BELO MONTE: O DIÁLOGO QUE NÃO HOUVE

Carta aberta à opinião pública nacional e internacional

Venho mais uma vez manifestar-me publicamente em relação ao projeto do Governo Federal de construir a Usina Hidrelétrica Belo Monte cujas consequências irreversíveis atingirão especialmente os municípios paraenses de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Vitória do Xingu e os povos indígenas da região.

Como Bispo do Xingu e presidente do Cimi, solicitei uma audiência com a Presidente Dilma Rousseff para apresentar-lhe, à viva voz, nossas preocupações, questionamentos e todos os motivos que corroboram nossa posição contra Belo Monte. Lamento profundamente não ter sido recebido.

Diferentemente do que foi solicitado, o Governo me propôs um encontro com o Ministro de Estado da Secretaria Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. No entanto, o Senhor Ministro declarou na última quarta-feira, 16 de março, em Brasília, diante de mais de uma centena de lideranças sociais e eclesiais, participantes de um Simpósio Sobre Mudanças Climáticas que “há no governo uma convicção firmada e fundada que tem que haver Belo Monte, que é possível, que é viável... Então, eu não vou dizer prá Dilma não fazer Belo Monte, porque eu acho que Belo Monte vai ter que ser construída”.

Esse posicionamento evidencia mais uma vez que ao Governo só interessa comunicar-nos as decisões tomadas, negando-nos qualquer diálogo aberto e substancial. Assim, uma reunião com o Ministro de Estado Gilberto Carvalho não faz nenhum sentido, razão pela qual resolvi declinar do convite.

Nestes últimos anos não medimos esforços para estabelecer um canal de diálogo com o Governo brasileiro acerca deste projeto. Infelizmente, constatamos que esse almejado diálogo foi inviabilizado já desde o início. As duas audiências realizadas com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 19 de março e 22 de julho de 2009, não passaram de formalidades. Na segunda audiência, o ex-presidente nos prometeu que os representantes do setor energético, com brevidade, apresentariam uma resposta aos bem fundamentados questionamentos técnicos feitos à obra pelo Dr. Célio Bermann, professor do curso de pós-graduação em energia do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo. Essa resposta nunca foi dada, como também nunca foram levados em conta os argumentos técnicos contidos na Nota Pública do Painel de Especialistas, composto por 40 cientistas, pesquisadores e professores universitários.

Observamos, pelo contrário, na sequência a essas audiências, que técnicos do Ibama reclamaram estar sob pressão política para concluir com maior rapidez os seus pareceres e emitir a Licença Prévia para a construção da usina. Tais pressões políticas são de conhecimento público e motivaram, inclusive, a demissão de diversos diretores e presidentes do órgão ambiental oficial. Em seguida, foi concedida uma "Licença Específica", não prevista na legislação ambiental brasileira, para a instalação do canteiro de obras.

No dia 8 de fevereiro de 2011, povos indígenas, ribeirinhos, pequenos agricultores e representantes de diversas organizações da sociedade realizaram uma manifestação pública em frente ao Palácio do Planalto. Na ocasião, foi entregue um abaixo-assinado contrário à obra, contendo mais de 600 mil assinaturas. Embora houvessem solicitado uma audiência com bastante antecedência, não foram recebidos pela Presidente. Conseguiram apenas entregar ao ministro substituto da Secretaria Geral da Presidência, Rogério Sottili, uma carta em que apontaram uma série de argumentos para justificar o posicionamento contrário à obra. O ministro prometeu mais uma vez o diálogo e considerou a carta "um relato que prezo, talvez um dos mais importantes da minha relação política no Governo (...) vou levar este relato, esta carta, este manifesto de vocês, os reclamos de vocês...". Até o momento, nenhuma resposta!


As quatro audiências - realizadas em Altamira, Brasil Novo, Vitória do Xingu e Belém - não passaram de mero formalismo para chancelar decisões já tomadas pelo Governo e cumprir um protocolo. A maioria da população ameaçada não conseguiu se fazer presente. Pessoas contrárias à obra que conseguiram chegar aos locais das audiências não tiveram oportunidade real de participação e manifestação, devido ao descabido aparato bélico montado pela Polícia.

Até o presente momento, os índios não foram ouvidos. As "oitivas" indígenas não aconteceram. Algumas reuniões foram realizadas com o objetivo de informar os índios sobre a Usina. Os indígenas que fizeram constar em ata sua posição contrária à UHE Belo Monte foram tranquilizados por funcionários da Funai que as "oitivas" seriam realizadas posteriormente. Para surpresa de todos nós, as atas das reuniões informativas foram publicadas pelo Governo de maneira fraudulenta em um documento intitulado "Oitivas Indígenas". Esse fato foi denunciado pelos indígenas que participaram das reuniões. Com base nestas denúncias, peticionamos à Procuradoria Geral da República investigação e tomada de providências cabíveis.

A tese defendida pelo Sr. Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), de que as aldeias indígenas não serão afetadas pela UHE Belo Monte, por não serem inundadas, é mera tentativa de confundir a opinião pública. Ocorrerá justamente o contrário: os habitantes, tanto nas aldeias como na margem do rio, ficarão praticamente sem água, em decorrência da redução do volume hídrico. Ora, esses povos vivem da pesca e da agricultura familiar e utilizam o rio para se locomover. Como chegarão a Altamira para fazer compras ou levar doentes, quando um paredão de 1.620 metros de comprimento e de 93 metros de altura for erguido diante deles?

Julgo fundamental esclarecer que não há nenhum estudo sobre o impacto que sofrerão os municípios à jusante - Senador José Porfírio e Porto de Moz - como também sobre a qualidade da água do reservatório a ser formado. Qual será o futuro de Altamira, com uma população atual de 105 mil habitantes, ao ser transformada numa península margeada por um lago podre e morto? Os atingidos pela barragem de Tucuruí tiveram que abandonar a região por causa de inúmeras pragas de mosquitos e doenças endêmicas. Mas os tecnocratas e políticos que vivem na capital federal simplesmente menosprezam a possibilidade de que o mesmo venha a acontecer em Altamira.

Alertamos a sociedade nacional e internacional que Belo Monte está sendo alicerçada na ilegalidade e na negação de diálogo com as populações atingidas, correndo o risco de ser construída sob o império da força armada, a exemplo do que vem ocorrendo com a Transposição das águas do rio São Francisco no Nordeste do país.

Protesto dos Índios contra
 Belo Monte
 
O Governo Federal, no caso da construção da UHE Belo Monte, será diretamente responsável pela desgraça que desabará sobre a região do Xingu e sobre toda a Amazônia.

Por fim, declaramos que nenhuma “condicionante” será capaz de justificar a UHE Belo Monte. Jamais aceitaremos esse projeto de morte. Continuaremos a apoiar a luta dos povos do Xingu contra a construção desse “monumento à insanidade”.
Brasília, 25 de março de 2011
Dom Erwin Kräutler
Bispo do Xingu e Presidente do Cimi – Conselho Indigenista Missionário

PASTOR, TESTEMUNHA, MÁRTIR

Memória do XXXI. aniversário
do assasinato de Dom Oscar Romero

“Que este corpo imolado e este sangue sacrificado pelos homens nos alimentem, para que, como Cristo, também saibamos dar nosso corpo e nosso sangue no sofrimento e na dor, não por nós mesmos, mas para trazer justiça e paz para o nosso povo”. Poucos segundos depois de ter pronunciado essas palavras, na capela do Hospital da Divina Providencia de San Salvador, em sua homilia, no dia 24 de março de 1980, soou o disparo mortal. Ao preparar pão e vinho para a celebração eucarística, Dom Romero caiu sobre o altar e expirou sua vida no chão. Anoitecer em El Salvador.
No enterro, presença solidária dos pobres e de bispos amigos do mundo inteiro, menos de El Salvador. Dos seis bispos de um país onde todos são vizinhos por causa do seu tamanho de um município (21.042 km ²), na época com uma população de seis milhões, só Msgr. Rivera y Damas estava presente. A opção pelos pobres, pelo povo do campo sem terra, pelos migrantes para as grandes cidades e pelos povos indígenas despejados de suas terras delineava o novo rosto de uma Igreja Povo de Deus, como o Concílio preconizava (Lumen gentium, 9-17). Romero pertenceu a um setor significativo da Igreja latino-americana, que começou a acreditar no Deus dos pobres e em Deus nos pobres.
Em suas homilias dominicais transmitidas pela Rádio, Romero defendeu os pobres, denunciava os assassinatos, desmascarava os mentirosos, rompeu com as forças militares que tramavam a sua morte como articulavam, nove anos mais tarde, a morte dos seis jesuítas e das duas mulheres a serviço da Universidade Católica Salvadorenha. Romero foi nomeado Bispo da Arquidiocese de San Salvador em 3 de fevereiro de 1977. Pelo parlamento inglês, foi indicado como candidato ao Prêmio Nobel da Paz de 1979. “Perdeu” o prêmio de Estocolmo contra Teresa de Calcutá como perdeu a canonização por causa de seu martírio contra Escrivá de Balaguer, o fundador do Opus Dei. Depois de três anos de vida pública, em São Salvador, Oscar Romero foi sacrificado, como o divino mestre.
Os guardas de seu sepulcro na cripta da catedral não impediram a ressurreição de Romero, que vive no coração do povo.
(P.S. 24.3.2011)

A utopia migrante


Meditação pré-pascal

“E aquilo
que nesse momento se revelará aos povos
surpreenderá a todos não por ser exótico,
mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto
quando terá sido o óbvio”.
(Caetano Veloso)

Ilha de Utopia (Tomás Moro)

A utopia é uma migrante de países prósperos a países pobres. Enfeitiçados pelos meios de comunicação, que fazem estimar o opressor, perdoar ao corrupto e desprezar o oprimido, assistimos a um rebaixamento do espírito utópico de um proletariado aburguesado, sindicatos burocratizados e líderes populares incorporados em máquinas administrativas de governos supostamente progressistas. Também as Igrejas se acomodaram no interior do sistema, em troca do reconhecimento de sua liberdade institucional da qual fazem pouco uso. Mas essa acomodação tem seu preço: a corrosão de seu caráter profético.

Mas o vinho novo do Reino não cabe nem acaba nos odres velhos (cf. Mt 9,17) de uma funcionalidade sistêmica. A profecia pode migrar para outros espaços e siglas. O que a Encíclica Pacem in terris, de João XXIII (1963), o Vaticano II (1962-1965) e Medellín (1968) chamaram “sinais do tempo” – a emancipação dos operários, dos países colonizados e das mulheres -, na realidade foram lutas evangélicas abandonadas nas Igrejas. Reapareceram metamorfoseadas no mundo secular, porque em seu berço eclesial não encontraram hospedagem.
Felicidade e dignidade
Podemos distinguir utopias sociais de utopias culturais. As utopias sociais têm seu ponto de gravidade no sistema econômico, visam à felicidade ou ao menos à redução da fome e da miséria. As utopias do direito natural, com seu ponto de gravidade no campo cultural jurídico dos direitos humanos, visam à dignidade, à cabeça erguida e à proteção legal de liberdade. A vida concreta é ameaçada em ambos os campos: pela fome e pelo desprezo ou, como Marx diria, na base e na superestrutura.

Daí emergem tarefas urgentes de transformação: a redistribuição dos bens de acordo com as potencialidades do planeta Terra, o reconhecimento do ”Outro” no horizonte de uma harmonia universal e a participação democrática de todos, sem privilégios de classe. O primado da dignidade humana exige a prioridade dada à libertação econômica. Entre ambos, há uma relação de meios e fins.
Algo falta – Virá que eu vi
Mas, para a utopia que articula felicidade e dignidade falta ainda algo para configurar a plenitude da vida de todos. Afastados fome e desprezo da vida humana, esta ainda está ameaçada pela apropriação privilegiada de alguns. Portanto, o bem viver precisa ser pensado para todos e, ao ser pensado para todos, necessita como terceiro elemento da justiça distributiva e redistributiva.

O terceiro elemento utópico, a justiça, nos faz lembrar, concretamente, daqueles que morreram injustiçados. O horizonte utópico inclui, ao lado de felicidade e dignidade a justiça dos injustiçados, vivos ou mortos. O Messias virá quando houver para todos lugar na mesa. Mas ele virá como memória daqueles que, castigados por fome e desprezo, caíram no túmulo do esquecimento. A justiça para todos é impensável sem a memória e a graça da ressurreição dos mortos.

A história da humanidade mostrou, que o anseio da ressurreição e a vitória sobre a morte reuniu médicos e xamãs, teólogos e filósofos numa batalha que, até hoje, não está vencida nem perdida. Ela está presente em quase todas as culturas e pode alocar-se em imaginários muito diferentes. A partir do tripé – felicidade, dignidade, continuidade da vida –, compreendemos o projeto da vida plena como justiça e esperança perigosa.
(P.S. 15.03.2011)

CF 2011: “A criação geme em dores de parto” e morte


Catástrofe
A causa principal da catástrofe ecológica está no “atual modelo econômico, que privilegia o desmedido afã pela riqueza, acima da vida das pessoas e dos povos e do respeito racional pela natureza” (Documento de Aparecida, 473). Esse modelo “subordina a preservação da natureza ao desenvolvimento econômico, com danos à biodiversidade, com o esgotamento das reservas de água e de outros recursos naturais, com a contaminação do ar e a mudança climática” (DAp 66).

Biodiversidade
Biodiversidade significa, segundo a CF, diversidade biológica, que se formou em três bilhões de anos e abarca 10 milhões de espécies na Terra: ecossistemas, espécies e genes. 
A biodiversidade garante a harmonia ambiental através de três eixos, também chamados “serviços ambientais”:
- equilíbrio do clima,
- qualidade e quantidade de água,

- produção de alimentos.
O inimigo número um da biodiversidade é a monocultura.


Desapego

Sobrevivente de Ishimaki

A vida no planeta exige um novo modelo de desenvolvimento social e aponta para uma ascese pessoal com sua raiz na solidariedade “assumindo com seriedade a virtude da pobreza como estilo de vida sóbrio para ir ao encontro e ajudar a atender às necessidades dos irmãos que vivem na indigência” (DAp 540). O desapego, como exercício de se livrar do desnecessário para que todos possam usufruir o necessário, ultrapassa a esfera do privado e do individual. O desprendimento, em sua forma individual, pode ser compreendido como conversão e ascese, em sua forma comunitária ou sociopolítica, como ruptura e solidariedade.
 (P.S. 13.3.2011)

D. Aldo Mongiano de passagem por S. Paulo

Quarta-feira de Cinzas, 2011. De manhã cedo, o telefone toca. No outro lado estava D. Aldo Mongiano, de 1975 a 1996 Bispo de Roraima, hoje Emérito. Vive numa casa de sua Congregação em Turim. Entre Boa Vista e Roma estava de passagem por S. Paulo. Marcamos um encontro na Casa dos Missionários da Consolata.

Com seus 92 anos, D. Aldo, com boa saúde, radia energia. Acompanha a causa indígena no Brasil com perspicácia. Vi D. Aldo preocupado com o futuro da terra indígena “Raposa Serra do Sol”. “É um sonho realizado, mas a sobrevivência dos índios só está garantida quando se unem na produção e na comercialização de seus produtos.” Na época D. Aldo nos escreveu: “Não estava somente em causa a terra para poder viver em paz, mas a causa de povos que têm uma história, uma cultura própria, identidade, usos e costumes, normas morais e sociais válidas e tão próximos ao Evangelho. (...) A longa luta serviu para dar coragem, iluminar as consciências, tornar os índios pessoas responsáveis e corajosas”.

Fotos: Mario de Carli
“E os Yanomami?”, perguntei. “Ah, você precisa ir lá. Em Roma, às vezes, questionaram a nossa atitude de ainda não batizar os Yanomami. Fiquei calado. Não adianta explicar para alguém que vive tão longe desta realidade. Os antropólogos dizem que os Yanomami vivem no neolítico. Pois bem, Jesus nasceu muito tempo depois do neolítico. Tudo precisa seu tempo.”

D. Aldo, boa travessia! Obrigado pela sua lição e pelos 92 anos de sua vida: “A vida só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu” (Vinícios de Moraes)

[Postagem: 9.03.2011]

Cacique Marcos Verón: réus condenados

Familiares com imagem de Verón

“Os réus Carlos Esteves, Jorge Cristaldo e Estevão Romero são condenados a doze anos e três meses de prisão em regime fechado”. Foram condenados por formação de quadrilha, tortura e sequestro a mão armada. Eram dez horas e oito minutos da noite de 26 de fevereiro de 2011, quando a Juíza Paula Mantovanni declarou encerrado o julgamento. De pé, em silêncio, todos os protagonistas e pequena platéia, foram lentamente se retirando da pequena sala de júri Esplanada no subsolo da Justiça Federal Regional, próximo à avenida Paulista em São Paulo.
O crime

O crime ocorreu em 13 de janeiro de 2003 na Fazenda Brasília do Sul, município de Juti, interior do MS, que se instalou na área reivindicada como Tekoha Takwara por Verón e sua comunidade. Em janeiro de 2003, por dois dias seguidos, a comunidade de Verón foi atacada e agredida por cerca de 30 a 40 homens armados. No dia 12, um veículo dos indígenas com duas mulheres, um rapaz de 14 anos e três crianças de 6, 7 e 11 anos foi perseguido por 8 km, sob tiros. Na madrugada do dia 13, os agressores atacaram o acampamento. Sete índios foram sequestrados, amarrados na carroceria de uma camionete e levados para local distante da fazenda, onde passaram por sessão de tortura. Durante a agressão, um dos filhos de Verón, Ládio, quase foi queimado vivo. A filha dele, Geisabel, grávida de sete meses, foi arrastada pelos cabelos e espancada. Á época do crime, Verón que tinha 73 anos, foi agredido com socos, pontapés e coronhadas de espingarda na cabeça. Ele morreu vítima de traumatismo craniano.

Por fim ao ciclo de violência

O júri, adiado por duas vezes, foi transferido do MS para São Paulo a pedido do Ministério Público Federal (MPF) com o objetivo de garantir a imparcialidade dos jurados e evitar que a decisão sofra influência social e econômica dos envolvidos no crime.

O grupo Kaiowá Guarani, que durante os cinco dias participou desse julgamento, fez um ritual de agradecimento na calçada, pela “vitória parcial”, como explicara o Procurador Marco Antonio Delfino. Pelo MPF, participam do julgamento os procuradores da República Marco Antônio Delfino de Almeida, de Dourados, Rodrigo de Grandis e Marta Pinheiro de Oliveira Sena, de São Paulo, além do procurador regional da República Luiz Carlos dos Santos Gonçalves.

Com o resultado do júri foi claramente identificado como autor das coronhadas que mataram o cacique Verón, Nivaldo, que era o capataz da fazenda e o mandante o fazendeiro Jacinto Honório da Silva Filho. Esses são réus no segundo processo e deverão agora ir a julgamento.

Só o fato do julgamento ter se realizado na cidade de São Paulo, com o máximo de isenção dos jurados, já é uma vitória. Aliás, a defesa manifestou-se inconformada com o desaforamento do julgamento de Dourados para São Paulo. Foi o primeiro caso desse gênero, relacionado aos povos indígenas. Também foi o segundo julgamento de matadores de índios no Mato Grosso do Sul, depois do julgamento dos assassinos de Marçal Tupã’i, no final da década de oitenta.


Comunidade Kaiowá Guarani
depois do julgamento

Para o procurador federal em São Paulo e coordenador da Acusação, Luiz Carlos dos Santos Gonçalves, que com muita sensibilidade sustentou as razões da condenação dos réus, “é preciso por fim ao ciclo de violência no Mato Grosso do Sul, onde as lideranças indígenas continuam sendo assassinadas. Precisamos colocar fim a esse ciclo de sangue e violência. Sem a terra os povos indígenas não conseguem ter um equilíbrio emocional e material, precisamos fazer justiça aos que assassinaram as lideranças Marçal, em 1983, Samuel Martin, em 2001, Julite Lopes, em 2007, Genivaldo, em 2009 e tantos outros. Estamos pedindo Justiça. Justiça e não vingança. Justiça e não impunidade”.

Para Valdelice Verón, filha do cacique, o julgamento representa uma vitória: “Para o povo vai ser um marco. A decisão não vai devolver meu pai para nós, mas vai devolver nossa dignidade enquanto ser humano. A gente vai se sentir realmente cidadão, respeitado pelo Estado Brasileiro e pela Justiça”.

Egon Heck e equipe

São Paulo, fim de fevereiro de 2011

Um ressurgimento imprescindível


Memorandum de professoras e professores de teologia sobre a crise da Igreja Católica na Alemanha com mais de 200 assinaturas [veja o documento em sua íntegra em português].
Se a revolta árabe no Egito começa a atingir o mundo árabe, também a reivindicação dos seis passos concretos para superar a crise da Igreja Católica na Alemanha pode ser relevante para o mundo católico em sua totalidade.


"[...] A orientação, na notícia libertadora bíblica, implica numa relação diferenciada com a sociedade moderna: em alguns aspectos a sociedade se adiantou à Igreja, quando se trata do respeito à liberdade e à responsabilidade do indivíduo; disso a Igreja pode aprender como já ressaltou o Concílio Vaticano II. Noutros aspectos, uma crítica desta sociedade, a partir do espírito do Evangelho, é indispensável; por exemplo, como quando as pessoas são qualificadas apenas em função de sua produção, quando a solidariedade mútua se perde ou a dignidade é pisoteada.
 
De todas as maneiras o anúncio de liberdade do Evangelho é o critério para uma igreja crível, para sua atuação, para a sua conformação social. Os desafios concretos que a Igreja tem que enfrentar não são novos. Entretanto, reformas dirigidas para o futuro não se deixam perceber. Diálogo aberto tem que ser processado nos seguintes campos de ação:


1. Estruturas de participação: Em todas as áreas da vida eclesial a participação dos e das fiéis é pedra de toque para a credibilidade do anúncio libertador do Evangelho. Segundo o antigo princípio do direito: "O que concerne a todos e todas deve ser decidido por todos e todas”, se necessitam mais estruturas sinodais em todos os níveis da Igreja. Os e as fiéis devem participar da escolha dos ministros ordenados importantes (bispo, pároco). O que pode ser decidido localmente deve ser decidido aí. As decisões têm que ser transparentes.

2. Comunidade: Comunidades cristãs devem ser espaços nos quais as pessoas compartilhem bens espirituais e materiais. Atualmente, porém, a vida das comunidades se desfaz facilmente. Sob a pressão da escassez de sacerdotes constroem-se unidades administrativas cada vez maiores –"paróquias XXL”– nas quais já não se pode experimentar proximidade nem pertença. Identidades históricas e redes sociais construídas são abandonadas. Os sacerdotes são consumidos e assim permanecem. Os fiéis se distanciam se não se lhes confia corresponsabilidade em estruturas democráticas de direção de sua comunidade. O ministério eclesial tem que servir à vida das comunidades – não o contrário. A Igreja precisa também de sacerdotes casados e de mulheres no ministério ordenado. 
A festa do povo
  
3. Cultura jurídica: O respeito e o reconhecimento da dignidade e liberdade de cada pessoa se revelam especialmente quando se resolvem os conflitos de uma maneira justa e respeitosa. O direito canônico somente merece esse nome se os e as fiéis realmente puderem reclamar seus direitos. Urge melhorar a proteção dos direitos em nossa Igreja e uma cultura jurídica: um primeiro passo para avançar será a criação de um sistema eclesiástico de justiça administrativa.

4. Liberdade de consciência: O respeito à consciência pessoal significa ter confiança na capacidade de decisão e responsabilidade das pessoas. Promover esta capacidade é também tarefa da Igreja; mas isto não deve se transformar em tutela. Levar isto a sério tem que ver, sobretudo, com a área de decisões relativas à vida pessoal e sobre estilos individuais de vida. A valorização eclesial do casamento e do celibato está fora de questão. Mas isto não implica excluir as pessoas que vivem amor, fidelidade e cuidado mútuo numa relação de parceria com pessoas do mesmo sexo ou aquelas divorciadas e casadas de novo que vivem de maneira responsável.


5. Reconciliação: A solidariedade com os "pecadores” supõe levar a sério o pecado em suas próprias filas. Um rigorismo moralista ególatra não lhe corresponde à Igreja. A Igreja não pode pregar a reconciliação com Deus sem criar, em sua própria atuação, as condições de reconciliação com aqueles e aquelas com as quais ela se fez culpável: seja por violência, por privação de justiça ou por perversão da mensagem libertadora da Bíblia numa moral rigorista sem misericórdia.
6. Celebração: A liturgia vive da participação ativa de todos e todas fiéis. Experiências e expressões do presente têm que ter seu lugar. A liturgia não pode congelar-se no tradicionalismo. A pluralidade cultural enriquece a vida litúrgica e não combina com as tendências de uma unificação centralizadora. Somente quando a celebração da fé envolve as questões concretas da vida é que a mensagem eclesial pode chegar até às pessoas.

[...] Os cristãos e cristãs são chamados pelo Evangelho para olhar para o futuro com ânimo e – respondendo à palavra de Jesus – a caminhar sobre a água como Pedro: "Por que têm tanto medo? Tão pequena é a sua fé?”


11 de fevereiro de 2011

A Igreja autóctone revisitada

Em memória de Dom Samuel Ruiz


“Em nosso continente jamais existiu o que o Concílio chama de `Igreja autóctone´, quer dizer, a encarnação do Evangelho na cultura de um povo a partir do reconhecimento daquilo que há de revelação de Deus nela” (cf. Revista Popoli, junho/julho 2000). Essa declaração do bispo de San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, Dom Samuel Ruiz García, feita no fim de seu mandato ao jornalista Mauro Castagnaro, aponta para um dever não cumprido e um sonho não realizado pelos herdeiros do Vaticano II.


Samuel Ruiz morreu em 24 de janeiro aos 86 anos de idade. Muitos choram a ausência de quem lhes dava voz e vez e que, para escutá-los em sua própria língua, aprendeu quatro idiomas indígenas. Foi sepultado na catedral da diocese que administrava há quarenta anos (1960-2000). “Eu vim para evangelizar os índios, mas terminei evangelizado por eles”, disse certa vez. As comunidades maya de Chiapas sabiam que era seu bispo, o bispo dos pobres, dos marginalizados e dos povos indígenas. Ele viu com seus próprios olhos as costas dos homens indígenas marcadas pelos chicotes dos senhores de engenho. Ele conhecia mulheres indígenas submetidas à “lei da primeira noite”, em que os patrões tiravam a virgindade das jovens mulheres. Depois de passar pelo sangue do cordeiro e a Páscoa do Senhor, a sua estrela brilha no continente latino-americano e se juntou às cinco estrelas mais brilhantes do Cruzeiro do Sul, à de Helder Câmara, Leónidas Proaño, Oscar Romero e ... O leitor já sabe quem será a quinta estrela!

Depois do Vaticano II (1962-1965) e poucos meses antes da II Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, que se realizou em Medellín (1968), Samuel Ruiz participou em Melgar, Colômbia, do primeiro encontro convocado pelo Celam sobre Missões Indígenas na América Latina. Nesse encontro, Dom Samuel ficou impactado pela palestra do antropólogo Gerardo Reichel-Dolmatoff, que mostrou como a evangelização promovida a partir dos parâmetros culturais ocidentais contribuiu para a destruição das culturas nativas. Nunca mais se esqueceu dessa lição.
Ao preparar-se para Medellín, Samuel Ruiz retomou as considerações feitas pelos bispos africanos no Vaticano II. Durante o Concílio, quando ainda ninguém falava de inculturação, os bispos que vieram da África já levantavam a bandeira de uma Igreja descolonizada e culturalmente mais próxima de seus povos.
Nas sete palestras preparatórias que fizeram parte do evento de Medellín, coube a D. Samuel falar sobre “A Evangelização na América Latina”. Introduziu, nessa palestra, uma parte sobre a “Especial situação dos indígenas”, em que afirma serem esses povos marginalizados não apenas pela sociedade, mas também pela Pastoral, que se concentrava até então nos núcleos da população formada por brancos e mestiços. Cuidadosamente afirmava: “Nem sempre se reconhece o direito que os indígenas têm de receber a mensagem em sua própria língua, e muito menos em sua própria mentalidade”. Apontou para a falta de planejamento nas dioceses e o desconhecimento das culturas indígenas. Lamentou a improvisação pastoral sem o objetivo indicado pelo Concílio: de forjar “Igrejas particulares autóctones, devidamente organizadas, enriquecidas também de forças próprias e de maturidade e dotadas de suficiente hierarquia própria unida ao povo fiel” (Ad Gentes, 6). Ruiz não nasceu profeta. Foi um longo processo de conversão. A releitura do Vaticano II, a realidade dos povos indígenas de Chiapas e a colegialidade de Medellín converteram D. Samuel lentamente em profeta de justiça e advogado dos índios.
Seguindo o espírito do Vaticano II e sua contextualização nas conferências de Medellín, Puebla e Santo Domingo, D. Samuel incentivou a tomada de consciência dos atores sociais e pastorais. No retrovisor dos seus 40 anos de presença pastoral em Chiapas, Ruiz explicava naquela entrevista que não houve nenhum diálogo com a cultura do outro na América Latina: 
“Neste momento, em que os indígenas emergem como sujeito de sua própria história, adquire grande importância o fato de que possam encontrar um cristianismo encarnado em suas culturas [...].Isso torna urgente o surgimento de Igrejas autóctones no continente. Esse é o caminho que tomou a nossa diocese. Agora temos 18 mil catequistas indígenas e 502 diáconos indígenas, todos eles casados, exceto dois deles. A Santa Sé está um pouco preocupada por causa desse número elevado, mas ele é fruto de 40 anos de trabalho, e, se em Chicago há 200 diáconos, em nossa diocese faltam ainda muito mais, porque ela é muito extensa” (ibidem).
Samuel Ruiz sofreu incompreensão por parte de setores poderosos do Estado e da Igreja de seu país. Basta mencionar apenas dois nomes com grande prestígio que obstruíram os canais de comunicação com Roma: o então núncio apostólico Girolamo Prigione (1978-1997) e sua atuação política e moral pouco evangélica (cf. National Catholic Reporter, junho 1994), e Marcial Maciel, o padre fundador da Congregação dos Legionários de Cristo (1920-2008), pedófilo, que abusou do seu próprio filho e de jovens legionários. Fatos esses conhecidos há muito tempo, mas só agora investigados.

A Cúria Romana não estava somente “um pouco preocupada” com a Igreja de Chiapas, que promoveu lideranças pastorais indígenas por meio do diaconato permanente. Roma qualificou esse projeto de “ideológico”, quer dizer, político, e o interrompeu. É óbvio que a Igreja autóctone vai reequilibrar as forças entre uma Igreja clerical e uma Igreja laical, entre a Igreja local e a universal, entre uma Igreja indígena e uma Igreja das elites brancas. Pode-se chamar a esse reequilíbrio de uma tarefa evangélica, pastoral, política ou cultural. Não importa o nome. No Vaticano II, a Lumen Gentium (n. 23) parecia ter conseguido o equilíbrio eclesiológico entre Igreja universal e Igreja local, afirmando a cooriginalidade de ambas. Nem a Igreja universal é a soma de todas as Igrejas locais, nem a Igreja local é um fragmento imperfeito da Igreja universal. Esse equilíbrio da “cooriginalidade” de origem e existência entre Igreja universal e Igreja local foi interrompido pela Carta da Congregação para a Doutrina da Fé “Sobre alguns aspectos da Igreja entendida como comunhão”, de 28 de maio de 1992. A Carta afirma que a Igreja universal “é uma realidade ontologicamente e temporalmente prévia a toda Igreja particular singular” (n. 9).

Em 1999, Walter Kasper, ainda bispo da diocese de Rottenburg, desde 2001 cardeal e prefeito do “Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos”, contestou algumas afirmações manifestadas na Carta da Congregação para a Doutrina da Fé, de 1992. A partir da origem da Igreja em Jerusalém, Kasper mostra que desde seu início a Igreja se constituiui “em e de Igrejas locais”. Considera problemática a identificação subjacente entre Igreja universal e Igreja ou Cúria romana. Também questiona expressões que qualificam a Igreja universal como mãe e as Igrejas locais como filiais, porque favorecem o centralismo romano. Finalmente, nega a precedência ontológica e temporal da Igreja universal à Igreja local. Pondera que “a relação entre Igreja local e Igreja universal está fora do eixo”. A controvérsia entre J. Ratzinger, como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e W. Kasper, ambos antigos colegas do magistério universitário, continuou com réplicas e tréplicas. O fato de Kasper ter sido nomeado em 2001 Cardeal e Presidente do “Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos” pode apontar para certo pluralismo na própria Cúria. Para o setor hegemônico dessa Cúria, Chiapas era o campo de aplicação. 
Em Carta de 20 de julho de 2000, a Congregação para o Culto Divino transmitiu ao sucessor de Samuel Ruiz, D. Felipe Arizmendi, o resultado de uma Reunião Interdicasterial, da qual participou também o então Cardeal Joseph Ratzinger. Dizia a Carta: “Não é possível construir um modelo de Igreja particular prevalentemente diaconal, que não esteja conforme a constituição hierárquica da Igreja”. Quanto às ordenações ainda celebradas por Samuel Ruiz e seu coadjutor Raúl Vera López, em 18 de janeiro de 2000, o então Prefeito da Congregação para o Culto Divino, Cardeal Medina Estévez, se baseou num vídeo e assinalou:
“a) que os bispos ordenantes não fizeram uso da casula, como prescrito pela liturgia;

b) que os candidatos foram apresentados por pessoas que não eram sacerdotes;

c) que no rito da ordenação de diáconos é o bispo celebrante principal, e somente ele, quem deve impor as mãos;

d) que a imposição das mãos sobre a cabeça das esposas dos diáconos foi um abuso, que criou confusão e ambiguidade, como se fossem também elas `ordenadas´;

e) no rito da ordenação diaconal, o bispo impõe ambas as mãos sobre a cabeça de cada ordenado, e não uma somente;

f) que à imposição das mãos, não se deve sobrepor nenhum outro rito nem um diálogo;

g) que convém analisar outros `sinais´ utilizados, no propósito de verificar se contêm ou não elementos sincretistas.”

Missa Tridentina

Em seguida, a missiva da Congregação fez a sugestão “de suspender tais ordenações por um período não breve” (SEDOC 34/290, 2002, p 426ss). O novo bispo local compreendeu a “sugestão” como sugestão, não como uma ordem.

O apelo da realidade pastoral indígena falou mais alto que as missivas curiais. Para garantir a presença pastoral entre os indígenas, e na ausência de padres suficientes, o diaconato permanente se ofereceu como a melhor solução. Felipe Arizmendi continuou a ordenar diáconos indígenas permanentes. Em seguida, Dom Felipe recebe não uma “sugestão”, mas uma advertência que lhe transmite o conteúdo de uma nova Reunião Interdicasterial do dia 1º de outubro de 2005. A carta-advertência com data de 26 de outubro e assinada pelo Cardeal Francis Arinze, então prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, analisa a situação pastoral da diocese: “Continua latente na diocese a ideologia que promove a implementação do projeto da Igreja autóctone” de Samuel Ruiz. A dita Reunião Interdicasterial “se pronunciou por uma suspensão de eventuais ordenações de diáconos permanentes até se resolver o problema ideológico de fundo”. 
D. Samuel Ruiz caminhando com o povo
A Igreja autóctone não pode ser um problema ideológico de fundo. Como San Cristóbal de Las Casas mostra, ela é um instrumento eficaz contra o neocolonialismo da sociedade de consumo e exploração e contra a invasão das seitas. Numa entrevista, Arizmendi explica que as características de uma Igreja indígena foram indicadas pelo Concílio Vaticano II: “que esteja encarnada na cultura do povo; que tenha suas raízes na Palavra de Deus, cujas sementes estão presentes em muitas culturas autóctones; que tenha suficientes servidores da própria etnia; que cresça e amadureça, para que também possa servir outras igrejas irmãs” (cf. blog carmadelio, Zenit). Para uns, a Igreja autóctone com suas três colunas: a teologia índia, o ministério indígena e a liturgia inculturada permanece um sonho, para outros, um pesadelo.

Hoje, em 2011, a diocese de San Cristóbal de las Casas tem cerca de 350 diáconos e 85 padres. Em sua missiva, Arinze pede que não se encaminhem mais pedidos de relaxamento dessas proibições, porque a sua negação “faria a Santa Sé parecer intolerante”. Dom Felipe, não sem ironia, agradeceu a “preocupação” da Santa Sé com a diocese de San Cristrobal, “mas temos a obrigação pastoral de fazer com que as inquietudes do nosso povo sejam ouvidas para dialogar e clarear o que corresponde ou não à realidade e de propor soluções às necessidades concretas de nossas igrejas locais”.
Nos últimos anos, Samuel Ruiz vivia em Querétaro, situada a 200 quilômetros ao norte da capital do país. Encontrei D. Samuel em várias ocasiões: numa visita a Chiapas, no aeroporto de Lima, em algumas reuniões de Pastoral Indígena, e, pela última vez, num encontro com ex-alunos no México. Sempre nos falava de sua conversão pelos índios. Seu lema episcopal foi: “Edificar e Plantar”. Aludindo a seu lema, assim terminou sua homilia um ano atrás, no dia 25 de janeiro de 2010, por ocasião de suas bodas de ouro episcopais, na praça da Catedral de Chiapas: “Damos infinitas graças ao Senhor, Trino e Uno, por nos ter feito seus filhos e por nos ter chamado como pastor de sua Igreja, para edificar e plantar seu Reino de justiça, de amor e de paz”. Fazemos nossas as vozes indígenas, no dia do seu enterro, entre lágrimas e esperança: “Samuel vive, la lucha sigue!”
Paulo Suess

Doroti Müller Schwade:

Zeladora do Reino - Missão cumprida

No último sábado, dia 12 de fevereiro, nossa família e amigos se reuniram para colocar a cruz no local onde foi sepultado o corpo de nossa querida mãe Doroti. Como lembrou nosso pai Egydio, Dorô sempre se preocupou em assumir sua cruz, nunca escolhendo os caminhos mais fáceis e sempre buscando ser coerente com sua fé. Foi um momento de oração e agradecimento a Deus pela sua vida, e por ter-nos deixado conviver com está pessoa tão amada e querida por todos nós.
 

A cruz foi construída pelos próprios filhos, entalhada em madeira e decorada com algumas das coisas que ela gostava ou que fizeram parte da sua vida. Assim, a cutia, uma das grandes plantadoras de castanha da floresta, as flores, a panela no fogo e o pé de cará estão lá representados. Também foi escrito, no verso da cruz, o trecho de uma música: “Põe a semente na terra, não será em vão! Não te preocupe a colheita, plantas para o irmão”, que retrata bem sua passagem pelos povos indígenas e Comunidades Eclesiais de Base e, também, sua vida de agricultora no Amazonas. Para lembrança da família que ela formou, foram entalhados o símbolo Inca do matrimônio, composto pelo sol e pela lua, e mais cinco estrelas, que representam seus filhos, mas também a sua orientação para nós filhos e a luz de Cristo, que ela sempre buscou refletir através de suas ações.

Mayá Müller Schwade
cf.
http://www.urubui.blogspot.com/

Curso Base I e II do Cimi


No retrovisor do chargista:
Missionários Fórmula 1
“A formação de missionários e missionárias parte da prática exercida com os povos indígenas. [...] O Cimi criou o Curso de Formação Básica, em que os missionários e as missionárias, que iniciam seus serviços aos povos indígenas, têm a oportunidade de partilhar as suas experiências a partir de diferentes perspectivas: da teologia, da antropologia, da história, do direito e da política indigenista do Estado brasileiro.”
(Plano Pastoral do Cimi, n. 124, 127)

Fim de janeiro de 2011. Terminaram os dois Cursos de Formação Básica do Cimi. Os participantes que vieram das áreas trouxeram diversas perguntas, vontade de acertar e muita alegria jovial.
A realidade da causa indígena está atravessada pelos desafios do capitalismo: acumulação, consumismo e aceleração, acumulação das terras e do capital, consumismo insustentável e aceleração da produção. A análise das práticas missionárias mostrou que nossas bases são afetadas, sobretudo, pela aceleração: pouco tempo para ficar nas áreas e escassas visitas por conta do número reduzido de pessoas nos Regionais do Cimi, além de pouco conhecimento das línguas indígenas. Cunhamos a sigla do “Missionário Fórmula 1” que faz apenas um pequeno pit-stop nas aldeias. O nosso chargista Frei Ulysses, da área dos Mundurucu, Pará, captou a ideia. Fala da própria experiência.

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Missionária relaxada 



Lembretes do Curso Base – 2011 

- A pastoral indígena se situa na contramão do sistema. Por isso, está sempre envolvida em conflitos com a ordem vigente.
- Nossa missão ganha sentido e se torna relevante a partir da capacidade de romper com o sistema que oprime e exclui.

- Nossa pastoral visa transformações estruturais e pessoais que podem acontecer a cada dia.

- O Evangelho é areia na máquina do sistema, não óleo.

- Missão é um processo de libertação e de contemplação.

- A missão é uma opção de vida, não um emprego.

- A utopia não está no fim da caminhada. A utopia se revela no caminho através de novas relações.

- Nossa luta é uma luta pela realização da utopia indígena configurada na utopia do Reino.
- A nossa fé nos faz livres e responsáveis.

- Quebrar tabus em benefícios dos mais fracos faz parte de um processo histórico.

- Não há convivência sem intervenção.

- Plantando dá, não plantando dão?

- As alianças estão prefiguradas na aliança de Deus com a humanidade. As parcerias visam lucro e vantagem. As alianças são com Deus, as parcerias com o diabo. Com aliados temos afinidades ideológicas, com parceiros temos apenas afinidades funcionais.

- Inculturação significa trabalhar com o culturalmente disponível.

- Estar presente na missão de forma inculturada significa deixar as sandálias do lado de fora.

- A maneira de viver a temporalidade é cultural. Convivemos com tempos diferentes. Precisamos descobrir e reconhecer o tempo do outro.

- Cada pessoa constrói sua cultura a partir de seu nascimento. Permanecemos a vida inteira seres em construção.

- Toda religião tem suas contradições.

- A vida é um eterno convite a viver contradições. As trevas podem se tornar uma porta para o conhecimento, a luz e o crescimento.

- Nossa ação missionária visa a gratuidade.

- Reafirmar nosso compromisso com os Povos Indígenas significa respeitar sua alteridade e autonomia.

- Nós somos assessores dos Povos Indígenas, não seus protagonistas.

- São os índios que nos resgatam e não somos nós que resgatamos os índios.
Paulo Suess - 30/01/11