Eduardo
Hoornaert


Aconselho
vivamente a leitura dessas Circulares, pois cada uma traz alguma surpresa.
Quando menos se espera aparece uma frase absolutamente genial, nos mais
diversos sentidos. Assim, ele escreve: com cardeais é ‘humanamente impossível’
trabalhar (I, 3, 268). Num outro tópico, escreve que citar textos de Isaías é
muito bonito, mas que o povo não entende palavras como Sião, Israel etc. e que
é preciso dizer as coisas com palavras que as pessoas entendem. Faíscas de um
espírito excepcional que aparecem aqui e acolá nas Cartas.

Helder
foi descobrindo que a Arquidiocese possuía, mais em direção ao centro histórico
da cidade, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção das Fronteiras, no limite de
uma estância concedida pelo rei de Portugal em 1656 ao militar mestiço Henrique
Dias, combatente ao lado dos portugueses na guerra contra os holandeses que
resultou na Restauração Pernambucana. O imperador Pedro II visitou o local em
1859 e lhe deu o título de Imperial Capela. A Arquidiocese de Olinda e Recife
recuperou essa capela depois da guerra das confrarias. Mas, em 1968, tudo isso
é passado. A Igreja das Fronteiras serve de capela para uma casa de religiosas
e tem, como todas as capelas, uma sacristia e um ponto de apoio para o capelão.

A leitura
da Cartas Circulares do ano 1968 foi uma surpresa para mim. Que riqueza, quanta
novidade!
As
Circulares do ano 1968 se encontram nos Tomos 1 e 2 do Volume IV. É o ano da
mudança do Palácio dos Manguinhos à sacristia das Fronteiras. Uma mudança que
não só tem consequências para a vida pessoal do bispo, mas também para a vida
da Arquidiocese.
Em termos
pessoais, Helder dispensa o carro particular, o secretário particular, a comida
pronta na hora certa, a cozinheira de Manguinhos. Doravante, seu cardápio é
precário. De manhã, as Irmãs das Fronteiras lhe preparam um café. Ao meio dia,
ele almoça no Colégio das Damas, na Avenida Rui Barbosa, e de noite ele se vira
sozinho. Seu quarto de dormir comporta uma cama e uma cadeira. Ele comenta:
‘moro com dois mortos e um Vivo (Jesus no sacrário) ’. Há uma salinha que para
receber as pessoas e escrever suas Circulares pela noite. Ela comporta uma mesa
redonda, três cadeiras e, no fundo, uma rede cearense estendida. Nas paredes
algumas lembranças de viagens e alguns textos lapidares.

Mas seus
auxiliares não têm voos tão altos. Na realidade, os planos de mudança do bispo
acarretam uma complexa acomodação de prédios. Há também, ao mesmo tempo, a
decisão que toca a vida dos seminaristas. Doravante, o programa é que eles
vivam em ‘pequenas comunidades no meio do povo’. Tudo isso mexe com Manguinhos,
Palácio episcopal colonial em Olinda, Seminário de Olinda, o prédio na Rua do
Jiriquiti, Camaragibe. Enquanto os auxiliares ponderam as reais possibilidades,
Helder continua falando em Casas do Povo. Ele sonha em doar casas para abrigar
pessoas sem teto. Por que manter duas salas de trono no ‘latifúndio’
Manguinhos, enquanto na varanda dormem pessoas sem teto? O bispo fica triste
quanto seus auxiliares se veem na obrigação de arranjar um vigia para controlar
a vida dos que dormem na varanda, ele tem medo que esse vigia chegue a usar
violência e talvez chegue a atirar contra alguém.
2. Dez
dias depois, na Circular 348 (16-17/1/68) se escreve que a equipe central do
seminário já mora ‘nos altos’ (primeiro andar) da Casa do Povo, com alguns
professores, enquanto o Seminário colonial de Olinda vira Centro de Treinamento
de Líderes para o Nordeste II (modelo Eugênio Sales). O que complica tudo é que
Roma não gosta da ideia de seminaristas vivendo ‘no meio do povo’. O Cardeal
Garrone escreve uma carta nesse sentido e manda Monsenhor Pavarello para
Recife, para verificar a situação ‘in loco’. Esse Monsenhor fica bastante tempo
e colhe muitas informações.

4. No dia
14 de março de 1968, às 19 horas, Helder entra na nova casa (p.40). Daqui por
diante, seus percursos diários mudam: de Fronteiras a Manguinhos, de Manguinhos
às Damas (na mesma Avenida, para o almoço), das Damas retorno aos Manguinhos e
no final do expediente de Manguinhos às Fronteiras. Se transporte depende de
táxis, mas na realidade não há taxista que queira cobrar a corrida (p. 52).
Essa informação se repete em 22-23/5/68.
5. Quinze
dias depois, na Circular de 27-28/3/ 68 (IV, 1, 59) vem uma nova prova de que o
bispo gosta na nova casa: no quarto de dormir, a janelinha com ferrolho, que
indica onde fica o Sacrário (onde mora o Vivo), a seteira em cima, que ‘deixa à
vista uma nesga do céu, como uma estrelinha linda’ (mais tarde, ele me aponta
essa seteira e diz: ‘como é fácil lançar uma bomba por aí’), a janela sem
grades que dá para outro jardim, por trás da sala de estar, a mesa redonda,
onde ele pode escrever suas circulares durante as vigílias, as rosas no jardim,
as três garrafas térmicas (chá quente, refresco gelado, água) que as irmãs
deixam prontas, assim como potes de vidro como com biscoitos etc. Enfim, Helder
gosta da nova morada. Isso fica muito claro.

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D. Helder Câmara, ser humano realmete extraordinário, por seu exemplo de despojamento e opção preferencial pelos pobres - e pela vida pautada na pobreza, incomodou muitas pessoas em todos os meios, desde os eclesiásticos, incluindo a vida política.
ResponderExcluirFoi muitíssimo criticado, mas sempre coerente com o Evangelho e o fiel seguimento do Divino Mestre. Que mente brilhante, sensibilidade privilegiada e amor incondicional aos mais lascados! Admirável!