.jpg)
Reportagem: Míriam Leitão - Fotos: Sebastião Salgado
Sobreviver com coragem
Considerados um dos últimos povos caçadores e coletores do
planeta, os poucos mais de 400 Awá que povoam o que restou da Floresta
Amazônica no Maranhão vivem o momento mais decisivo de sua sobrevivência:
impedir que grileiros, posseiros e madeireiros destruam o seu mais valioso bem.
É das árvores e da mata densa situadas na Reserva Biológica do Gurupi, de onde
tiram o seu alimento, a sua certeza de amanhã poderem garantir a continuação de
seu povo, de sua gente. Eles não querem nada mais do que a garantia do governo
federal de que não terão o seu terrítório devastado pela ganância do homem
branco, que avança a passos largos em busca de madeira nobre.
Apesar de sua terra já estar demarcada, homologada e
registrada com 116.582 hectares pela União, eles enfrentam uma ameaça real de
assistir à destruição da floresta da qual são tão dependentes e de onde tiram o
sustento de seus filhos. Ainda que a Justiça já tenha determinada a retirada
desses 'intrusos' ou não índios, como define a Funai, os Awá temem pela própria
sorte, se afirmam em sua coragem e não vacilam quando veem sua resistência em
xeque. "Não temos medo. Vamos resistir", dizem em discursos
emocionados.
Liberação da terra
Awá
Míriam Leitão, Coluna
no Globo, 24.12.2013 -
Vai começar a desintrusão da Terra Awá. A palavra é
estranha, mas quer dizer algo que se esperava que acontecesse ao longo deste
segundo semestre, até por ordem judicial: a retirada dos não indígenas da área
demarcada e registrada como dos índios do grupo Awá Guajá, no Maranhão. Chove
muito esta época do ano, mas será assim que as tropas vão se deslocar.
A ordem do juiz federal no Maranhão José Carlos do Vale
Madeira estabeleceu prazos e modos da retirada dos não indígenas. O governo já
reuniu todos os órgãos envolvidos e concluiu o plano da retirada dos não
indígenas.
Os que estiverem instalados na terra indígena receberão nos
próximos dias notificações para deixar o local. Os moradores terão 40 dias para
retirar seus bens. Ao final do prazo, serão desapropriados. Foram expedidos
mandados de busca e apreensão de todos os equipamentos que estiverem ligados à
prática criminosa.

Será instalada para executar a operação uma grande base em
São João do Caru e outra em Vitória da Conquista, no Maranhão, onde há grande
concentração de madeireiros.
O governo vai derrubar as cercas e fechar os ramais que
foram abertos pelos madeireiros nas invasões frequentes da Terra Awá. A ideia é
abrir apenas uma estrada que contorne a terra para facilitar o acesso da
fiscalização. O risco é a estrada acabar facilitando novos ataques à mata onde
vivem os índios, nessa área que é um dos últimos remanescentes de Floresta
Amazônica no Maranhão.
Em agosto, o GLOBO publicou uma longa reportagem feita por
mim e pelo fotógrafo Sebastião Salgado (*). “O Paraíso Sitiado” teve como
título na primeira página o resumo do que vimos lá: “Eles estão em perigo.” Era
o começo da estação madeireira, e os índios estavam encurralados por
madeireiros que atacavam a floresta por todos os lados. Ameaçavam reagir, mas
como? São 400 pessoas de um grupo contactado no final dos anos 1990, depois de
terem fugido por quase 500 anos.
Os Awá são nômades, acabaram de ser aldeados, poucos falam
português, são do tronco Tupi e têm uma ligação intensa com a floresta, porque
creem que a existência do mundo após a morte depende da manutenção da floresta
em pé.
.jpg)
Há uma grande fazenda, o empreendimento agropecuário Alto
Turiaçu, na terra indígena Awá Guaja, que terá que sair imediatamente. A
Justiça determinou a desocupação da fazenda e a retirada — ou demolição — dos
imóveis e dos bens móveis e animais.
A Coordenação dos Índios Isolados e Recém Contatados da
Funai quer iniciar, em seguida, o trabalho de reconstituição da cobertura
florestal na área desmatada da terra Awá Guajá.
Como podemos permanecer indiferentes à luta pelos direitos dos verdadeiros donos desse solo?
ResponderExcluirEstamos envolvidos em tantas lutas por direitos, e no entanto, postergando a defesa dos que têm prioridade, pelas demandas serem as mais antigas, por serem os mais espoliados e merecedores de respeito e autonomia.