faleceu durante fuga após um assalto na cidade de Guarai, TO.
[...] Poderíamos relembrar os versos de Pedro Tierra escritos por ocasião do martírio de Padre Josimo em maio de 1986: Quem é esse menino negro / Que desafia limites? / Apenas um homem. / Sandálias surradas. / Paciência e indignação. / Riso alvo. / Mel noturno. / Sonho irrecusável. / Lutou contra cercas. / Todas as cercas. / As cercas do medo. / As cercas do ódio. / As cercas da terra. / As cercas da fome. / As cercas do corpo. / As cercas do latifúndio.
Diante de tanta fé e de uma teimosia do Reino inexplicável, Josimo sentia-se fortalecido pela experiência de Deus, pois se encontrava dentro do próprio Deus. Com certeza, Josimo fez a experiência de Deus que somente os grandes místicos da humanidade fizeram. Um homem que chega a ponto de saber que terá seu sangue derramado em defesa dos pobres e pela causa do Reino só pode ter tido a experiência concreta do Deus que se fez gente entre os homens e mulheres.
[...] O nome de Padre Josimo está hoje em centenas de Acampamentos de Sem Terra, em centenas de Assentamentos de Reforma Agrária e em centenas de Comunidades Eclesiais de Base. Ele está muito vivo e presente nos corações e na mente de milhões de pessoas que lutam para que a Mãe terra seja libertada das garras do latifúndio e partilhada com milhões de sem-terra através de uma autêntica reforma agrária. [...]
Belo Horizonte, 10 de maio de 2011.
25 anos com padre Josimo Tavares vivendo vida plena.
Frei Gilvander Moreira
(cf. a íntegra do texto: http://www.gilvander.org.br/ )



Seminário Missionario Salesiano 2: Palestra de Juan Botasso, Quito

A MISSÃO NA HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA
Primeira evangelização e desafios de uma nova evangelização

Um tema tão amplo como o que me foi pedido desenvolver, em um tempo tão limitado, não pode ser tratado a não ser de modo muito esquemático e com uma linguagem essencial.
Os Começos
A evangelização da América começou com um grande entusiasmo. Não tanto pela impressão causada pela perda da metade dos países europeus por causa da Reforma Protestante, que ainda não havia começado, mas pelo convencimento de que a América oferecia uma oportunidade única e inesperada para dar origem a um tipo de igreja mais próxima do modelo dos tempos apostólicos. Para as pessoas de espírito mais elevado, a igreja européia tinha chegado a um ponto tal de corrupção que chegava a ser quase irreformável, a começar pela cabeça. São os anos em que a corte papal de Alexandre VI estava completamente mundana. Quando Lutero visitou Roma, no tempo de Leão X, ficou escandalizado (cf. a íntegra do texto no sitio do Cimi: http://www.cimi.org.br/ ).

Missão Salesiana de Mato Grosso - 2011 Bicentenário de Dom Bosco

Programa e Pessoas







Oswaldo Buruwê - Xavante, Sangradouro







O Espírito Santo:
Pai dos pobres e protagonista da Missäao

49ª Assembleia Geral da CNBB: Destaque para a causa indígena


Na coletiva de imprensa,
dom Erwin Kräutler defende os povos
 indígenas do Brasil e o povo de Altamira/PA.


Dom Erwin Kräutler, bispo prelado de Xingu - PA, 
presidente do Cimi
“Luto contra Belo Monte há 30 anos”, disse o bispo da prelazia do Xingu, dom Erwin Kräutler, na coletiva de imprensa, realizada na tarde desta sexta-feira, 6, em Aparecida (SP). Baseados em estudos de renomados professores e de instituições internacionais, o bispo reafirmou a sua opinião contrária à construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, que está sendo erguida no rio Xingu, no estado do Pará. O bispo disse que o atual governo brasileiro não está se preocupando com os povos indígenas e que a sua causa não é levada a sério.

Dom Tomás Balduino,
na origem do Cimi
 Em sua comunicação à Assembleia Geral, poucas horas depois da coletiva, dom Erwin falou da criminalização das lideranças indí-genas: "Outra questão que muito nos preocupa é a prática da criminalização das lideranças dos povos indígenas. A omissão do governo na demarcação das terras e a ação governamental, na implementação de projetos desenvolvimentistas, fez emergir, como efeito até almejado por todos nós, a organização dos povos e comunidades indígenas para fazer avançar os procedimentos de demarcação, bem como, para evitar a construção dos empreendimentos causadores de impactos danosos sobre as suas terras e suas vidas" (cf. a íntegra do pronunciamento: http://www.cimi.org.br/ ).

Eden Magalhães,
secretário do Cimi
 Na coletiva de imprensa, dom Erwin ainda destacou: “Desde 1982, o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), do qual sou presidente, é o braço indigenista da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Graças a Deus estamos lutando pela causa indígena, e a CNBB nos apoia, porque é uma instituição que valoriza a vida”.

Dom Roque Paloschi,
bispo de Roraima
 Dom Erwin Kräutler apresentou também um balaço da situação dos povos indígenas. “Há 182 terras indígenas ameaçadas no Brasil por todos os tipos de atrocidades. 108 povos estão em estado crítico. O projeto de Belo Monte prevê a construção de uma barragem principal no rio Xingu, localizada a 40 km abaixo da cidade de Altamira (PA), da qual sou bispo. Se isso acontecer, 1/3 da cidade ficará embaixo d’água. O Governo precisa nos ouvir”, enfatizou.
O bispo ressaltou que não está sozinho nesta luta. “A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) solicitou oficialmente que o Governo brasileiro suspenda imediatamente o processo de licenciamento e construção do Complexo Hidrelétrico de Belo Monte, citando o potencial prejuízo da construção da obra aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Hoje tenho certeza que Belo Monte dará um prejuízo, não apenas ecológico, humano, social e cultural, como também financeiro”, finalizou dom Erwin Kräutler.
(texto e imagens: http://www.blogdacnbb.com/ )

Acampamento Terra Livre 2011 - 3: Na hospedaria do Planalto não há lugar para os povos indígenas - Voltaremos!

Documento Final
"Pelo Direito à Vida e à Mãe Terra"


Casas, forças, ideais desiguais
5 de maio. Encerramento do Acampamento Terra Livre 2011. Os mais de 700 lideranças indígenas, publicaram um documento (“Pelo Direito à Vida e à Mãe Terra”), no qual afirmam sua preocupação diante do quadro de violação de direitos que se agrava dia a dia sob o olhar omisso do Estado brasileiro: “Diante do Projeto de morte da ofensiva dos interesses do agronegócio, do latifúndio, dos consórcios empresariais, das multinacionais e demais poderes econômicos e políticos sobre as nossas terras e suas riquezas (naturais, hídricas, minerais e da biodiversidade), proclamamos a nossa determinação de defender os nossos direitos, principalmente quanto à vida e à terra e, se preciso for, com a nossa própria vida”.


Voltaremos!
O “projeto de morte” atravessa o pais do norte ao sul. As aldeias Truká, na caatinga pernambucana, sofrem com as obras de transposição do rio São Francisco. Centenas de outras aldeias e comunidades são atingidas pela construção de barragens e hidroelétricas, como a de Belo Monte, abertura de estradas em terras e outras obras, que destroem biomas e desrespeitam direitos constitucionais da população indígena. O “projeto de morte”, segundo o documento, tem seus desdobramentos nos grandes empreendimentos que impactam os territórios indígenas, na omissão nos campos da saúde e educação indígenas, no relaxamento da responsabilidade pela natureza (veja-se as vozes hegemônicas da bancada ruralista na atual discussão do Código Florestal!).


Voltaremos!
Criminalização das lideranças

Sobretudo o desrespeito da legislação indigenista, que se transforma em criminalização de lideranças indígenas, ganhou destaque no documento final: “Que as lutas dos nossos povos pelos seus direitos territoriais não sejam criminalizadas, sendo eles perseguidos e criminalizados na maioria das vezes por agentes do poder público que deveriam exercer a função de proteger e zelar pelos direitos indígenas. Denunciamos a articulação existente entre o judiciário, órgãos de segurança e interesses privados, fazendeiros, sobretudo, para criminalizar líderes indígenas. Em alguns estados as polícias militar, civil e federal, e a força nacional ou são omissas ou são utilizadas para expulsar indígenas das terras retomadas. Os fazendeiros, como no sul da Bahia, formam milícias inclusive com a participação de membros da polícia militar e federal”. Atualmente, afirma o documento, estão 748 indígenas presos. “Lideranças indígenas, mulheres e homens, são assassinados, e os criminosos estão soltos e não são tomadas providências. Reivindicamos que sejam julgados e punidos os mandantes e executores de crimes (assassinatos, esbulho, estupros, torturas) cometidos contra os nossos povos e comunidades”. Por fim, o documento exige: “Que o Ministério Público Federal não ofereça denúncia contra lideranças indígenas, uma vez que não se trata de crimes e sim de uma luta coletiva dos povos indígenas pela demarcação de seus territórios tradicionais e demais direitos coletivos constitucionalmente garantidos. O Ministério Público Federal, omisso em alguns casos, deve ao contrário assistir as comunidades e impetrar Habeas Corpus em favor das lideranças que sofrem o processo de criminalização quando em luta por seus territórios”.



Voltaremos!
 A instância executiva, refém do grande capital e do latifúndio, nega terra e diálogo aos povos indígenas. A classe política, que se diz progressista, opta por recepções “diplomáticas”, sem efeito prático para a vida concreta nas aldeias. As lideranças indígenas voltam às suas bases com uma mensagem: Na hospedaria do Planalto não há lugar para os povos indígenas. O futuro dos povos indígenas depende de sua capacidade de costurar a unidade do movimento indígena, de articular alianças com setores não indígenas da sociedade brasileira, de chamar a atenção da comunidade internacional e de partir para a luta.
(Cf. o Documento Final do ATL na íntegra: http://www.cimi.org.br/ ).

Acampamento Terra Livre 2011 - 2: Ministros não querem ouvir os índios

Indignados, indígenas fecham Esplanada dos Ministérios.
 
Na manhã de hoje, 4 de abril, os participantes do Acampamento Terra Livre 2011 fizeram uma marcha de protesto, passando por vários ministérios e em frente ao Congresso Nacional. Com destaque para os ministérios da Justiça e de Minas e Energia, por causa da temática do Acampamento: os impactos das grandes obras sobre Terras Indígenas e a crescente criminalização dos povos indígenas.
Os Kayapó no Acampamento Terra Livre
Liderados pelo ritmo firme do canto dos Kayapó e pela energia contagiosa dos povos Tupinambá e Pataxó, a passeata avançava num ritmo acelerado sobre a Esplanada dos Ministérios.
O clima começou a mudar em frente ao Ministério da Justiça. As portas ficaram fechadas e os representantes do ministério se recusaram a deixar entrar mais do que alguns representantes do ATL. O que os indígenas recusaram.
Em protesto, os indígenas fecharam a Esplanada por alguns minutos. Depois, a passeata continuou, seguindo para o Ministério de Minas e Energia. Lá, de novo, as portas ficaram fechadas e o máximo que o representante do ministro ofereceu foi a intenção de marcar uma reunião.
Indignados com a falta de boa vontade, por parte dos ministros, os participantes resolveram fechar a Esplanada por 20 minutos, numa pequena demonstração de força do que o movimento indígena seria capaz no país, se o governo insistir em não respeitar os direitos dos povos originários.

Parem os projetos devastadores


Na parada, lideranças de quase todos os povos presentes discursaram sobre as ameaças, as violências, as invasões que suas comunidades estão sofrendo, e sobre a omissão completa por parte do governo, em todos os níveis. Reivindicaram a parada das grandes obras que incidem sobre terras indígenas, o fim da criminalização, a demissão do presidente da Funai e a proteção dos Direitos Indígenas, segundo a Constituição Federal e os Tratados Internacionais dos quais o Brasil é signatário.
Brasília, 4 de maio 2011 - fonte (fotos e texto): www.cimi.org.br

Vozes, denúncias e imagens do VIII Acampamento Terra Livre 2011 - 1



Foto: Cleymenne
            
O Consórcio Norte Energia criou uma série de propagandas enganosas sobre os impactos de Belo Monte na população do Xingu, veiculadas em aeroportos brasileiros. Veja o que realmente irá acontecer:

           
      
 

PRIMEIRO DE MAIO 2011

Acontece
na Esplanada dos Ministérios:




Aconteceu:
no Encontro Nacional 
em Defesa da Terra e da Vida

Fotos: Eden Magalhães
Enquanto a Central Geral dos Trabalhadores do Brasil (CGTB), de São Paulo, realiza sua “comemoração” do Dia do Trabalho com a “força musical” de artistas para todos os gostos, mais de 150 lideranças indígenas, em seu Encontro Nacional, em Luziânia (GO), estão elaborando um diagnóstico preciso da questão indígena no Brasil e na conjuntura econômica e política mundial. O evento teve a assessoria do professor Ariovaldo Umbelino (USP), de Deborah Duprat, vice-procuradora-geral da República e coordenadora da 6ª Câmara do Ministério Público Federal (MPF) e de Raquel Dodge, subprocuradora-geral da República e coordenadora da 2ª Câmara do MPF.
Debora Duprat, Saulo Feitosa,
Raquel Dodge, Babau Tupinambá


Informados sobre seus direitos, os povos indígenas estão preparados para defender seus territórios e sua vida, não a partir de hotéis de luxo ou atraídos por compensações musicais de artistas sertanejos, mas a partir de acomodações embaixo de lonas pretas, no VIII Acampamento Terra Livre, na Esplanada dos Ministérios, de Brasília. A lona preta é expressão de seu sofrimento causado pela negação de seus direitos. Durante o Encontro Nacional ouviu-se em todos os relatos da realidade indígena, que, em consequência dessa negação, as lideranças indígenas são criminalizadas, inúmeras crianças, por causa do descuido da saúde, são vítimas de uma morte prematura, e os territórios indígenas são progressivamente incorporados ao latifúndio da soja e da cana.
Ninawá Hunikut, Acre
Agitando a sua borduna, uma liderança (muito aplaudida) do Xingu chamou a atenção dos demais para o projeto da hidrelétrica Belo Monte: “Podem-nos negar nossos direitos, mas nosso direito à luta, não vão conseguir negar”.

Lutar não foi em vão

Ariovaldo Umbelino, Anibal Cordeiro Campos
Uma dessas muitas histórias de sofrimento, luta e vitória, que se ouviu nesses dias, foi contada por Anibal Cordeiro Campos, 45, pai de três filhos, trabalhador rural, liderança indígena potiguara, da Aldeia Jaraguá, município Rio Tinto/PB. A luta de Anibal libertou a aldeia do estrangulamento pela cana. Desde muitos anos, as usinas de cana-de-açúcar, da região (principalmente, a Japungú e a Miriri), arrendaram ou incorporaram as terras indígenas em seu domínio.

Protesto dos Potiguara
Quando os Potiguara, sob a liderança de Anibal, começaram a reagir contra o cerco da cana, e retomaram as suas terras, os donos das usinas armaram jagunços da região. “Ofereceram 70.000 reais por minha cabeça”, conta Anibal. No dia 22 de março de 2009, dois pistoleiros invadiram a sua casa e, na presença da mulher e de seus filhos, dispararam vários tiros em direção do cacique. Foi atingido por duas balas: uma perfurou seu pulmão; outra ficou alojada em seu maxilar. No hospital de João Pessoa, cerca de 90 km do local do atentado, Anibal foi operado. Revoltados com a brutalidade do espisódio, os Potiguara da aldeia de Jaraguá interditaram a estrada que liga a cidade da Baia da Traição com a BR 101. Depois, a comunidade escondeu Anibal numa casa oferecida pela irmã Juvanete, da Congregação das Irmãs de Santa Dorothéa, que há quatro anos mora na aldeia. Anibal me mostra as marcas que, milagrosamente, quase desapareceram.

Nossa Senhora dos Prazeres
 Na aldeia tem uma capela dedicada à Nossa Senhora dos Prazeres. Uma vez por mês, o padre vem da Bahia para celebrar a Missa. Juvanete e Anibal afirmam, que foi Nossa Senhora dos Prazeres, da qual ambos são fervorosos devotos, salvou o líder indígena. A devoção de Nossa Senhora dos Prazeres é idêntica com a devoção de Nossa Senhora das Sete Alegrias, uma devoção franciscana de Portugal. “Quantas terras vocês retomaram?”, eu pergunto. “Foram sete mil hectares”, responde Anibal. Sem dúvida, Nossa Senhora dos Prazeres é milagrosa e os Potiguara são corajosos.