Foi
uma experiência de amor; amor que nos remete a nós mesmos, e que nos alimenta
com a possível esperança de um mundo de diferentes que se mirem sem medo ou
ódio.
Voltamos,
hoje, da viagem aos diferentes e humanos Guaranis Kaiowá, em Mato Grosso do
Sul. Viagem de fundo amoroso, sem dúvida, em que pese o amor doer com a dor do
outro e que isso nos remeta à nossa humanidade, tão singela, tão impotente por
vezes. O ódio aos Guaranis está em todo canto por aquele Estado tão cheio de
verde da cana e da soja e do dinheiro. E, com o encanto dos que lutam junto dos
Guaranis seguem a ameaça, a interdição, o assombro.
Emocionante ver os
indígenas nos receberem com rituais e danças e celebrações. Que se espantem
todos os espíritos do mal! Dançamos, pisamos na terra deles, com eles. Ouvimos
e fomos ouvidos. Foi emoção enrolada em emoção. Fizemos um minuto de silêncio,
em meio à mata verde, em círculo, no centro o local onde o Nisio Gomes sangrou
e sangrou. Crianças tão pequenas e nada temerosas, com abraços e risos e danças
também. Muitos líderes falaram, e "porque a justiça não se concretiza se
nós, indígenas, aceitamos a lei do branco"? E nós, juízes, ali, "veneno
e antídoto" a engolir em seco lágrimas insuspeitas.
Conseguimos, estou
certa, nos fazer ver além e através da toga. E foi bom. E o líder Jorge bradou
justiça com a Constituição na mão, e as mulheres fizeram, na história, sua
segunda ATY GUASU (assembleia) para discutir o medo de não terem terra,
alimento, saúde e identidade. Mulheres indígenas com voz. Homens indígenas que
querem voltar a ocupar seu território sagrado e tão vilipendiado. E as
atrocidades se repetem compassadamente.
Nos agradeceram os companheiros brancos,
que lá nos receberam, e nos presentearam com a fala de que, com toda certeza,
nós, juízes brancos, ao irmos até lá "fizemos história na história
deles". Mais lágrimas e legítimas. E foi tocante saber que eles acharam
honroso e importante que juízas e um juiz que lá estiveram se fizeram
acompanhar por familiares, crianças e filhos. E tudo ficou tão familiar, tão
igual, tão brasil profundo de brancos e índios... um alento, para todos, e em
especial para aqueles que lá, guerreiros bravios, lutam em prol da causa
Guarani; lá, em Mato Grosso do Sul, onde juízes decidem os processos de uma
perspectiva tão divorciada da terra e dos humanos valores indígenas, a ponto de
entenderem que quando a prova é apenas a "fala do índio", ainda que
sejam dezenas deles, alega-se "falta de prova" para por fim ao
caso...
Afinal, para esse cego olhar da justiça de branco, palavra de índio não
vale!
Dora
Martins, Juíza da Infância e Juventude.
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