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Os paradigmas do Papa Francisco: Missionariedade, Marginalidade, Sinodalidade


A missão de caminhar juntos para a periferia

Paulo Suess


     Os paradigmas com suas dimensões eclesiológicas, pastorais e teológicas, que se revelam cada vez com mais clareza como estruturantes do pensamento do Papa Francisco, são os seguintes:

Caminhar juntos: Refugiados em Lesbos
- missionariedade como núcleo da Igreja evangelizadora em saída;

- marginalidade da periferia existencial e geográfica como lugar teológico do encontro com marginalizados e marginais, fugitivos e refugiados, pobres e feridos, excluídos e não reconhecidos;

- sinodalidade, misericórdia e alegria como modos de operação entre saída da acomodação e chegada, permanência e vida partilhada nas periferias.

       
A teologia de Francisco não se resume num almanaque de imperativos pastorais desconexos que precisam ser vigiados pelo Prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé. Trata-se de uma teologia trinitária e profética, pastoral e espiritualmente orientada. A Trindade pode ser compreendida como mandala da fé e de Deus. Essa mandala integra o múltiplo e o diferente na unidade do Espírito Santo: A horizontalidade universal do Pai, a verticalidade do Filho encarnado e a circularidade do Espírito Santo, enviado para dobrar a rigidez do centro, consolar os que sofrem, defender os pobres e os que o mundo não reconhece em sua dignidade.
       
O Pai, que é amor, é também o protomissionário que envia. Ele é o início e o fim da missão. O Filho, que é caminho, convoca e envia a comunidade missionária que no Concílio dos Apóstolos em Jerusalém encontrou na sinodalidade um modus operandi (cf. At 15). O Espírito Santo, que antecipa com sua presença a chegada dos discípulos missionários, é “descanso na luta, brisa no calor, conforto no pranto” (cf. Sequência de Pentecostes). Nas margens da periferia, Deus torna-se Pai dos pobres no Espírito Santo. Deus-amor forja o caminhar juntos, o caminho misericordioso e alegre da sinodalidade no Espírito. A periferia é o lugar do nada e do tudo, o despojamento radical e a plenitude. É o lugar onde Deus coloca seu berço humano e sua cruz divina. A periferia, que é limite geográfico-histórico e existencial, é também lugar de passagem, ou pelo portal da morte e do retorno à acomodação ou pelo portal da vida histórica e escatológica que se revela na fidelidade da resistência.


1. A missão
       
 A missão é ordem e obra do amor de Deus. Ele nos amou primeiro (1Jo 4,19). E nesse amor ele nos deu a ordem de sair de qualquer tipo de instalação. “Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída»” (EG 20), que nos lembra a Evangelii gaudium. “Abraão aceitou o chamado para partir rumo a uma nova terra [cf. Gn 12,1-3]. Moisés ouviu o chamado de Deus: «Vai; Eu te envio» [Ex 3,10], e fez sair o povo para a terra prometida [cf. Ex 3,17]. A Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» [Jr 1,7]. Naquele «ide» de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária” (EG 20).


        Qual é a finalidade dessa saída? A EG aponta para uma metodologia com quatro pilares de uma pastoral em chave missionária (EG 33ss):

a) Abandonar o cômodo critério pastoral, seu imobilismo e tradicionalismo: “fez-se sempre assim” (EG 33).

b) “Ouvir a todos” (EG 31). Faz parte de um “processo participativo” que promove “uma comunhão dinâmica, aberta, missionária” (EG 31) e sinodal.

c) “Saída de si próprio para o irmão” (EG 179). A Igreja em saída é uma Igreja despojada com as portas abertas (cf. EG 46). No outro “está o prolongamento permanente da Encarnação para cada um de nós” (EG 179). A “resposta à doação absolutamente gratuita de Deus” (EG 179) é a saída de si como “absoluta prioridade” da vida cristã. “A vida se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão” (EG 10).

d) Concentrar-se “no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário” (EG 35). “As elaborações conceituais hão de favorecer o contato com a realidade que pretendem explicar, e não nos afastar dela” (EG 194).

        Como operacionalizar essa saída? “Sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias”? (EG 20). A Igreja “em saída” encontra obstáculos. A saída exige “prudência e audácia” (EG 47), “coragem” (EG 33, 167, 194) e “ousadia” (EG 85, 129). O modelo dessa missionariedade é a itinerância do próprio Jesus.

        Quem se propõe a “ser o fermento de Deus no meio da humanidade” (EG 114) está sempre em busca de “respostas que encorajem, deem esperança e novo vigor para o caminho” (ibid.) do povo de Deus. Essa Igreja cumpre a sua missão quando se torna “o lugar da misericórdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho” (EG 114).

        Os verbos preferenciais de Francisco, para caracterizar a visão de uma Igreja, que é por sua natureza missionária (AG 2, DAp 347), são: abrir, sair, caminhar, converter (transformar), priorizar, despojar e diversificar na unidade do Espírito Santo. Enfim, a missão tem sua raiz e seu fim não na propaganda nem nas múltiplas atividades nossas, mas na atração do Deus trino e uno que se encarnou em nosso meio: “Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim” (Jo 12,32).


2. A margem
        
Lugar de atuação e horizonte da “Igreja em saída” são as periferias. Ser Igreja em saída para as margens não é natural, é opção que “deriva da nossa fé em Cristo, que Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados” (EG 186). As periferias, que são lugares de encontro com os marginalizados e os marginais, os fugitivos e os refugiados, com os desesperados e os excluídos, são também lugares do encontro com Deus, que no presépio se fez pequeno; no Egito se fez um refugiado; no monte das oliveiras, um desesperado; no tribunal da época, um acusado; na cruz, um condenado à morte e, aparentemente, um abandonado por Deus e pela humanidade.



      Pela encarnação, Deus tem experiência com as periferias existenciais e geográficas. Além do sacrário, a periferia é o lugar seguro do encontro com esse Deus anônimo, escondido e fiel. Se a Evangelii gaudium nos diz: “Todos somos convidados a aceitar este chamado: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (EG 20), não quer dizer que as periferias são lugares das trevas. O sofrimento, o abandono e o pecado podem obscurecer nosso tempo de vida e aprofundar nossa solidão. Mas, é tarefa da missão mostrar que a luta pela vida é a luta pela glória de Deus que irrompe nas trevas históricas, na audácia do líder tupinambá Babau, na gratuidade da vida da Irmã Dorothy Stang, na solidariedade dos mártires da UCA de El Salvador, na fidelidade dos sete mártires de Tibhirine, na Argélia. Todos eles, que vieram da grande aflição das periferias, souberam viver “a afetividade irmanada com a racionalidade da luta; a eficácia na loucura da gratuidade” (Plano Pastoral do Cimi, n. 86) tentando construir um mundo para todos. Eles não precisam de holofotes nem da propaganda midiática, “não precisam de sol nem de lua para sua iluminação, pois a glória de Deus é a sua luz e a sua lâmpada é o Cordeiro” (Ap 21,23).

        Visando a vida para todos, Francisco pode generalizar: “No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo «Se fez pobre» (2Cor 8,9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres” (EG 197). Ouvir o clamor dos pobres não é um mérito especial, mas expressão da nossa fé na presença de Deus e expressão da nossa indignação contra aqueles que tentam apagar essa glória de Deus no meio dos marginalizados.

        Nesse contexto, o Papa Francisco cita longamente os Bispos do Brasil: “Desejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperanças, as angústias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das populações das periferias urbanas e das zonas rurais – sem terra, sem teto, sem pão, sem saúde – lesadas em seus direitos. [...] Escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve à má repartição dos bens e da renda” (EG 191).

        Esse privilégio da periferia não seria uma quebra do princípio evangélico da igualdade? O papa responde com clareza: “Quando se lê o Evangelho, encontramos uma orientação muito clara: não tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, àqueles que muitas vezes são desprezados e esquecidos, «àqueles que não têm com que te retribuir» (Lc 14, 14). [...] Hoje e sempre, «os pobres são os destinatários privilegiados do Evangelho», e a evangelização dirigida gratuitamente a eles é sinal do Reino que Jesus veio trazer. Há que afirmar sem rodeios que existe um vínculo indissolúvel entre a nossa fé e os pobres. Não os deixemos jamais sozinhos! (EG 48). Este vínculo entre a fé e os pobres “tem consequências na vida de fé de todos os cristãos [...] Inspirada por tal preferência, a Igreja fez uma opção pelos pobres” (EG 198). E essa é a opção da Igreja povo de Deus. Não se trata de preferências setoriais ou individualistas. Priorizar as periferias e preocupar-se com elas são tarefas da Igreja como comunidade missionária e de seu caminhar na unidade e diversidade do Espírito Santo.


3. O Sínodo

        
Desde o início de seu pontificado, o Papa Francisco sublinhou a importância do Sínodo como atualização do espírito da sinodalidade e colegialidade. Em sua entrevista programática com o padre Antonio Spadaro, SJ, de agosto de 2013, na Casa Santa Marta, Francisco falou de sua visão da sinodalidade: “Devemos caminhar juntos [...]. A sinodalidade vive-se em vários níveis. Talvez seja tempo de mudar a metodologia do sínodo, porque a atual parece-me estática. [...] Nas relações ecumênicas, isto é importante: não só conhecer-se melhor, mas também reconhecer o que o Espírito semeou nos outros como um dom também para nós” (SPADARO, Entrevista, Paulus/Loyola, 2013, p. 24). Perguntado sobre sua visão da unidade, Francisco respondeu: “Devemos caminhar unidos nas diferenças. Não há outro caminho para nos unirmos. Este é o caminho de Jesus” (ibid.). Por isso, deve-se tornar os sínodos “menos rígidos na forma. [...] Quero que seja uma consulta real, não formal” (ibid., p. 16). “Pouco temos avançado neste sentido. Também o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam ouvir esse apelo a uma conversão pastoral. [...] Uma centralização excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e sua dinâmica missionária” (EG 32).

 Em seu discurso por ocasião da comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, dia 17 de outubro de 2015, o Papa Francisco qualificou o Sínodo como “um dos legados mais preciosos da última sessão conciliar. [...] O caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milênio” (Discurso, www.vatican.va /17.10.2015, p. 2). “Igreja sinodal” é um pleonasmo, porque, segundo João Crisóstomo (+407), “Igreja e Sínodo são sinônimos” (ibid. p. 4). O papa dá nesse discurso uma verdadeira aula sobre a função da sinodalidade na Igreja. “Estou convencido de que, numa Igreja sinodal, também o exercício do primado petrino poderá receber maior luz. O Papa não está, sozinho, acima da Igreja; mas, dentro dela, como batizado entre batizados” (Discurso, l.c. p. 6).

      
  Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta. O Papa Francisco pratica essa escuta ao citar como fontes de seus escritos muitas Igrejas locais e também o magistério científico dos teólogos. “É uma escuta recíproca, onde cada um tem algo a aprender”. A sinodalidade é vivida por sujeitos ativos de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações. O sensus fidei impede uma rígida separação entre Ecclesia docens e Ecclesia discens” (Discurso, l.c., p. 2). Para os discípulos de Jesus “a única autoridade é a autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz” (ibid. p. 4.). E essa autoridade do serviço se realiza nos três níveis de uma “Igreja toda sinodal” (ibid., p. 5): nas Igrejas particulares, nas Conferências Episcopais e na Igreja universal, ou dito de modo mais simples: nas comunidades e paróquias, nas dioceses e no Vaticano.

        Como se pode perceber, a sinodalidade toca hoje em pontos nevrálgicos da Igreja católica: ministerialidade, colegialidade, ecumenismo, magistério partilhado, autoridade como serviço, exercício do papado e de sua conversão (Discurso, l.c., p. 6). A sinodalidade tem um grande valor para a Igreja e o mundo, pois, apesar de invocar participação, solidariedade e transparência na administração dos assuntos públicos, frequentemente entrega o destino de populações inteiras nas mãos gananciosas de grupos restritos de poder. [...] Cultivamos o sonho de que a redescoberta da dignidade inviolável dos povos e da função de serviço da autoridade poderão ajudar também a sociedade civil a edificar-se na justiça e na fraternidade” (ibid., p. 6).

        A “redescoberta” aponta para práticas, hoje, esquecidas. O “sonho” alimenta a esperança na possibilidade de um projeto do bem viver para todos. A força de suscitar essa memória e prática da dignidade inviolável, e de sustentar esse desejo do bem viver está em cada um de nós. Está no reconhecimento dos outros em sua alteridade, na opção de amá-los em sua pobreza e na disposição de resistir com eles contra as múltiplas ofertas de uma vida alienada.


Amoris laetitia: Sobre o Amor na Família segundo o Papa Francisco


Processo e preço da sinodalidade

Um primeiro olhar sobre a “Exortação Apostólica
Pós-Sinodal do Papa Francisco”



  Através de três palavras-chave da “Exortação Amoris laetitia” do Papa Francisco pode-se traçar um caminho que atravessa a generosa selva de 60 mil palavras de seu texto: sinodalidade, subsidiariedade e discernimento. Cada uma dessas palavras aponta para avanços e riscos que Francisco procura contornar com autores que servem como avalistas da legitimidade de seu texto, da continuidade de seu pensamento e da contemporaneidade do magistério eclesial a serviço do povo de Deus. Ao mesmo tempo abre frestas pelas quais entram raios de luz que permitem retratar o andar eclesial em câmera lenta.

        Na sinodalidade, com seus dois braços da colegialidade dos bispos e da participação das Igrejas locais, o papa reinterpreta seu primado entre iguais e abre mão da centralização e da solidão decisória do poder eclesiástico.

        A subsidiariedade reconhece o sopro do Espírito Santo nas Igrejas locais. O Papa Francisco procura delegar a solução de muitas “discussões doutrinais, morais ou pastorais” (AL 3), sem prejuízo à unidade da Igreja, aos lugares onde surgiram, sem intervenções tutelares permanentes do magistério. Atrás da subsidiariedade está o sonho de uma Igreja local adulta que caminha na unidade do Espírito Santo, portanto, de uma Igreja articulada no plural de suas culturas e dons.

        No discernimento – discernimento/discernir aparecem 40 vezes no texto -, como terceiro eixo, se expressa a vontade da mediação e harmonização das tensões entre normas gerais que pretendem garantir a unidade, e vivências contextuais e práticas não só na diversidade dos cinco continentes, mas também numa ética situacional que tem um olhar para as particularidades e a concretude de cada situação.

        Com esse triângulo entre sinodalidade, subsidiariedade e discernimento, com sua preferência para uma teologia indutiva, o papa retoma com novo vigor inspirações fundamentais do Vaticano II, que nesses 50 anos pós-conciliares apenas tibiamente foram assumidas. É claro que a partilha do poder, a diversificação da monocultura eclesiástica e a flexibilização de uma normatividade rígida com padrões éticos e rituais que não levam em conta a idiossincrasia das regiões e das pessoas, tem seu preço para manter equilíbrios internos. Aqui e acolá, o leitor da Amoris laetitia sente que, em nome da unidade do caminhar juntos, o Papa Francisco foi obrigado a sacrificar sua própria radicalidade evangélica.

        Mas o mundo não contemplado corretamente nessa Exortação, os chamados casos “irregulares” (casamento em segunda união, o casamento homoafetivo, a coabitação fora do casamento), não está disposto a vestir um sambenito para ser sacrificado pela manutenção de equilíbrios internos da Igreja na fogueira do mal menor. Ou vai engrossar a fila do êxodo eclesial ou vai dar seu jeito na catolicidade engessada, captando a essência do Evangelho, o perdão recíproco, a gratuidade e a esperança, não sem pedir o consentimento de Deus e trocar um piscar de olhos com o irmão Francisco.

[Esse texto é a introdução a um texto mais amplo que seguirá posteriormente]


Paulo Suess

O Sínodo: Amor nos Tempos da Transição

Missão na construção da Família

O tema da 14ª Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos versava sobre “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”. Quem não se lembra do lema da CF/1994: “A família como vai” e o seu objetivo geral: “Redescobrir os valores da família: Lugar de encontro, espaço de vivência humana, ponto de partida de um mundo mais humano e de acordo com o Plano de Deus. E a mesma CF se propôs “colaborar na criação de condições sociais e políticas objetivas para que a família possa realizar sua missão. Finalmente, pondo em prática o mandamento do amor fraterno, a CF quer nos ajudar a olhar com confiança para um amanhã novo da família, que já pode ser descortinado”.
Como mudou o espírito da época nesses 20 anos! A vulnerabilidade da família está muito mais exposta, as respostas são mescladas com maiores incertezas e ninguém diria que “a nova família já pode ser descortinada”. A tentativa de conseguir através do Sínodo uma ligação realista com o mundo, como ele é, parece ter fracassada. Escuta-se vozes resignadas das bases eclesiais: “Está tudo como dantes no quartel d’Abrantes”.

Contudo, não faltam elementos positivos no conjunto do evento sinodal. As discussões na aula sinodal, de 4 a 25 de outubro de 2015, eram consequência de uma nova metodologia de total liberdade no uso da palavra. Liberdade exige responsabilidade a serviço da causa maior e não para enfraquecer pessoas ou setores. Nem sempre a liberdade se apresentou com sua irmã gêmea, a responsabilidade, como mostrou o vazamento da “Carta dos 13 cardeais” ao papa, insatisfeitos com os encaminhamentos pré-sinodais, a invenção de um tumor cerebral de Francisco, e a publicação de documentos secretos sobre a administração financeira do Vaticano – tudo arrolado com a clara intenção de enfraquecer a autoridade do papa. A Santa Sé mostrou a improcedência das reclamações metodológicas, desmentiu o suposto “tumor” e investigou a deslealdade dos “dignitários” indignos.

O desafio do sínodo foi a desconexão entre a realidade sociocultural, na qual o matrimônio hoje é vivido, e a doutrina definida no decorrer de uma história de dois milênios. Até há pouco tempo, o esforço da Igreja concentrou-se, sem sucesso, na mudança dessa realidade. Hoje sabe-se, que essa mudança necessita também a reconstrução da doutrina que emergiu para responder a desafios de outros tempos. Nesse ponto havia grandes divergências entre os 265 participantes sinodais. Diante das questões trazidas das bases através de um questionário e o resultado contido no Documento Final, as aproximações entre pastoralistas e canonistas foram pequenas. Mudanças doutrinárias, por muito tempo cristalizadas, são mudanças culturais de longo prazo. Sob a liderança firme do Papa Francisco, o sínodo mostrou o horizonte de um caminho que a Igreja tem pela frente para um reencontro com a realidade vivida pelos casais de hoje.


Discernimento, sinodalidade e descentralização

O papa saiu dessas tribulações de cabeça erguida e o avanço nas discussões sinodais pode ser resumido com três fios condutores entrelaçados: discernimento, sinodalidade e descentralização. O discernimento é uma herança da espiritualidade inaciana, que o papa trouxe de sua formação jesuítica. A sinodalidade representa uma retomada da proposta original do Vaticano II que queria o sínodo como uma espécie de concílio permanente e como complementação do poder solitário do primado. A descentralização é uma consequência de ambos, do discernimento e da sinodalidade, e corresponde ao princípio da subsidiariedade que valoriza os conhecimentos e respeita as decisões da Igreja local através das diferentes Conferências Episcopais e das comunidades que estruturam o povo de Deus.

Vaticano II em chave de misericórdia

Para fundamentar o andamento do sínodo nos tempos de transição, o Papa Francisco proclamou, no dia 11 de abril de 2015, um Ano Santo da Misericórdia (cf. Misericordiae vultus/MV), 3), que se inicia no dia 8 de dezembro, na solenidade da Imaculada Conceição, festa da misericórdia divina. Na data se comemora o cinquentenário da conclusão do Vaticano II: “Derrubadas as muralhas que, por demasiado tempo tinham encerrado a Igreja numa cidadela privilegiada, chegara o tempo de anunciar o Evangelho de maneira nova” (MV 4). Quem não escutaria nesta memória da vocação do Concílio um suspiro de Francisco e um imperativo para que o Sínodo sobre a Família derrube também as muralhas que impedem avanços na pastoral familiar! O Ano Jubilar terminará na festa de Cristo Rei do Universo, em 20 de novembro de 2016. E o papa resume: “Quanto desejo que os anos futuros sejam permeados de misericórdia para ir ao encontro de todas as pessoas” (MV 5). E Francisco acrescenta: a misericórdia divina é “de modo algum, um sinal de fraqueza, mas antes a qualidade da onipotência de Deus” (MV 6).

O significado do Sínodo

Por ocasião do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, no dia 17 de outubro, o Papa Francisco sublinhou a importância do sínodo “que constitui um dos legados mais preciosos da última sessão conciliar” (Discurso, 17.10.2015). O sínodo devia refletir o espírito e o método do Vaticano II que consiste em caminhar juntos – “leigos, pastores, Bispo de Roma” (ibid.). O papa confirma a infalibilidade do Povo de Deus no ato da fé (cf; LG 10 e 12; EG 119): “Cada um dos batizados, independente da própria função na Igreja e do grau de instrução da sua fé, é um sujeito ativo de evangelização, e seria inapropriado pensar num esquema de evangelização realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ações” (EG 120). O faro da fé (sensus fidei) “impede uma rígida separação entre ecclesia docens e ecclesia discens, já que também o rebanho possui a sua `intuição´ para discernir as novas estradas que o Senhor revela à Igreja” (Discurso, 17.10.).

“Uma Igreja sinodal é uma Igreja da escuta [...], onde cada um tem algo a aprender [...]; e todos à escuta do Espírito Santo” (ibid.). E Francisco menciona um princípio da Igreja do primeiro milênio: “O que se refere a todos, de todos deve ser tratado” (ibid.). A sinodalidade é uma dimensão constitutiva da Igreja que oferece a chave de interpretação para a compreensão do próprio ministério hierárquico: “Ninguém pode ser elevado acima dos outros. Pelo contrário, [...] como numa pirâmide invertida, o vértice encontra-se abaixo da base”. Autoridade é “autoridade do serviço, o único poder é o poder da cruz” (ibid.).

O Documento Final

Depois de três semanas de reuniões, no último dia do Sínodo, 24 de outubro, foi apresentado o Documento final do evento que tem 94 parágrafos, todos aprovados, pela maioria necessária de dois terços. No caso dos divorciados recasados, o documento propõe que cada bispo analise individualmente, caso a caso, para decidir se autoriza a comunhão integral a um católico divorciado que voltou a se casar e dá sinais de conversão (cf. § 84). O texto insiste que os divorciados “deveriam evitar toda e qualquer ocasião de escândalo”, o que é pastoralmente plausível. Em todas essas questões, “discernimento” e “consciência” adulta se tornaram palavras-chave. A Igreja tem o dever de acompanhar a família ferida.

A partir de uma tradição do Direito Canônico, focada na procriação e não no amor, a homossexualidade continua como tabu. O texto afirma a posição de que os homossexuais não podem ser discriminados, mas que não há qualquer fundamento para o casamento de pessoas do mesmo sexo. O Sínodo não chamou de amor a afetividade vivida entre pessoas do mesmo sexo, mas admite que, entre as pessoas unidas pelo casamento civil e nas coabitações não sacramentais, pode haver "aqueles sinais de amor que propriamente correspondem ao reflexo do amor de Deus". Pastoralmente precisaria se pensar em formas, ritos e bênçãos com o valor de um sacramental sem serem sacramento para que a afirmação da não discriminação seja não apenas uma palavra vazia. O sínodo não dá esse passo. Na rejeição da “ideologia do gênero”, que é uma filosofia que considera os dois sexos, o masculino e o feminino, construções culturais e sociais, havia um consenso geral na aula do Sínodo.

Discurso programático no final do Sínodo



Em seu discurso final, no dia 24 de outubro, o papa agradeceu os trabalhos feitos, criticou a “hermenêutica conspiradora” e “ a perspectiva fechada”, e lembrou princípios que ele considera importantes para o futuro da Igreja:

- não repetir o que é indiscutível ou que já foi dito;
- abordar os desafios da família sob a luz da fé, sem esconder a cabeça na areia;
- compreender a família e o matrimônio entre homem e mulher, fundado sobre a unidade e a indissolubilidade;
- afirmar que a Igreja é Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão e não apenas dos justos e dos santos;
- evitar uma linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível;
- não defender a letra, mas as pessoas, nem as fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão;
- não aplicar condenações, mas proclamar a misericórdia de Deus.
Enfim, conclui o papa, experimentamos “a ação do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista do Sínodo”. Assumir a sinodalidade significa “caminhar juntos” com toda a humanidade (namorados, noivos, casados, divorciados e homoafetivos – com santos e pecadores), porque todos os seres humanos são amados por Deus, todos são resgatados por Jesus Cristo e iluminados pelo Espírito.
Paulo Suess,

[versão abreviada do texto apresentado no Comina – 30.10.2015]