A inclusão social na América Latina
Patrus Ananias
A amplitude do tema e
os limites do tempo impedem-me de trabalhar a inclusão social no contexto mais
largo, profundo e complexo da nossa América Latina.
Atenho-me, neste
encontro, à realidade brasileira, cujas especificidades conheço melhor. Mas
ouso afirmar que existem identidades e desafios compartilhados entre o Brasil e
os países irmãos latino-americanos.
Partilhamos em nossas
histórias uma enorme dívida social que tem raízes profundas na violência contra
os índios, na escravidão dos negros, na fortíssima concentração da terra e das
riquezas, na ausência de políticas públicas de inclusão e de desenvolvimento
social, na subordinação aos interesses do grande capital e de nações econômica
e militarmente mais poderosas.
Os meus estudos sobre a
História do Brasil e a minha militância política e social levaram-me ao governo
de Belo Horizonte – capital do estado de Minas Gerais e centro da terceira
maior região metropolitana do Brasil, ao Ministério do Desenvolvimento Social e
Combate à Fome, no governo do presidente Lula da Silva, e ao Ministério do
Desenvolvimento Agrário, no governo da presidente Dilma Rousseff.
Vou fixar-me no
Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, que implantamos em
janeiro de 2004 e que liderei por mais de seis anos.
Mostramos neste
trabalho, ao Brasil e ao mundo, que é possível implementar, com eficácia,
políticas públicas que favoreçam os mais pobres.
Deixo claro que as
políticas públicas e as obras que realizamos a favor da emancipação dos mais
pobres não substituem as mudanças profundas e estruturantes apontadas pela
Doutrina Social da Igreja e que encontram, a meu ver, elevada tradução na
Encíclica Populorum Progressio de Paulo VI que comemora este ano os seus
cinquenta anos:
“… a propriedade
privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto (…) “o
direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum,
segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos”.
Surgindo algum conflito “entre os direitos privados e adquiridos e as
exigências comunitárias”, é ao poder público que pertence “resolvê-los, com a
participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”. (…) O bem comum exige por
vezes a expropriação, se certos domínios formam obstáculos à prosperidade
coletiva, pelo fato de sua extensão, da sua exploração nula ou fraca, da
miséria que daí resulta para as populações, do prejuízo considerável causado
aos interesses do país”.
A Encíclica Populorum
Progressio marca tão forte presença na tradição cristã que já inspirou duas
encíclicas sociais posteriores que sobre ela se debruçam: “Sollicitudo Rei
Socialis” de João Paulo II, publicada em 1987, e a “ Caritas in Veritate” do
Papa Bento XVI, publicada em 2009.
O Papa Francisco
mantém, aprofunda e atualiza o grande legado da tradição cristã católica com a
encíclica “Laudato Si” – sobre o cuidado da casa comum.
“Hoje, crentes e não
crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum, cujos
frutos devem beneficiar a todos. Para os crentes, isto se torna uma questão de
fidelidade ao Criador, porque Deus criou o mundo para todos. Por conseguinte,
toda abordagem ecológica deve integrar uma perspectiva social que tenha em
conta os direitos fundamentais dos mais desfavorecidos.
O princípio da
subordinação da propriedade privada ao destino universal dos bens e,
consequentemente, o direito universal ao seu uso é uma “regra de ouro” do
comportamento social e o “primeiro princípio de toda a ordem ético-social”. A
tradição cristã nunca reconheceu como absoluto ou intocável o direito à
propriedade privada, e salientou a função social de qualquer forma de
propriedade privada”.
Enquanto procuramos pôr
em prática esses ensinamentos fundamentais para uma saudável convivência
humana, considero necessário que as pessoas, as famílias e as comunidades
tenham acesso aos direitos básicos (alimentação, por exemplo) para que assim
possam se organizar e lutar por conquistas sociais mais alargadas.
Movidos por esses sentimentos
e compromissos implantamos no Brasil as políticas públicas vinculadas ao
Programa Fome Zero, destinado a erradicar a fome e assegurar a todas as pessoas
o direito à alimentação saudável, à segurança alimentar e nutricional.
Este é um direito
fundamental, condição primeira para o exercício dos direitos e deveres da
cidadania, que encontra vigoroso amparo na tradição cristã a partir da oração
que Jesus nos ensinou e da multiplicação dos pães e dos peixes – narrativa
presente nos textos dos quatro evangelistas.
O Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome teve como referência de suas ações o
Programa Bolsa Família, que garantiu renda mensal a 13 milhões de famílias,
cerca de 50 milhões de pessoas carentes integramos ao Bolsa Família, na perspectiva
do Fome Zero, outras políticas públicas de assistência social e segurança
alimentar, incluídas políticas de apoio ao desenvolvimento da agricultura
familiar.
Conseguimos reduzir
significativamente a pobreza no Brasil retiramos 30 milhões de pessoas da
extrema pobreza; em 2014 a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura retirou o Brasil do Mapa da Fome.
Além de executarmos as ações articuladas em torno dos programas Fome Zero e Bolsa Família, combatemos a pobreza com programas de universalização do abastecimento de energia elétrica – Luz para Todos; de construção de moradias – Minha Casa, Minha Vida; de ampliação da assistência médica às famílias.
Além de executarmos as ações articuladas em torno dos programas Fome Zero e Bolsa Família, combatemos a pobreza com programas de universalização do abastecimento de energia elétrica – Luz para Todos; de construção de moradias – Minha Casa, Minha Vida; de ampliação da assistência médica às famílias.
Somamos a isso
importantes investimentos na Educação, abrindo as portas das universidades aos
jovens pobres, no desenvolvimento territorial e no apoio a comunidades
tradicionais, como as comunidades indígenas e quilombolas, formadas estas por
remanescentes da escravidão.
Hoje vivemos no Brasil
um deplorável retrocesso das conquistas sociais alcançadas nos últimos anos. As
facções políticas que tomaram o poder há 18 meses estão impondo ao Brasil, sob
a ideologia do neoliberalismo e dos interesses do grande capital, um projeto de
desmonte de direitos sociais e da própria soberania nacional.
Sob as luzes do
magistério social da Igreja e da esplêndida liderança do Papa Francisco,
concluo reafirmando nosso compromisso com a justiça social, o bem comum e a
dignidade, sem exclusões, de cada um e de todos os seres humanos. Afinal, somos
depositários da mensagem d`Aquele que disse: “vim para que todos tenham vida e
a tenham em plenitude”.
[O autor é professor, advogado, deputado
federal, fonte: Boletim Rede de Cristãos,
Ano XXVI, Dez. de 2017, n. 300. O texto reproduz a palestra do autor
apresentada num encontro convocado pelo Celam, em Bogotá, no início de Dez.
2017]
Em memória de Catarina Lutero e Jenny Marx
O ano 2017 nos lembra, além centenário da Revolução
Russa (1917), de duas publicações que fizeram história. Faz 500 anos que Lutero
pregou 95 teses à porta da Igreja do Castelo de Wittenberg (Alemanha), e faz 150
anos que Marx publicou o primeiro volume do “Capital” com o título “Crítica da
economia política”. As “Teses”, de 1517, visavam à Reforma da Igreja Católica, o “Capital”, de 1867, à Revolução como emancipação da classe
operária.
Neste ensaio
por ocasião do momento jubilar das “Teses” e do “Capital” quero lembrar a vida sacrificada
das mulheres de seus autores, a vida de Catarina Lutero (1499-1552) e Jenny
Marx (1814-1881). A presença de Catarina e Jenny na vida de Lutero e Marx não
pode ser reduzida a enfeites secundários de uma causa maior. A causa maior, as
lutas por tolerância e diversidade, por justiça e igualdade, por emancipação e
participação andam mancando e são destinadas ao fracasso se não tiverem um
rosto feminino e masculino.
1. Catarina Lutero
Catarina nasceu em 29 de janeiro de 1499, em Zülsdorf, junto à Lippendorf, ao sul de Leipzig (Alemanha). Aos três anos de idade perdeu sua mãe e com cinco anos foi deixada numa escola de religiosas Beneditinas de Brehna. Com 16 anos, tornou-se religiosa num convento cisterciense de Nimbschen. Graças à passagem pela vida conventual, Catarina recebeu uma boa formação, aprendeu a ler e a escrever (um privilégio naquela época), apropriou-se do latim litúrgico, de saberes elementares da cozinha e costura, da medicina natural e da agricultura.
Em 1517, as Teses de Lutero começaram a agitar o país.
Em 1523, Catarina conseguiu fugir de sua clausura para Wittenberg, acompanhada
por um grupo de aventureiras corajosas. Algumas delas retornaram às suas
famílias, outras foram ajudadas por Lutero e seus amigos a se reencontrar no
mundo através de um trabalho e um casamento. Catarina ficou por dois anos como
doméstica na casa do pintor Lucas Cranach. A sina das mulheres da época era
essa: da tutela do pai às prendas domésticas e à obediência de um marido.
O ano de 1525 foi de grande convulsão social. Os
camponeses se revoltaram contra sua condição de vassalos de príncipes e nobres.
Depois do grande massacre dos camponeses em Frankenhausen, um dos seus líderes
ideológicos, Thomas Müntzer, pastor protestante e ex-aluno de Lutero, em
Mühlhausen, 27 de maio 1525, foi publicamente decapitado. No mesmo ano, o
reformador já se havia pronunciado “Contra as hordas salteadoras e assassinas
dos camponeses”. A libertação dos camponeses do jugo feudal fracassou, não sem
o apoio de Lutero.
Em 13 de junho de 1525, poucas semanas depois da
chacina dos camponeses, Lutero e Catarina se casaram - ela com 26 anos de idade
e por opção, ele com 42, empurrado pelos amigos. Ambos se formaram em conventos
e não estavam propriamente preparados para a vida conjugal. O monge Martinho
gostava de trabalhar no silêncio e, ao mesmo tempo, era detentor cortejado do
monopólio da palavra, no púlpito e na mesa. A monja Catarina, que escapou do
silêncio obrigatório dos cistercienses, gostava da prosa contínua. O início da
convivência não foi fácil.
O príncipe Johann da Saxônia, irmão de Frederico, o
Sábio, recém-falecido, que era o grande protetor de Lutero, doou ao casal o
mosteiro dos agostinianos de Wittenberg e suas dependências. Portanto, também
depois do casamento, Lutero estava em sua casa conventual, porém sem guardião e
ecônomo, como é costume nos conventos. Essa parte foi assumida por Catarina,
que transformou o convento em casa movimentada por amigos, viajantes e hóspedes,
e numa pensão para estudantes, que se tornou uma fonte de renda. Catarina, que
se assemelhou mais com a Martha do Evangelho do que com a Maria: “Ela lida com
carroças, prepara a terra, apascenta e guia o gado, faz cerveja etc. Entre uma
e outra atividade também começa a ler a Bíblia”. Dos axiomas do marido (ser
salvo “somente pela fé”, “somente pela graça”, “somente pela cruz de Cristo”) compreendeu
o essencial. Sua religiosidade estava mais próxima à fé das mulheres do povo do
que à compreensão dos teólogos. Para compreender a venda das indulgências como
obra do diabo não precisava de um estudo teológico aprofundado.
Da união de Lutero com Catarina nasceram seis filhos. Em
1529, com a morte da irmã de Lutero, o casal acolheu ainda as seis crianças
dela. O antigo convento dos agostinianos tornou-se também uma casa de trânsito
para a irmã morte. A primeira filha do casal, Elizabeth, morreu aos oito meses
de idade, e Madalena, a segunda, faleceu aos 13 anos. Repetidas vezes, Lutero
chamou Catarina de “estrela da manhã de Wittenberg”, já que diariamente ela se
levantava às quatro horas da madrugada, mas também porque se tornou luz em suas
noites escuras de depressão e, com o saber da medicina popular da época, enfermeira
de um marido com múltiplas doenças e superstições da época, indisciplinado no
trabalho e na comida. Ao ler o “Catecismo Menor” (1529), os sermões e a
correspondência daquele tempo, percebe-se como a experiência familiar
enriqueceu a vida cotidiana do Dr. Lutero.
Depois da morte do marido (1546), Catarina experimentou
o desamparo das viúvas bíblicas. Perdeu a segurança do lar, garantida pela
autoridade de Lutero e por seu salário da universidade, de 100 florins. Teve de
enfrentar processos jurídicos pela herança, presenciou lutas religiosas (“guerra
smalkaldiana”) e fugiu, com os filhos, da peste que devastava Wittenberg. A
caminho de Torgau, acidentou-se gravemente com sua carroça. Às feridas do
acidente juntou-se uma pneumonia. Dia 20 de dezembro de 1552 veio a falecer.
Numa carta a um amigo, Lutero teria escrito: “Minha
querida Cate me mantém jovem [...]. Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela
aceita de bom grado minhas viagens e, quando volto, está sempre me aguardando
com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta meus acessos de
cólera. Ela me ajuda em meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois
Dele, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia vierem
a escrever a história de tudo o que já tem acontecido (a Reforma), espero que o
nome dela apareça junto ao meu”. Catarina não foi a propulsora da Reforma, mas seu
sustentáculo.
2. Jenny Marx (1814-1881)
Jenny von Westphalen Marx nasceu, tal qual Catarina
von Bora Lutero, de uma família cujos membros foram um dia servidores da nobreza.
Jenny tinha dois anos quando seu pai foi transferido para Trier, onde assumiu
no governo distrital o cargo de um funcionário superior. O pai Heinrich, de Karl Marx,
era um “cristão novo”. Depois da presença napoleônica na Renânia (“Reino Real de
Westfalen”, 1807-1813), a Prússia se apropriou, em 1815, de muitas partes territoriais
da Renânia, e aboliu a legislação progressista de Napoleão. Assim, a região católica
de Trier foi governada pela Prússia luterana que não permitiu o exercício
profissional de Judeus na esfera do direito. Teria sido ainda um vento tardio
do antijudaísmo de Lutero? O jovem Heinrich Marx passou do judaísmo para o
protestantismo na cidade católica de Trier, onde se tornou um advogado
reconhecido. As famílias de Jenny e Karl tiveram contatos sociais nos círculos
esclarecidos de Trier, e foi Ludwig von Westphalen quem introduziu Jenny e Karl
nas ideias da Revolução Francesa. Marx dedicou sua tese doutoral ao futuro
sogro, Ludwig von Westphalen.
Jenny e Karl se conheciam desde os tempos de colégio. Marx
conquistou sua Jenny, que teve muitos pretendentes, com poemas de amor e
investiu nessa relação com ela por longos anos e até por um noivado clandestino
(1836).
Depois dos estudos de Karl em direito, filosofia,
história em Bonn e Berlim, e um doutorado em Jena (1841), e depois de uma
rápida passagem por Köln, como redator-chefe do jornal liberal “Rheinische
Zeitung”, Jenny e Karl se casaram no civil e religioso, em 19 de junho de 1843,
ela com 29 anos, ele com 25. Tiveram sete filhos, que nasceram em 1844
(Caroline), 1845 (Laura), Edgar (1847), Henry Edward Guy (1849), Francisca
(1851), Eleanor (1855), e o último, que morreu logo após seu nascimento, em
1857. Três chegaram à idade adulta. Duas das três filhas sobreviventes, Eleanor
(+1889) e Laura (+1911), se suicidaram.
Logo depois do casamento, Jenny e Karl se transferiram
para Paris, já que o jornal de Köln, onde Marx trabalhava, estava proibido
desde março daquele ano. Em Paris, onde Karl exercia um trabalho jornalístico,
nasce Caroline, sua primeira filha. De Paris, datam também as relações com
Engels, Bakunin, Heine e muitos outros. Contra os interesses de sua classe
social, Friedrich Engels tornou-se o esteio financeiro da família Marx em
períodos nos quais faltou comida para os filhos e dinheiro para pagar o
aluguel. O brilho intelectual de Marx não resplandeceu em sua situação
econômica.
Por intervenção do governo da Prússia, em 25 de
janeiro de 1845, o casal foi expulso da França e refugiou-se em Bruxelas. Os governantes
nobres da Prússia eram luteranos e antissocialistas. No exílio de Bruxelas, em 26
de setembro de 1845, nasce sua filha Laura e, em 3 de fevereiro de 1847, seu
filho Edgar. Em Bruxelas, em 1848, foi publicado o “Manifesto do Partido
Comunista”, escrito por Marx e Engels. Na única página do original que ainda existe,
as primeiras linhas mostram a letra de Jenny. Em 4 de março de 1848, o
“Manifesto” foi a razão da prisão e expulsão de Jenny e Karl de Bruxelas.
Jenny não foi um mero apêndice da fama de seu marido. Ela
transformou a letra de Karl, às vezes quase ilegível, num manuscrito publicável
e traduziu muitos dos seus textos para o francês, além de dominar o inglês. Várias
de suas resenhas do teatro londrino foram publicadas em Frankfurt. Esse tempo
de “secretária de Karl”, confessa Jenny, foi o tempo “mais feliz da minha
vida”. Sem a compreensão intelectual desses textos ela não poderia ter feito
esse trabalho de “tradutora”. A vida cotidiana em pobreza permanente, a
ausência do marido por causa de viagens e congressos, sua embriaguez, doenças e
a educação dos filhos representaram desafios na convivência familiar de Jenny
com seu parceiro. Na Páscoa de 1852 morreu Francisca, por causa de uma bronquite.
Na mesma noite, lembra Jenny em sua autobiografia, “nós nos deitamos no chão,
as três crianças vivas conosco, chorando pelo anjinho, que frio e pálido
descansou ao nosso lado. [...] Foi o tempo da nossa pobreza mais amarga”. Para
comprar um caixão, Jenny bateu em muitas portas e foi, finalmente, atendida por
um refugiado francês.
Desde sua passagem por Bruxelas, Jenny
trouxe da casa de sua família uma empregada doméstica, Helene Demuth, nove anos
mais jovem que ela, para ajudar em casa. Helene, que se tornou uma socialista
respeitada, acompanhou a família Marx em todas as suas peripécias. Em 23 de
junho de 1851, ela teve um filho com Marx, que para preservar a reputação do
pai, foi oficiosamente assumido por Engels, de quem também levou o nome:
Frederich Lewis Demuth (1851-1929). Freddy foi entregue para pais adotivos, em
Londres, logo após seu nascimento, e só depois de 111 anos sua identidade se
tornou pública. Wilhelm Liebknecht, que fazia parte do círculo londrino de
Marx, resumiu esse acontecimento com a frase lapidar: “Se diz, que diante do seu
camareiro ninguém é um grande homem. Diante de Lenchen (Helene), Marx
seguramente não foi”. A presença de Helene, depois do nascimento de Freddy, balançou,
mas não abalou, o companheirismo e o amor entre Karl e Jenny. Em sua
autobiografia, “Contornos de uma vida movimentada”, de 1865, Jenny caracteriza
os anos 1851 e 1852 como “os anos das maiores e, ao mesmo tempo, das mais
mesquinhas preocupações, tormentos, decepções e privações”. Mas, ainda 15 anos
depois do nascimento de Freddy, Karl escreveu a Jenny que estava de visita em
Trier, para ver sua mãe no leito da morte: “Quando você está longe, meu amor
para com você mostra-se como realmente é, como um gigante [...]. O amor [...]
não ao proletariado, mas o amor para com a namorada e particularmente para com
você, faz do homem novamente um homem”. Depois de 1851, a relação de Jenny com
Karl continua respeitosa, amável, não resignada. Seus ideais e seu amor
recíproco eram maiores que seus tropeços humanos. Jenny permaneceu amante da
vida e de seu Karl. Já com as marcas da morte no rosto, ela escreveu ao médico
Fernando Flecklers, em Carlsbad: “Gostaria de viver mais um pouco, meu querido
doutor. É engraçado: quanto mais próximo chegamos ao fim da nossa história, tanto
mais a gente fica amarrada neste `vale das lágrimas´” (29.09.1880). Jenny
esteve ao lado de Karl até o fim, e Karl ficou profundamente abalado com a sua
morte, falecendo um ano e meio depois de Jenny (14.03.1883).
3. Semelhanças e diferenças
biográficas
A lealdade ideológica com seus maridos, o
companheirismo familiar e a luta corajosa pela sobrevivência econômica
aproximam Catarina Lutero e Jenny Marx. Catarina, 16 anos mais jovem que
Lutero, já em condições estáveis, teve seis filhos, Jenny, em condições de
migrante permanente e quatro anos mais idosa que Karl, teve sete filhos. A
morte prematura perpassou as casas de ambas.
Na Igreja reformada, o prestígio de Lutero e a nobreza
protestante regional garantiram certo conforto material à vida familiar cotidiana
de Catarina e Martinho. Esta já não foi a situação de Jenny. A nobreza na mira
do “Capital” de Marx perseguiu o casal desde os primeiros artigos publicados
por Karl em Köln. O casal, que optou pela classe operaria, optou também pela
pobreza e pela existência de migrantes e imigrantes na própria vida. Dos “lúmpen” do Capital e da comunidade
revolucionária Karl e Jenny não esperavam privilégios.
Jenny e Karl se casaram apaixonados e sustentaram essa
paixão como amor maduro até o fim de sua vida. O casamento de Catarina com
Martinho era, no início, um casamento arranjado para Lutero, pois a Reforma entendia
o casamento, não como sacramento, mas como algo que faz parte da criação divina
e da vida humana. Porém, o casamento por motivo de coerência, com o próprio
pensamento de Lutero, se transformou em estima, reconhecimento e amor
incondicional de Martinho e Catarina.
Catarina e Jenny viveram na sombra e nos holofotes de
seus maridos. Catarina correu aos braços do homem famoso que anos antes tinha
publicado as “Teses”. Jenny acompanhou seu marido antes de escrever o “Capital”,
que lhes trouxe austeridade e inimizades. Ambas assumiram e entenderam os
axiomas fundamentais dos seus maridos e eram leais seguidoras, mesmo sendo pelas
restrições legais da época barradas de frequentar universidades e estudos
superiores. Neste ponto, Jenny tinha algumas vantagens, pela casa humanista em
que nasceu e pelos amigos que a família e a causa operária juntaram no decorrer
das suas fugas pelo mundo. De Catarina, praticamente nenhum escrito foi
guardado. De Jenny, dispomos de uma autobiografia e de uma ampla
correspondência. As amizades de Lutero eram mais restritas ao campo religioso.
Suas máximas em torno da fé, da graça e de Jesus só interessavam aos camponeses
e, provavelmente, também à classe operária na medida em que prometiam
emancipação da miséria e da fome, além de alguma forma de protagonismo
político. Esse já não foi o propósito de Lutero, que teve uma opção
interclassista.
Os autores das “Teses” e do “Capital”
não eram bons administradores de suas próprias economias e casas. Martinho e
Karl deixaram esse papel para suas esposas, o que era mais fácil na casa
estável de Lutero com um salário de 100 florins garantidos pela Universidade do
que na itinerância e imprevisibilidade de remunerações por textos publicados ou
de empréstimos de amigos.
Jenny e Catarina nos mostram que, para não reproduzir
os vícios de uma sociedade no interior das grandes causas da humanidade, é
preciso ampliar o território dessas causas defendidas, em nosso caso, por
Lutero e Marx. Também as causas nobres podem tornar-se apriscos, cercas e
muros. Nas reivindicações da fraternidade universal podem-se igualmente
reproduzir hierarquias e uma divisão de classe entre “senhores” e “servidores”.
Como socializar o gênio de uns com o não menos genial cuidado da sobrevivência
do “gênio sacrificial” e serviçal dos outros? De certo modo, de ambos se espera
que estejam dispostos a dar a vida pela causa de uma existência digna e
emancipada que defendem. A vida emancipada não será o resultado final de uma
luta, mas seu acompanhante em cada um de seus passos. A rigor, não é permitido
distinguir entre protagonistas de causas e seus servidores ou servidoras. As
causas realmente emancipadoras exigem a coincidência entre protagonista e
servidor. As Jennies e Caties são as asas dessas causas que não levantam voo
sem elas.
4. A Reforma continua,
a Revolução mal
começou
A Reforma de Lutero não rompeu com o
feudalismo medieval nem com certo autoritarismo patriarcal e fundamentalismo
bíblico. A consciência do indivíduo como última instância da ação, a
reivindicação de direitos subjetivos, a socialização da Bíblia entre letrados e
certo cuidado com a educação dos filhos, sejam meninos ou meninas, já
carregavam elementos da modernidade e da sociedade burguesa. Ao reconciliar-se
com a modernidade, a Igreja católica, hoje, incorporou reivindicações
essenciais da Reforma em seu universo institucional. Em todo caso, a Reforma
continua.
Para o epitáfio
de um memorial imaginário de Catarina e Jenny alguém propôs a seguinte frase:
“Sustentaram com sua vida a gratuidade dos bens celestes e a partilha
igualitária dos bens terrestres”. Entre a obra de Lutero e a de Marx existe uma
afinidade orgânica que se revela na proximidade daqueles seguidores que deram
sua vida pelas vítimas dos poderosos e, ao mesmo tempo, perpassa o pensamento
de ambos uma linha divisória irredutível, porque uns situam o reino do bem
viver exclusivamente na Terra, e os outros apenas seu início, porque consideram
que o reino do bem viver, em sua plenitude, não está ao alcance dos humanos.
Sabem que a luta pelo paraíso terrestre de todos não vai mais longe que um
sonho numa noite de verão ou de um aglomerado de fanáticos.
No epitáfio
acima falta algo essencial. Lutero, o reformador do tratado da graça, não
previu essa graça para todos. Em seus polêmicos pronunciamentos contra judeus e
camponeses mostrou que não abriu mão da penalidade do inferno da igreja nem do
poder punitivo e assassino dos príncipes. No dia 1 de fevereiro de 1546, poucas
semanas antes de sua morte, Lutero escreve de Eisleben à Catarina, sua esposa,
que ele ia cuidar em seus sermões da expulsão dos 50 judeus que ainda sobreviviam
em sua cidade natal e no mês de seu casamento com Catarina von Bora se
posicionou ao lado dos príncipes contra os camponeses revoltados. O
antijudaísmo do reformador, certamente, foi uma herança do seu passado católico
e de sua socialização agostiniana.
Quem exclui as
categorias “Céu” e “Inferno” do seu discurso sobre a realidade social, como
Marx, pode cantar com Heinrich Heine: “O Céu deixamos para os anjos e os
pardais”. Mas ele desqualifica o imaginário e a esperança como fatores atuantes
sobre a realidade e não se livra do monopólio da punição pelo Estado, mesmo de
direito constitucional, que limita o exercício da liberdade e privilegia a
classe dos legisladores. A questão da gratuidade dos bens celestes e da
partilha igualitária dos bens terrestres para com todos permanece uma questão
aberta que nem cadeias, confessionários ou “guerras santas” podem solucionar. Já
promessa de justiça e misericórdia divinas sem limites podem atuar em nossas
realidades históricas conflitivas não como algo mágico, mas como motor e freio.
No campo religioso, grosso modo, os combatentes de
então, hoje abrem mão de suas hostilidades, abraçam seus adversários num
ecumenismo emergencial e assumem com reciprocidade piedosa pontos de vista
essenciais do outro. A fuga dos rebanhos e a opção pelos pobres, secularização
e relativismo, fundamentalismo e integralismo impõem a católicos e evangélicos
históricos a sincronização de suas agendas. As “Teses” perderam seus dentes.
XXII Assembleia Geral do Cimi - Documento Final
“Benditas
as mãos que se abrem para acolher os pobres e socorrê-los: são mãos que levam
esperança”.
Mensagem do
Papa Francisco para o “Primeiro Dia Mundial dos Pobres”, 19 de novembro, de
2017.
Realizou-se, de 24 a 27 de outubro de
2017, no Centro de Formação Vicente Cañas, a XXII Assembleia Geral do Cimi -
Conselho Indigenista Missionário. O tema do evento foi: “O Cimi a serviço dos
Povos Indígenas: teimosia e esperança na afirmação da vida”. Nesta perspectiva,
as lideranças indígenas, os missionários e missionárias, bispos e
representantes de entidades e instituições presentes à Assembleia afirmaram as
razões de sua esperança num Brasil dividido entre ricos, corruptos e pobres
cuja vida nos fala de razões de desespero. No último ano, registrou-se 106
suicídios de jovens indígenas. Os gritos de desespero são gritos que denunciam
a injustiça e a mentira, que exigem que a terra seja desligada do seu valor de
mercado e que sejam reconhecidos seu valor de uso e seu valor místico para os
povos indígenas.
Vivemos num contexto de exploração
econômica em que o capital, para continuar o processo de colonização, alienação
e aumento de sua margem de lucro, precisa impor, como regras, a
desregulamentação de direitos fundamentais, a criminalização das lutas e dos
lutadores, a invasão e ocupação das terras indígenas por empreendimentos
econômicos devastadores da natureza, o rebaixamento dos salários, a
precarização do trabalho, a terceirização dos empregos e a aceleração da
produção, com a substituição dos operários pelas máquinas.
Sabemos que, se em nossa sociedade não
há esperança para os povos indígenas nem para as classes desfavorecidas,
tampouco haverá esperança para as elites! O nosso lugar, neste contexto, é o de
estar ao lado dos povos indígenas e no meio deles. Ao defender nossa opção
preferencial pelos povos indígenas, defendemos igualmente o Bem Viver e a
“sobriedade feliz” (LS 224) de todos. E numa sociedade cuja lógica é a
sobriedade feliz não haverá lugar para privilégios nem privilegiados. Num
momento em que a democracia em nosso país mostra toda a sua fragilidade por
causa da corrupção e do clientelismo, nós somos decididos defensores de uma
democracia purificada por uma ética de solidariedade. “Dado que o direito por
vezes se mostra insuficiente devido à corrupção”, - nos diz o Papa Francisco –
“requer-se uma decisão política sob pressão da população. [...] Se os cidadãos
não controlam o poder político [...] também não é possível combater os danos
ambientais” (LS 179).
Entre os muitos desafios atuais,
precisamos dar importância às diferentes formas de luta e resistência dos povos
indígenas pela garantia de seus direitos e no enfrentamento das injustiças e
violências. Eles nos ensinam que as lutas políticas, jurídicas e sociais não
estão deslocadas de suas cosmovisões e de suas espiritualidades, mas se somam e
fortalecem as relações místicas que norteiam a vida.
A XXII Assembleia Geral do Cimi, no seu
comprometimento com a causa indígena, definiu para o período de dois anos as
seguintes prioridades: terra e território como fundamento da vida; povos em
contexto urbano, destacando o processo formativo junto à juventude;
espiritualidade indígena como pano de fundo de suas lutas e fortalecimento de
outras dimensões; e economias indígenas e bem viver.
A denúncia do sofrimento dos povos
indígenas é anúncio da Boa-Nova do Evangelho. A vida e o futuro dos povos
indígenas dependem da desconstrução do sistema que atenta contra a sua
existência. A nossa esperança está na construção de uma nova sociedade na qual
convivem culturalmente diferentes e socialmente iguais. A existência dos 45
anos do Cimi já representa uma antecipação dessa sociedade alternativa no sonho
e na utopia. Não nos deixemos oprimir pela falácia do “fim da utopia”, o que
significaria jogar os nossos mártires ao lixo de uma história sem memória.
Seguiremos “a serviço dos Povos
Indígenas: com teimosia e esperança”, na afirmação da vida, sempre. Aos povos
indígenas, missionários e missionárias de nossos regionais e aos nossos
aliados, digamos com o Papa Francisco: “não deixem que nos roubem a esperança”
(EG 86).
Centro
de Formação Vicente Cañas, Luziânia, GO,
27
de outubro de 2017. - XXII Assembleia Geral do Cimi
O batismo de Nossa Senhora da Imaculada Conceição no Rio Paraíba e como ela se tornou “nossa” em Aparecida
Paulo Suess
Da Imaculada Conceição à Conceição Aparecida
Há 300 anos, três pescadores desceram o
rio Paraíba do Sul à procura de peixes. Sem sucesso. Chegando ao Porto
Itaguaçu, lançaram outra vez sua rede e, em vez de peixes, apanharam o corpo de
uma imagem de barro cozido e, num segundo lance de sua rede, apareceu a cabeça
dessa mesma imagem, logo reconhecida como uma imagem despedaçada de Nossa
Senhora da Imaculada Conceição. A história conta que depois dessa pesca
surpreendente, os pescadores apanharam peixes em abundância.
A
transfiguração de “Nossa Senhora da Imaculada Conceição” em “Nossa Senhora
Aparecida”, ou abreviado, da “Imaculada” portuguesa em “Aparecida” brasileira,
às vezes, amorosamente, invocada como “Cida” ou “Cidinha”, pode ser considerado
o primeiro milagre de uma santa cuja ancestral branca acompanhou os
conquistadores no porão de suas naus. No litoral paulista, Martim Afonso de
Souza (1500-1571) dedicou a ela a primeira igrejinha no Brasil. Hoje, em todo o
território nacional, são mais de 530 paróquias dedicadas a Imaculada Conceição
e mais de 340 a Nossa Senhora Aparecida.
Após a permanência de alguns anos no
leito do rio como numa pia batismal, emergiram na rede dos pescadores dois
pedaços de barro de uma imagem despida, com seu orgulho de plenitude branca
quebrado, sem indumentária, escurecida, realmente “nossa”, Senhora por
respeito, não pelo sangue. Azul é apenas seu manto, posteriormente
confeccionado para cobrir sua nudez e negritude. Depois do batismo no rio
Paraíba e uma longa permanência na casa dos pobres, a imagem é enfeitada com
adornos, cordões de ouro e homenagens que têm valor simbólico, não real. Não
foram encomendados pela visitada, mas agradam os visitantes. E não é para
menos. O povo sempre dá o melhor para seus hóspedes.
A passagem da Imaculada por
esse rio indica sua missão como Aparecida. É uma missão que significa despojamento,
presença, visitação silenciosa. Realmente, o primeiro milagre da Aparecida é o
processo da inculturação pelo qual a Imaculada se tornou a Cidinha missionária,
visitada e visitadora de muitos que estão atormentados pelos achaques da vida. Por
quinze anos, a vizinhança se reuniu na casa de seus pescadores e num pequeno
anexo, uma espécie de oratório, que foi logo construído, para receber cada vez
mais devotos. Ao longo desses anos, Aparecida se inculturou na vida dessa
gente. Nas rezas do terço, o povo pediu a proteção da Santa e agradeceu sua
proteção.
No rio Paraíba não aconteceu
propriamente uma aparição milagrosa de Nossa Senhora. A Aparecida é uma santa
silenciosa. Apareceu no silêncio das águas e atuou no silêncio das casas, sem
dizer uma só palavra, sem fazer promessas nem profecia, sem dar ordens ou
indicar um lugar para construir um templo.
Em Lourdes, sim, aconteceram,
segundo Bernadete Soubirous, dezoito aparições de uma “senhora branca”. E essa
“senhora” falava, deu recados, pediu orações e se identificou na 16ª aparição,
no dia 25 de março de 1858, festa da Anunciação do Senhor, com as palavras: “Eu
sou a Imaculada Conceição”, eliminando as dúvidas que possam ainda ter pairado sobre
a proclamação do dogma por Pio IX, quatro anos antes.
Apesar do silêncio e de
milagres discretos, a devoção da Nossa Senhora Aparecida cresceu e se espalhou pela
região. Para receber cada vez mais peregrinos, foi necessário construir espaços
maiores, simbólicos e reais. Em 1904, a imagem de Nossa Senhora da Conceição
Aparecida foi solenemente coroada e, em 1929, foi proclamada padroeira oficial
do Brasil. Já em 1980, a Basílica Nova foi consagrada pelo Papa João Paulo, e o
evento do rio Paraíba tornou-se feriado nacional, litúrgica e politicamente reverenciado
a cada dia 12 de outubro. Em 1984, a CNBB declarou a Basílica, oficialmente,
Santuário Nacional e o dia 12 de outubro de 2016 marcou a abertura do Ano
Jubilar em comemoração aos 300 anos da aparição de Aparecida.
A integração nacional e
oficial de um evento milagroso, originalmente destinado aos pobres e apropriado
pelos socialmente humilhados como elemento de resistência e luta pela sua dignidade,
não é sem risco e aconteceu também em outros países. As manipulações das elites
políticas e culturais passam sempre por aquilo que o povo considera sagrado. Há
anos concelebrei com companheiros da Teologia Índia uma Missa na Basílica de N.
Sra. de Guadalupe, santuário nacional do México, com não indígenas sentados nos
bancos e com praticamente todos os índios presentes sentados no chão, no fundo
da Igreja, ou encostados na parede. As elites, donas da palavra e do poder, procuram
fazer os pobres reconhecerem, voluntariamente, “seu” lugar nas repartições
públicas, na sociedade e na Igreja. Nas festas religiosas buscam proximidade
com as “autoridades” religiosas populares que lhes dão legitimidade e sacralizam
seu poder. Mas os milagres acontecem “no fundo da Igreja” e nas periferias,
onde nasce a esperança.
Hoje, doentes abastados e
pobres, com suas dores desiguais, procuram a Santa. Vêm para “pagar” promessas atendidas
e para encomendar graças urgentes. Cidinha e Rainha, com humildade e majestade,
Nossa Senhora Aparecida pode puxar a cada uma e a cada um para cima e para fora
de sua miséria, pode garantir o essencial a cada dia e, na falta desse
essencial e apesar dessa falta, transmitir o sentimento de não abandonar os
devotos dos quais é mãe. Ela também experimentou a precariedade da vida. Na
passagem pela água do rio e pela casa dos pobres, a Virgem Imaculada integrou
no imaginário dos fiéis traços robustos da Mãe Terra, simbolizada não somente
pela cor, mas também pelo adorno da Lua aos seus pés, que a faz “espelho de
justiça”, porque reflete a luz de Cristo. “Maria ajuda a manter vivas as
atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade”, indicando assim
“qual é a pedagogia para que os pobres, em cada comunidade cristã, `sintam-se
como em casa´” (DAp 272). Maria como “auxílio dos cristãos” e “continuadora da
missão” não significa um intervencionismo na obra da evangelização, mas uma
presença operante do imaginário mariano na memória e na história do
cristianismo.
A
Aparecida e outras Madonas Negras
Na liberdade e diversidade da
assunção dos mistérios da fé, que se manifestam em torno das devoções marianas,
nos confrontamos com um dado intrigante: Nossa Senhora Aparecida, cuja negritude
foi interpretada como apoio à causa dos escravos e resgate de sua dignidade, é
apenas uma entre muitas Madonas Negras ao redor do mundo, portanto, independentemente
de contextos de escravidão, de geografia, história, cultura e situação social
dos respectivos povos ou grupos humanos. Só para dar alguns exemplos, encontramos
madonas negras ou morenas na Colômbia (“Virgem da Candelária”) e em Cuba
(“Virgem da Caridade do Cobre”), na Espanha (“Virgem de Montserrat”) e em
Portugal (“Nossa Senhora de Nazaré”), na Suíça (Maria Einsiedeln) e na França (Chartres),
na Bolívia (“Virgem de Copacabana”) e no México (“Nossa Senhora de Guadalupe”).
Até hoje não se conseguiu construir um denominador comum para explicar essa
negritude. Também a identificação da Aparecida com a “mãe negra”, símbolo da
ama de leite negra, cujo monumento se encontra no Largo do Paissandu, em São
Paulo, não procede. Pela proximidade com a Virgem Imaculada, a iconografia
mostra a Aparecida sempre sem criança, como de fato foi encontrada no rio
Paraíba. Em alguns casos, arqueólogos e antropólogos afirmam com certa
segurança que as Madonas Negras estão diretamente ligadas a antigas deusas
pagãs: Ísis, Cibele, Ártemis, Perséfone, Débora, Diana e tantas outras.
A afirmação que as Madonas
Negras serem representantes simbólicas de deusas lunares arquetípicas em lugares
(fontes, covas, montanhas) que radiam forças curativas explica parcialmente a
sua existência através de séculos e milênios. Em todo caso, a Aparecida, pela
sua origem histórica e teológica, é, ao mesmo tempo, Nossa Senhora Imaculada,
branca e celeste, e Nossa Senhora Aparecida, negra e terrestre. Ela é também,
segundo a Ladainha Lauretana, “rainha elevada ao céu” e “consoladora dos
aflitos” na terra. A Aparecida nos lembra do nosso “compromisso com a
realidade” (DAp 491) e nos “ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de
serviço, de entrega e de gratuidade”, indicando assim “qual é a pedagogia para
que os pobres, em cada comunidade cristã, `sintam-se como em casa´” (DAp 272).
As perguntas abertas sobre a
origem e o significado das Madonas Negras não anulam explicações com os quais
até hoje somos familiarizados, mas procuram ampliar esses significados e apontar
para suas raízes profundas e horizontes diferentes. Até agora, nem a
hermenêutica afirmativa de movimentos negros nem a hermenêutica de suspeita da
psicologia profunda alcançaram ou ultrapassaram a linha do realismo fantástico,
como está presente nas narrativas em torno da Madona Negra de Loreto, Padroeira
dos Aviadores.
Itinerário
aberto
A devoção da Nossa Senhora da
Conceição Aparecida nasceu da metamorfose da devoção primordial a Nossa Senhora
da Imaculada Conceição. Devotos de São Francisco trouxeram a imagem de uma
virgem branca, considerada “cheia de graça” e “concebida sem pecado original”, em
uma das naus de Pedro Álvares Cabral de Portugal ao Brasil. Mas ficou reservado
a Martim Afonso de Souza, cuja esquadra partiu, em 1530, com cinco embarcações
e 400 colonos e tripulantes para colonizar o Brasil, dedicar a primeira
igrejinha, em Itanhaém, no litoral paulista, a Nossa Senhora da Conceição. A
partir da segunda metade do século XVII, seu culto, festejado no dia 8 de
dezembro, tinha-se tornado oficial em todo o território lusitano e suas
colônias.
Se no evento de Aparecida não ocorreu propriamente uma aparição de Nossa Senhora nem uma mensagem aos pescadores nem um milagre convencional - quais são o mistério e a mensagem de Aparecida que atraem multidões de peregrinos? O mistério da Aparecida está no encontro que permite assumir o sofrimento numa atitude histórica e sobrenatural. Nossa Senhora da Conceição Aparecida se deixou encontrar nas águas de um rio e, por conseguinte, poderia ser chamada de "Nossa Senhora do Encontro". No silêncio das águas do rio, ela ouve o clamor do povo, se faz cativa dos pobres e assume a cor da pele escura do povo. Ela é advogada nossa sem toga e ajusta as contas quando as instâncias humanas de justiça demoram e as da sorte falham.
Pobres e ricos peregrinam anualmente em caravanas para Aparecida agradecendo graças recebidas que interromperam o sofrimento do desemprego e a monotonia de trabalhos pesados na lavoura ou na fábrica. A Aparecida é negra, pequena, silenciosa e, ao mesmo tempo, poderosa. Seu poder místico pode ser transformado em esperança histórica e ação política. Sua imagem é uma promessa e uma ordem: é possível esmagar a cabeça da serpente [veja o texto integral em: Convergência, out. 2017, p. 22-36].
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