Até hoje, a Igreja com seus silêncios institucionais, não se reconciliou com a vida pública democrática.
Ela tem medo das regras dessa sociedade, que cobra transparência, autenticidade
e participação. Se nessa sociedade dominada por uma paisagem medial secular,
uma autoridade com exigências éticas severas, como a Igreja, comete deslizes, a
vontade de morder é maior que em outros casos. O carro de um membro que
pertence à uma organização com a pretensão de ser uma instituição pobre para os
pobres é diferentemente avaliadoque o Mercedes de um deputado federal ou o
dono de um conglomerado midiático.
Terceira
Parte da palestra:
3. Construção da cultura
do encontro em comunidades e redes

3.1.
Dimensão mística
A pastoral do encontro prioriza o relacionamento
igualitário entre destinatário e emissor de mensagens, porque ambos são agentes
de pastoral e sujeitos da evangelização. Levam em conta a reciprocidade e
reversibilidade entre destinatário e emissor. O sonho do número grande ou até da
totalidade dos destinatários, alimentado pelo mundo digital, é pago com a moeda
da amizade que exige proximidade:


Os pobres representam o ponto de partida, não a totalidade dos sujeitos da pastoral, que são os batizados: “Cada um dos batizados, independentemente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé […] A nova evangelização deve implicar um novo protagonismo de cada um dos batizados” (EG 120). Quem experimentou “o amor de Deus que o salva”, é discípulo-missionário, capaz de proclamar: “Encontramos o Messias” (Jo 1, 41) (EG 120):
A melhor motivação para se decidir a
comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor […]. Por isso, é urgente
recuperar um espírito contemplativo, que nos permita redescobrir, cada dia, que
somos depositários de um bem que humaniza, que ajuda a levar uma vida nova (EG
264).
Dois braços representam a “cultura do
encontro”: a prática no plural das comunidades e o anúncio na comunidade
universal do mundo. Na realidade pastoral ainda não assumimos as tarefas que
emergem desta situação: a vigilância ética e humanitária sobre as novas
tecnologias de comunicação, o ceticismo contra todas as ofertas gratuitas
feitas nas redes e, positivamente, o imperativo da diversificação da pastoral
entre as ramificações da comunicação. Além das questões meramente econômicas
que tratam da geração de lucros, se impõem questões político-culturais ao
debate, por exemplo, a questão entre chaves de comunicação universal, que o
mundo digital oferece, e a questão de comunicação contextual e cultural que
emerge da oralidade.
A roda da “conversão pastoral” deve
girar em torno dos dois eixos da multiplicação universal dos destinatários e
usuários, e da contextualização cultural (encarnação) da mensagem. Trata-se da interação
de dois polos: de uma contextualização universal e de uma universalidade
contextualizada. O preço que a pastoral pagaria pela mera universalização digitalizada
seria o esfriamento das relações humanas, e, pela mera contextualização, o encolhimento
numérico e o encurtamento do horizonte para níveis paroquiais fechados. Não
temos a possibilidade de escolher entre um ou outro em torno dos quais se criariam
grupos de partidários militantes e grupos opostos. Os místicos, como Nicolau de
Cusa, nos falam da coincidência dos opostos, assumida na Evangelii gaudium do Papa Francisco. É possível:

A “unidade multifacetada que gera nova
vida”, e “conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em
contraste” é, desde tempos primordiais, o sonho da universalidade dos místicos.
Romper os contextos sem destruí-los, e caminhar em direção do mistério da
unidade trinitária de Deus – eis o caminho que prepara a recapitulação do cosmo
em Cristo que é a nossa paz. “Desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia
pluriforme” (EG 220), é um caminho lento e árduo. Nesta perspectiva, por ser
desinteressada em poder e lucro, a comunicação universal que acolhe as
diferenças num diálogo produtivo, é possível, além e aquém do mundo
digitalizado. Os místicos diriam: desenterrar Deus que, como Verbo, nos faz
participar de sua ressurreição na vida cotidiana.
3.2.
Dimensão profética
Por acompanhar, assumir e contestar as
grandes tendências da época, a evangelização radicada na cultura do encontro se
inscreve num horizonte místico em busca da unidade na diversidade, e profético.
As “grandes tendências” não levam em conta os destinatários como sujeitos nem
os pobres e as pessoas que vivem nas margens sociais e culturais da época. Os
últimos documentos do magistério latino-americano e universal nos confirmaram
nessa fé: “O encontro com Jesus Cristo através dos pobres é uma dimensão
constitutiva de nossa fé em Jesus Cristo. […]. A mesma união a Jesus Cristo é a
que nos faz amigos dos pobres e solidários com seu destino” (DAp 257).
A comunicação com esses nossos amigos
é uma meta permanente. Ela não flui por causa de barreiras estruturais e
pessoais. A real comunicação aponta sempre para rupturas sistêmicas e conversão
pessoal. Numa sociedade de classe, a comunicação é sistemicamente travada por
grandes desigualdades sociais. Mas, mesmo imaginando estruturas que superaram
as desigualdades, a comunicação está cheia de ruídos por causa de relações
inautênticas de indivíduos alienados. Ruptura e conversão têm dimensões
religiosas, sociais, políticas, éticas, econômicas e escatológicas.
A dimensão profética opõe-se à comunicação universal digitalizada como comunicação descontextualizada e luta contra a integração aos interesses econômicos prometidos pelo mundo digitalizado que é sistêmico. Ao mesmo tempo luta pela presença micro estrutural e manutenção do calor humano nas situações existenciais da vida humana mutilada por ser precedida pelo imperativo da opção pelos pobres.
A pastoral profética é, segundo o
Documento de Aparecida, uma função de sua eclesialidade: a Igreja “é chamada a
ser sacramento de amor, solidariedade e justiça” (DAp 396), e está “convocada a
ser `advogada da justiça e defensora dos pobres´” (DAp 395, cf. DAp 508). “Em
sua missão de advogada da justiça e dos pobres, a Igreja se faz solidária” (DAp
533, cf. DAp 508), assume “a atitude de compaixão e cuidado do Pai, que se
manifesta na ação libertadora de Jesus” (DAp 532).
O anúncio da Boa-Nova aos pobres e sua defesa caracterizam a dimensão pneumatológica da pastoral. O Espírito Santo, que invocamos como Paráclito, é advogado e defensor dos pobres e dos outros. “No irmão, está o prolongamento permanente da encarnação para cada um de nós” (179). Essa verdade lapidar é reforçada com frases como: “absoluta prioridade”, “dimensão constitutiva da missão da Igreja”, “expressão irrenunciável”, “brota inevitavelmente dessa natureza [missionária da Igreja] a caridade efetiva”, “compaixão que compreende, assiste e promove” (179). “O prolongamento permanente da Encarnação” (179, cf. GS 32) tem nomes propositivos: justiça, caridade, solidariedade. “A palavra «solidariedade» significa muito mais do que alguns atos esporádicos de generosidade; supõe a criação de uma nova mentalidade que pense em termos de comunidade” (188). As comunidades são lugares de luta pela “prioridade da vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns” (188). Tudo isso exige de nós uma profunda “conversão pastoral” (DAp 366) para louvar a Deus na humanidade ferida. Precisamos refletir estratégias de um novo paradigma da Igreja universal em contextos, cuja meta e obstáculo a Exortação Evangelii gaudium enfatiza:
Neste tempo em que as redes e demais
instrumentos da comunicação humana alcançaram progressos inauditos, sentimos o
desafio de descobrir e transmitir a «mística» de viver juntos, misturar-nos,
encontrar-nos, dar o braço, apoiar-nos, participar nesta maré um pouco caótica
que pode transformar-se numa verdadeira experiência de fraternidade, numa
caravana solidária, numa peregrinação sagrada. Assim, as maiores possibilidades
de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro e
solidariedade entre todos (EG 87).
“A mística de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos” não é uma mística pré-moderna e tribal de um comunitarismo historicamente caducado, mas uma construção social que permite a convivência pacífica da humanidade em sua diversidade. A “maré um pouco caótica” foi castigada por ventos diferentes que se opõem a essa mística. O termo “comunidade” aponta para realidades sociais contextuais nem sempre intercomunicáveis. “Comunidade” pode apontar para uma comunidade na qual prevalecem códigos fechados ou abertos, para uma comunidade agrária e oral, uma comunidade científica, indígena e indigenista, pré-moderna, pré e pós-industrial. A invenção da escrita, do livro e do computador podem perpassar todas elas.

Se a palavra “encontro” é a
palavra-chave que se tornou conceito pastoral como “cultura do encontro”, então
queremos saber, “como projetar, numa cultura que privilegie o diálogo como
forma de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da
preocupação por uma sociedade justa, capaz de memória e sem exclusões. […]
Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural (EG
239). No início dessa cultura do encontro está o encontro dos encontros com
Deus-Pai e com aquela pessoa que Ele nos enviou por amor, seu filho Jesus
Cristo: “A comunidade missionária experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a
no amor (cf. 1Jo 4,10)” (EG 24).
A busca e descoberta do amor de Deus no
lugar do encontro faz o “assédio espiritual” desnecessário: “As maiores
possibilidades de comunicação traduzir-se-ão em novas oportunidades de encontro
e solidariedade entre todos. […] Fechar-se em si mesmo é provar o veneno amargo
da imanência, e a humanidade perderá com cada opção egoísta que fizermos” (EG
87). A paciência de escutar, de ir ao encontro e servir é muito mais importante
do que a fala normativa e imperativa daquele que quer que o outro assuma suas
convicções.
Na linguagem da geração facebook, nossas
comunidades hoje são communities em
redes, desafiadas pela urgência da caridade de Cristo, a velocidade de aparatos
e pela lentidão do encontra face à face: “Assim como alguns quiseram um Cristo
puramente espiritual, sem carne nem cruz, também se pretendem relações
interpessoais mediadas apenas por sofisticados aparatos, por ecrãs e sistemas
que se podem acender e apagar à vontade (EG 88).

- mobilidade (mística do caminho e ruptura
sistêmica),
- pluralidade (diálogos com o diferente),
- relevância (para os pobres e os outros),
- leveza (física e estrutural),
- visibilidade (sinal que renuncia à totalidade
sem abrir mão de sua missionariedade),
- simplicidade (de doutrinas e da vida),
- conectividade (proximidade universal e
capacidade de articulação).
Com suas
tensões internas, nos convidam
a abraçar o risco do encontro com o
rosto do outro, com a sua presença física que interpela, com o seu sofrimento e
suas reivindicações […]. A verdadeira fé no Filho de Deus feito carne é
inseparável do dom de si mesmo, da pertença à comunidade, do serviço, da
reconciliação com a carne dos outros. Na sua encarnação, o Filho de Deus
convidou-nos à revolução da ternura (EG 88).
Seria uma temeridade ousar adicionar qualquer comentário a esse magnífico texto. Não há o que acrescentar à brilhante exposição do autor, desvendando a Evangelii Gaudium, com grande sensibilidade, perspicácia e inspiração!
ResponderExcluir