Relatório de Violência Contra os Povos indígenas

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) lança amanhã, 27, na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em Brasília (DF), às 9h, o Relatório de Violência Contra os Povos Indígenas 2012. O levantamento explicita que o não respeito aos direitos dos povos indígenas está no cerne desta violência.
 Registrando um aumento das violações em várias de suas categorias, o Relatório aponta que as violências praticadas contra os povos indígenas têm causas vinculadas à omissão e morosidade no tocante à regularização de terras indígenas; aos confinamentos de grandes populações em pequenas reservas, como as de Dourados, Amanbaí e Caarapó, no Mato Grosso do Sul; aos acampamentos na beira de estradas, onde dezenas de comunidades estão abandonadas; e à degradação ambiental realizada em terras, em sua maioria, já demarcadas, em que não índios invadem e exploram ilegalmente os recursos naturais, principalmente madeira.
Outras duas causas que contribuem de modo estrutural para a violência vivida pelos povos em suas aldeias são a política desenvolvimentista do governo, que enxerga os povos tradicionais como obstáculo ao progresso, e a falta de uma política indigenista orgânica, que se inter-relacione com as demais políticas e respeite as diferenças étnicas e culturais, especialmente em saúde, educação, segurança e acesso e usufruto às suas terras tradicionais.
“Se os direitos garantidos pela legislação brasileira aos povos indígenas fossem respeitados, não teríamos o preocupante quadro de violência que o Relatório apresenta. O problema é o não cumprimento e o severo e sistemático ataque a esses direitos, duramente conquistados por essas populações, em benefício de uma minoria historicamente privilegiada deste país, como os latifundiários”, avalia Cleber Buzatto, Secretário Executivo do Cimi.
No decorrer de 2012 e neste primeiro semestre de 2013, povos indígenas de todo Brasil têm demonstrado forte oposição às várias propostas e ações dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário que vão justamente no sentido da retirada de seus direitos. Este é o caso da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215/2000, que transfere para o Legislativo a competência das demarcações de terra indígenas; da Portaria 303, da Advocacia Geral da União (AGU), que estende as condicionantes da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol para todas as terras indígenas do Brasil; e o Projeto de Lei (PL) 1610/1996, de autoria do senador Romero Jucá (PMDB/RR), que dispõe sobre a exploração e o aproveitamento de recursos minerais em terras indígenas e desconsidera totalmente o que está posto no Estatuto dos Povos Indígenas, cuja tramitação está paralisada há mais de vinte anos no Congresso.
Dentre os palestrantes na mesa estarão: Dom Erwin Kräutler, presidente do Cimi e bispo da Prelazia do Xingu, Lúcia Helena Rangel, professora de antropologia da PUC/SP e assessora do Cimi e o Guarani-Kaiowá, Solano Lopes, da comunidade Pyelito Kue. Este foi o povo que, em outubro de 2012, comoveu o Brasil relatando em uma carta a dramática situação a que estão submetidos. Desiludidos, eles afirmaram que "Como um povo nativo e indígena histórico, decidimos meramente em sermos mortos coletivamente aqui". A carta teve ampla repercussão internacional. Solano Lopes explicará qual é a situação atual do seu povo.
Os dados do Relatório foram obtidos a partir da sistematização de relatos e denúncias dos povos e organizações indígenas, informações levantadas pelas equipes do Cimi em seus 11 Regionais espalhados pelo Brasil, notícias veiculadas pela imprensa, além de informações obtidas de órgãos públicos.

Munduruku obrigam governo suspender estudos de barragens no rio Tapajós


 
A Rua ajudou a Selva
 
Ruy Sposati
 
Pressionado por dois meses de enfrentamento e resistência dos indígenas Munduruku, o governo federal suspendeu as pesquisas da região do rio Tapajós para a construção de hidrelétricas. O anúncio foi feito durante reunião em praça pública no final da tarde deste domingo, 23, em Jacareacanga, extremo oeste do Pará. Os pesquisadores que estavam em área indígena deixaram a cidade.


“A Funai e o governo federal como um todo está suspendendo qualquer pesquisa que estiver sendo feita aqui na região de vocês”, afirmou a assessora da presidência da Fundação Nacional do Índio Lucia Alberg, apesar do ministro Gilberto Carvalho ter anunciado publicamente que não suspenderia nem obras, nem estudos.
 
Pesquisa vinculante, que precede a construção da hidrelétrica, suspensa
 
“Estamos nos sentindo muito felizes”, aponta o chefe dos guerreiros Paygomuyatpu Munduruku. “Ela ainda não nos deu nenhuma prova disso, estamos esperando uma prova, mas estamos muito satisfeitos com o que ela disse”. Em maio e junho, os indígenas Munduruku realizaram um sem número de ações exigindo a suspensão das obras e estudos de barragens nos rios Tapajós e Teles Pires, onde vivem 13 mil pessoas do povo Munduruku.
Em maio, depois de uma assembleia que reuniu mais de 200 mulheres, caciques, lideranças e guerreiros, os Munduruku marcharam pelas ruas de Jacareacanga e juntaram-se a outros indígenas da bacia do Tapajós e do médio Xingu. Realizaram duas ocupações que paralisaram as obras da usina hidrelétrica Belo Monte por 17 dias, viajaram à capital federal, onde realizaram uma marcha, ocuparam a sede da Funai e fizeram protestos no Ministério de Minas e Energia e no Palácio do Planalto. Na última sexta-feira, um grupo de 40 guerreiros expulsou cerca de 25 pesquisadores da empresa Concremat, prestadora de serviços do Grupo de Estudos Tapajós, consórcio composto por Camargo Correia, GDF Suez e Eletrobras, entre outros.
Neste contexto, os Munduruku sofreram um processo de criminalização, difamação e repressão por parte do governo federal. Notas públicas, declarações à imprensa e processos judiciais acusavam os indígenas de criminosos e mentirosos, questionando a legitimidade das lideranças Munduruku, que entraram com interpelação criminal contra declarações do ministro Gilberto Carvalho.
“Nós liberamos os pesquisadores. A gente não quer mais vê-los aqui”, explica a liderança Maria Leusa Kabá. “Se eles voltarem, nós vamos tirar a cabeça dos pesquisadores. Nós somos guerreiros. Nossos guerreiros antigos são conhecidos por serem cortadores de cabeças. Nós não esquecemos nosso passado”, remonta Leusa.
“Vamos continuar na nossa luta. A gente não quer que eles [estudos] sejam suspensos. Nós queremos que os estudos e as obras sejam cancelados. A suspensão é uma vitória parcial”, conclui Paygomuyatpu.
 
Câmara Municipal de Jacareacanga
 


 

Cerca de 100 indígenas Munduruku lotaram a Câmara Municipal de Vereadores de Jacareacanga, extremo oeste do Pará, nesta segunda-feira, 24, para protestar contra os vereadores que são favoráveis ao projeto do governo de construir hidrelétricas no rio Tapajós.
A fachada da Câmara foi grafitada com frases de protesto como "Não queremos barragens", "viva o Tapajós", "respeitem nosso direito" e "nossa palavra é que vale".
Repressão no Tapajós
Dentro do plenário, lideranças indígenas discursaram acusando vereadores de estarem tentando dividir o povo Munduruku, espalhando mentiras sobre os acontecimentos."Este é um movimento popular indígena autônomo. Nossa decisão é a decisão do coletivo, dos caciques, das lideranças. E a decisão é de que somos contra as barragens que afetam nosso território”, explicou Valdenir Munduruku aos parlamentares.
“Nossa posição precisa ser respeitada. Ontem, nesta casa, alguns vereadores criticaram nosso movimento. A gente veio aqui [na Câmara] pra deixar um recado bem claro: se vocês não podem nos ajudar, também não atrapalhem", disse.
Para o povo Munduruku, os parlamentares tem sido usados pelo governo federal e pelos empreendedores para forçar a viabilização de projetos hidrelétricos em território indígena e tradicional, mesmo sem ter havido consulta - e mesmo com o posicionamento público das comunidades contrário ao empreendimento. "Vocês não precisam vir falar de compensações, vir falar que as hidrelétricas vão trazer saúde e educação, porque saúde e educação são direitos nossos que não vamos negociar a troco de hidrelétricas", argumentou a liderança.  

[Fonte: sitio do Cimi (23.6.2013)]



 

 A dança dos vencedores
 
 

  
  
 
  
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Quem protesta pela gari Cleonice de Moraes que morreu ao inalar gás lacrimogêneo após protesto em Belém?



O spray não estava vencido, mas venceu
 
 

A gari Cleonice Vieira de Moraes, 54, morreu na manhã dsta sexta-feira (21) em Belém (PA), após ter inalado gás lacrimogêneo lançado pela Polícia Militar durante confronto com manifestantes no dia anterior. Esta é a segunda morte decorrente da escalada de protestos que começou há duas semanas.
A vítima trabalhava na limpeza noturna do centro de Belém. Ontem, durante a radicalização dos protestos em frente à prefeitura da cidade, Cleonice e outros trabalhadores se protegeram dentro do monumento de um bonde restaurado para visitação turística na cidade.
 
Após a explosão das bombas, a gari passou mal, teve uma parada cardíaca e foi socorrida. A vítima tomava remédios controlados para hipertensão. A Secretaria de Saúde de Belém informou que as paradas cardíacas que levaram Cleonice à morte ocorreram por causa do susto provocado pelo tumulto.
Uma colega de trabalho da vítima, que a acompanhava no momento em que se sentiu mal, conta uma versão diferente. "Nós estávamos todos conversando lá, estávamos tranquilos. Quando aquele gás que parecia pimenta começou a arder nos olhos da gente, todo mundo passou mal, e foi aí que a Cleonice começou a tossir, tossir, sem conseguir respirar direito e chamaram uma ambulância". A colega de trabalho da vítima pediu para não ser identificada com receio de sofrer represálias no trabalho.

 

O secretário de Saneamento de Belém, Luiz Otávio Mota, disse que os trabalhadores não foram obrigados a permanecer no local mesmo com os confrontos. "Não existiu essa ordem, de acordo com as informações que nós temos. O que aconteceu foi uma grande fatalidade", afirma o secretário. Ele disse que as circunstâncias da morte ainda serão melhor avaliadas.
O spray não estava vencido, mas venceu
Procurada, a PM informou que o gás usado não estava vencido e que somente depois de um laudo médico será possível dizer se há alguma responsabilidade da polícia na morte da gari.
Cleonice vivia com os três filhos, de 27, 25 e 23 anos de idade, no bairro de Val-de-Cães, periferia de Belém. Há um ano e dois meses, foi aprovada em concurso municipal para a vaga de gari. Antes disso, trabalhava como diarista.

 

Vem pra rua vem – O hino da revolução de Cairo e São Paulo


 

Tamim al Barghouti
O hino que jovens entoaram por dias a fio na praça Tahrir, no Cairo, surgiu como poesia pelas mãos do escritor e cientista político palestino Tamim al Barghouti, 35.
Barghouti foi anunciado como convidado da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que começa no dia 3 de julho. Desembarcará num país diferente daquele que o convidou -- dados os últimos acontecimentos, sua experiência não soa mais tão estrangeira em território nacional.
"O aspecto mais magnífico e o mais exaustivo dessa revolução é que não possui líderes", diz, sobre os protestos no Egito, embora pudesse estar falando dos nossos. "Portanto, não pode ser derrotada, mas também não pode governar. Não podemos dizer esse é o nosso líder', fazer-lhe presidente, mas podemos dizer: Aqui estamos, aos milhões. Quem for presidente terá de responder a nós. Poderemos decidir, se necessário, nas ruas."
Não tem sido tão fácil por lá, é verdade. Eleito democraticamente há um ano, o islamita Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, enfrenta o mesmo tipo de fúria que derrubou seu antecessor, o ditador Hosni Mubarak, após duas décadas no poder. A frágil economia do país e a nova sensação de força popular fizeram com que as pessoas nunca deixassem de protestar.
Barghouti acha difícil comparar a situação no Oriente Médio com a de outros países nos quais a população também foi às ruas nos últimos anos.
 
 Barghouti responde numa entrevista a Pedro Sprejer/Globo:
 
 Como a poesia contribuiu com a Primavera Árabe, e como o movimento tornou a poesia mais popular nos países árabes?
 Uma coisa que as revoluções no mundo árabe fizeram foi que todos agora escrevem ou tentam escrever poesia, e todos querem escutá-la. Note que eu digo “escutar”, pois em nossa parte do mundo preferimos ouvir poesia do que apenas ler. A poesia também esteve presente nas revoluções árabes na maneira surpreendente como elas se organizaram. Ao contrário de revoluções com base em estruturas piramidais de partidos revolucionários clássicos ou golpes de Estado, os manifestantes que tomaram as ruas do Cairo e de Túnis não tinham qualquer central de comando ou liderança designada. [...] Nos 18 dias da revolução egípcia, os 20 milhões de egípcios nas ruas foram capazes de gerenciar a segurança, administrar os suprimentos e gerenciar a comunicação sem ter qualquer ministério constituído. E o mais importante é que eles foram capazes de gerenciar a defesa e as relações exteriores tão bem que os militares e os EUA não tiveram como manter o presidente Mubarak. A revolução em si foi, portanto, um ideal, um poema, uma proeza de imaginação capaz de derrubar a realidade concreta desprovida de imaginação instalada pelo colonialismo.
 
O seu poema “Em Jerusalém” parece evocar um sentimento de exclusão. Porque tantos se identificaram com tais versos?
 
 
 
 
Porque quase todo árabe é um palestino. E Jerusalém sempre foi a cidade que pertence àqueles que são excluídos dela, aos que não estão autorizados a chegar lá. Jerusalém é um daqueles lugares associados ao martírio, ao triunfo dos oprimidos. Os reis de Jerusalém devem ser aqueles com coroas de espinhos e não aqueles com coroas de ouro e cabeças nucleares. O problema na Palestina não está na presença de pessoas de diferentes credos, a Palestina é uma terra com um significado simbólico para muitas culturas e religiões.
O problema acontece, como sempre, quando um grupo de pessoas pensa que tem mais direitos. Qualquer homem ou mulher da fé judaica pode se tornar um cidadão de Israel, palestinos que foram expulsos de suas casas pelas forças israelenses em 1948 não estão autorizados a voltar. Se os palestinos se tornassem judeus amanhã, eles seriam autorizados a voltar. A razão pela qual eles estão em campos de refugiados é que eles parecem ter a religião errada! A exclusão dos palestinos por parte de Israel não é apenas uma ofensa contra eles, mas contra os árabes, os muçulmanos, os cristãos e todos que acreditam na igualdade humana.
 
Mais de dois anos depois, a energia da Primavera Árabe se dissipou?
 As revoluções árabes ainda podem evoluir se evitarmos uma guerra civil total entre sunitas e xiitas na Síria, Líbano e Iraque. Uma guerra financiada, armada e apoiada pelos EUA, Otan e Arábia Saudita. Com isso, seremos capazes de livrar todo o Oriente Médio da hegemonia americana. Se não fosse pela catástrofe da Síria, as revoluções árabes poderiam ter realizado seu potencial de reorganizar o equilíbrio global de poder e acelerar a transição de um sistema mundial unipolar para outro multipolar.
 
Ainda há esperança?
Acho que há. Afinal, no Iraque e na Síria, os americanos mudaram seu apoio entre sunitas e xiitas tantas vezes que hoje há pouca confiança neles. As pessoas estão se tornando cada vez mais conscientes de que esta é a clássica tática de dividir para reinar, nada de novo. Além disso, se as coisas ficarem bem no Egito, o resto da região o seguirá. As coisas não estão indo bem agora, mas vão dar certo, pois todas as condições estruturais estão lá. Você tem uma população cada vez mais engajada, ativa e consciente, e um aparato de segurança enfraquecido, que não pode oprimir em larga escala. E os EUA, que não estão em posição de impor violentamente a sua hegemonia. O Egito vai se libertar da influência americana, e junto com o Irã e a Turquia será capaz de reorganizar o Oriente Médio.

O paradigma Gorender: militante da causa dos pobres, traído pelas organizações políticas, fiel aos seus ideais humanitários – morreu de pé, como uma árvore.




Morreu nesta terça-feira (11), em São Paulo, o historiador e militante comunista Jacob Gorender. Nascido em Salvador, em 1923, Jacob escreveu livros como de "O escravismo colonial" e "Combate nas trevas", sobre a resistência à ditadura militar. Em 1970 foi prisioneiro político do DOI-Codi, onde foi torturado. Foi traído pelas organizações que, aparentemente, amparavam seus ideais, mas Gorender permaneceu um destes imprescindíveis da espécie humana que nunca traiu seu ideais. 
 
de Eugênio Bucci
[jornalista e professor da Eca-Usp e da Espm,
em O E.d.S.P. 13.06.2013]
 
 
Morreu nesta terça-feira (11.06.), aos 90 anos, o militante comunista, historiador e intelectual Jacob Gorender. A voz aguda, contida, quase delicada, não denunciava a fortaleza moral e o texto destemido que marcaram seu caráter. Gorender não se dobrou a nada - não se dobrou ao dinheiro, não se dobrou à pobreza, não se dobrou às chantagens psicológicas dos camaradas patrulheiros, não se dobrou à força bruta. É desses que deixam por biografia uma linha reta e austera. Seguiu seu próprio pensamento, seu próprio juízo, e nos legou uma obra essencial.
 No final da década de 80, quando fui editor da revista Teoria & Debate (uma publicação trimestral ligada ao diretório paulista do Partido dos Trabalhadores), tive a honra de me aproximar desse grande homem. A primeira lembrança que guardo dele é o espírito crítico. Naquele tempo, quando a ortodoxia fanática ainda ditava - por inacreditável que possa parecer - a postura da militância de esquerda, com uma descabida reverência em relação a nomes de criminosos como Joseph Stalin, Gorender ensinava a autonomia intelectual e a razão livre, atributos que carregava pelo menos desde os anos 50 e que lhe cobraram um preço demasiadamente alto.
Em 1990, ele concedeu a Alípio Freire e a Paulo de Tarso Venceslau uma entrevista que publicamos com destaque na Teoria & Debate. Num trecho particularmente saboroso de seu depoimento, Gorender contou um caso que ilustra muito bem a idolatria da mentalidade que vicejava em certos ambientes comunistas. Na década de 50, fora enviado pelo Partido Comunista à União Soviética (PCUS) para integrar um programa de estudos marxistas. Estava em Moscou quando a cúpula bolchevique começou a revelar os chamados "crimes de Stalin", que dariam o tom dos debates no 20.º Congresso do PCUS, em 1956. Em reação àquelas denúncias, facções de stalinistas começaram a negar sistematicamente as barbaridades pelos próprios dirigentes soviéticos.
 Passemos a palavra a Jacob Gorender: "Durante o curso (que fazia em Moscou), realizou-se o 20.º Congresso do PC da União Soviética. O (Diógenes de)Arruda foi ao congresso como representante brasileiro, e a ele se juntaram (Maurício)Grabois e Jover Telles, participantes do curso em Moscou. Para nossa surpresa, o jornal Pravda começou a publicar artigos e discursos de vários dirigentes com críticas a Stalin. Depois, veio o famoso informe confidencial de Kruchev. Não o lemos porque não nos foi distribuído. Só circulava dentro do âmbito do próprio PCUS. Mas nós ouvimos conferências de professores que nos transmitiram seu conteúdo. O informe fez a primeira revelação oficial de parte dos crimes de Stalin. Esse congresso vai abalar o PCB. Em maio de 1956, o informe foi publicado na íntegra pelo The New York Times e pelos grandes jornais do mundo inteiro. Aqui no Brasil ele foi, a princípio, declarado falso pelos comunistas. Porém, Arruda, ao regressar da viagem, confirmou a autenticidade do documento".
 Na ocasião, os militantes do PCB liam aqui, neste jornal, as notícias que desmascaravam as engrenagens genocidas da burocracia stalinista e achavam que tudo não passava de uma campanha difamatória engendrada pelo imperialismo. Não era possível, diziam. Aquilo só poderia ser uma falsificação, só poderia ser propaganda anticomunista. Ficaram chocados quando os delegados brasileiros ao 20.º Congresso começaram a voltar e confirmaram: o material que a imprensa burguesa publicava era apenas a verdade. Foram tempos traumáticos para os marxistas, um mundo de utopias desmoronava. Gorender teve, ainda, uma decepção extra. Em sua volta de Moscou, fez escala na Hungria, onde viu a invasão dos tanques soviéticos oprimindo a nação, que tentava se sublevar. Tornou-se ainda mais avesso aos burocratas, mas não arredou pé do sonho de igualitarismo, pelo qual também pagou muito caro.
Em 1967 foi expulso do PCB. Criou o PCBR. Em 1970 foi preso e condenado a cumprir pena de dois anos. Como tantos outros, foi torturado. Durante o encarceramento, conseguiu manter uma atividade profissional regular, que permaneceu em segredo até muito recentemente. De dentro de sua cela na prisão, atuou como consultor e tradutor das coleções Os Pensadores e Os Economistas, então publicadas pela Abril Cultural, cujo diretor era Pedro Paulo Poppovic. Dona Idealina, esposa de Gorender, servia de intermediária. Ela saía do presídio, após visitar o marido, carregando uma dessas sacolas que as donas de casa usavam para ir à feira, cheia de laudas. Eram textos traduzidos do alemão ou do francês que, depois, em páginas de livro, abasteceriam a cabeça e a imaginação dos leitores. Naturalmente, aquele trabalho, embora remunerado, não teve crédito, posto que era feito na clandestinidade, mas uma das edições de O Capital da Abril Cultural, esta com o selo da coleção Os Economistas, teve a (longa) introdução assinada por Jacob Gorender.
Quando frequentava a redação de Teoria & Debate, ainda se dizia comunista, sem a menor hesitação, mas não pactuava com qualquer forma de opressão do pensamento. Seguiu seu destino, em sua linha reta. Seu livro Combate nas Trevas, de 1987, que reconstitui a saga das organizações de esquerda se esfacelando e se reagrupando em siglas intermináveis durante os anos de repressão mais sangrenta, inscreve-se como um marco inaugural na tentativa, ainda inconclusa, de desvelar uma história sombria: a história das torturas e dos assassinatos praticados por agentes públicos contra cidadãos desarmados, imobilizados e indefesos.
Gorender encarou trevas espessas: as do stalinismo, as da ditadura militar e as do fanatismo, do mais comezinho ao mais totalizante. Deixa uma herança de luz. Foi generoso e acolhedor com aqueles que eram menores, muito menores do que ele. Foi uma prova de que a humanidade pode ser melhor do que é. Venceu seu combate, embora ainda haja trevas a combater.

No nos moveran - Joan Baez
 
 

“Nossa luta apenas começou”, afirma liderança Munduruku



Valdenir Munduruku
Os 144 índios Munduruku, que passaram mais de uma semana em Brasília tentando convencer o governo a interromper todos os empreendimentos hidrelétricos em obras ou em estudo na Amazônia, estão regressando ao seu estado, o Pará.

A reportagem é de Alex Rodrigues e publicada pela Agência Brasil, 13-06-2013.
 O grupo, que ocupou a sede da Fundação Nacional do Índio (Funai) na segunda-feira (10) - chegando a impedir a entrada de servidores durante toda a terça-feira (11) - partiu da Base Aérea de Brasília no início da tarde de hoje (13), a bordo de dois aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).
Os munduruku estavam em Brasília desde a terça-feira (4) da semana passada, quando desocuparam o principal canteiro da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e aceitaram a proposta de se reunir com representantes do governo.


 A principal reunião, com o ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, ocorreu no mesmo dia que os índios chegaram a Brasília, trazidos em aviões da FAB. Ao fim da conversa com os índios, o ministro afirmou que o governo vai ouvir as comunidades afetadas pelos empreendimentos. Ele disse aceitar todas as formas de protesto democrático, mas que as obras em Belo Monte não seriam interrompidas e que a segurança no local seria reforçada.
Segundo uma das lideranças dos índios, Valdenir Munduruku, a articulação indígena destinadas a paralisar as iniciativas de aproveitamento dos rios Xingu, Teles Pires, Tapajós e Madeira, entre outros, não foi encerrada.
 
Munduruku em vigília em frente ao Palácio do Planalto
“Nossa luta apenas começou. Estamos retornando para nossa comunidade [onde] vamos nos fortalecer e nos aliar com outros parentes [povos indígenas] para, juntos, combatermos esse desrespeito do governo federal com nossa cultura, nossa crença e nossos direitos”, declarou Valdenir, pouco antes de o grupo partir. “Outros povos estão se juntando a nós para combatermos não só Belo Monte, mas também Teles Pires e todas as usinas que estão sendo construídas sem que sejamos consultados”, disse.
Conforme havia dito ontem (12), durante entrevista à Rádio Nacional Amazônia, da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), Valdenir garantiu que, a menos que o governo federal interrompa a execução das obras e estudos, os mundurukus não voltarão a dialogar.
“O que o governo quer, nós não queremos. Ele quer ir a nossa terra dizer que vai construir hidrelétricas e ver o que queremos em troca. E nós não queremos nada em troca. Queremos nosso rio livre e nossa natureza preservada”, declarou Valdenir.
Ao ser perguntado sobre a morte de mais um índio em Mato Grosso do Sul, o líder munduruku criticou a demora na demarcação ou homologação de novas terras indígenas no Mato Grosso do Sul. “Falta à Funai e aos governos [federal e estadual] tomarem providências antecipadas para que isso não aconteça. Esses índios estão morrendo enquanto lutam para reaver suas terras”.
Nessa quinta-feira, o delegado Rinaldo Gomes Moreira, responsável por investigar o assassinato, a tiros, do índio guaranis-kaiowás Celso Figueiredo, adiantou à Agência Brasil que os depoimentos prestados pelo pai e pela irmão da vítima sugerem que o crime não seja resultado dos conflitos por terras que, só no último mês, deixaram um índio morto  e outro gravemente ferido em Mato Grosso do Sul.
Em maio, logo após o assassinato de Osiel Gabriel, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, classificou os episódios de violência contra índios sul-mato-grossenses como uma “lamentável” consequência da judicialização a que estão sujeitos os processos demarcatórios de terras indígenas.
 
Ex-ministro de Lula diz que Gleisi está 'alinhada' com fazendeiros

 
(F.d.S.P. 14.6.2013 – A8)
 O ex-ministro da Secretaria de Direitos Humanos no governo Lula, Paulo Vannuchi, disse nesta quinta-feira (13) que a equipe da presidente Dilma Rousseff está dividida na questão indígena e que a ministra-chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, está "visivelmente" alinhada com os fazendeiros.
Recém-eleito para compor a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA (Organização dos Estados Americanos), Vannuchi afirmou ainda que Gleisi deu declarações "praticamente exigindo a demissão da presidente da Funai, Marta Azevedo, [...] um problema porque se costuma manter respeito às diferentes áreas de atribuição [dentro do governo]".
A Funai é vinculada ao Ministério da Justiça, cujo titular é o ministro José Eduardo Cardozo. No último dia 7, Azevedo pediu demissão alegando problemas de saúde. Sua saída ocorreu uma semana após a morte de índio terena Oziel Gabriel no município de Sidrolândia (MS).
As declarações de Vannuchi em meio às discussões no governo acerca de novo modelo de demarcação de terras indígenas foram veiculadas pela "Rádio Brasil Atual", emissora que integra sistema de comunicação de sindicatos ligados à CUT (Central Única dos Trabalhadores).
"Visivelmente, a ministra-chefe da Casa Civil [Gleisi Hoffmann], com seu poder de coordenação interministerial, tem se alinhado sistematicamente com o ponto de vista dos fazendeiros", disse ele.
"Ela (Gleisi) é do Paraná, região onde essa agricultura, a agroindústria, é muito desenvolvida, os fazendeiros são muito fortes. Ela é provável candidata a governadora do Paraná no ano que vem." [...]
No final de sua intervenção na qual é apresentado como analista político da emissora, ele afirmou que "a divisão [dentro do governo] deixa a população indígena sem saber se o governo Dilma segue realmente seu compromisso histórico de alinhamento com os mais pobres".
Depois de falar sobre a importância da produção agrícola para o país, ele finalizou dizendo que ela "não pode ser feita sobre cadáveres da população indígena".
Gleisi afirmou ontem, por meio de sua assessoria, que sua posição não é pessoal, mas de governo. [...]

Papa Francisco com a CLAR (6 de junho): um diálogo sensacional



En un gesto sin precedentes, el Papa Francisco recibió y dialogó durante una hora con la directiva de la Confederación Latinoamericana y Caribeña de Religiosas y Religiosos (CLAR). Conversaron ubicados en círculo, entre iguales, como era en las primeras Comunidades fundadas por Jesús...
 En un ambiente de confianza y sencillez, Francisco instó a los líderes de la CLAR a que no tengan miedo de continuar llevando su misión a los límites y las fronteras... "¡Coraje! ¡Avanzad para nuevos horizontes! No tengan miedo de correr riesgos yendo a los pobres y los nuevos sujetos emergentes en el continente", señaló el Papa Bergoglio, quien al final del encuentro agradeció enfáticamente a la vida religiosa ser "señal y testimonio del Evangelio" en muchos lugares de América Latina y Caribe.
 
 


 Eis a síntese deste histórico encontro  do dia 6 de junho:
 
 
Se van a equivocar, van a meter la pata, ¡eso pasa! Quizá hasta les va a llegar una carta de la Congregación para la Doctrina (de la Fe) diciendo que dijeron tal o cual cosa… Pero no se preocupen. Expliquen lo que tengan que explicar, pero sigan adelante… Abran puertas, hagan algo ahí donde la vida clama. Prefiero una Iglesia que se equivoca por hacer algo que una que se enferma por quedarse encerrada …
 ·         (sobre su elección) No perdí la paz en ningún momento, ¿saben? Y eso no es mío, yo soy más de preocuparme, de ponerme nervioso… Pero no perdí la paz en ningún momento. Eso me confirma que esto es de Dios…

·         (al reflejarle la esperanza que nos han traído sus gestos de este tiempo, hace referencia a haberse quedado a vivir en Santa Marta) …estos gestos… no han venido de mí. No se me han ocurrido a mí. No es que yo trajera un plan, ni que me haya hecho uno en cuanto me eligieron. Lo hago porque sentí que era lo que el Señor quería. Pero estos gestos no son míos, hay Otro aquí… eso me da confianza…

Yo venía con la ropa justa, la lavaba en la noche, y de repente esto… ¡Si yo no tenía ninguna posibilidad! En las apuestas de Londres estaba en el lugar 44, fíjense ustedes, ¡el que apostó por mí ganó muchísimo, claro…! Esto no viene de mí…
 ·         Hay que dar vuelta la tortilla. No es noticia que en Ottaviano muera un anciano de frío en la noche, o que haya tantos niños sin educación, o con hambre, pienso en la Argentina… En cambio, las principales bolsas del mundo suben o bajan 3 puntos y eso es un acontecimiento mundial. ¡hay que darlo vuelta! No puede ser. Las computadoras no están hechas a imagen y semejanza de Dios; son un instrumento, sí, pero no más. El dinero no es imagen y semejanza de Dios. Sólo la persona es imagen y semejanza de Dios. Hay que darlo vuelta. Ese es el evangelio.
·         Hay que ir a las causas, a las raíces. El aborto es malo, pero es que eso está claro. Pero qué hay detrás de aprobar esa ley, qué intereses están detrás… son a veces las condiciones que ponen los grandes grupos para apoyar con dinero, ¿saben ustedes? Hay que ir a las causas, no nos podemos quedar sólo en los síntomas.
 
No tengan miedo de denunciar… lo van a pasar mal, van a tener problemas, pero no tengan miedo de denunciar, esa es la profecía de la vida religiosa…
 ·         Yo les comparto dos preocupaciones. Una es una corriente pelagiana que hay en la Iglesia en este momento. Hay ciertos grupos restauracionistas. Yo conozco algunos, me tocó recibirlos en Buenos Aires. ¡Y uno siente que es como volver 60 años atrás! Antes del Concilio… Uno se siente en 1940… Una anécdota, sólo para ilustrar, no es para reírse, yo la tomé con respeto, pero me preocupa; cuando me eligieron, recibí una carta de uno de estos grupos, y me decían; “Santidad, le ofrecemos este tesoro espiritual; 3.525 rosarios”. Por qué no dicen rezamos por usted, pedimos… pero esto de llevar las cuentas… Y estos grupos vuelven a prácticas y a disciplinas que yo viví –ustedes no, porque ninguno es viejo– a disciplinas, a cosas que en ese momento se vivían, pero no ahora, hoy ya no son…
La segunda es por una corriente gnóstica. Esos panteísmos… Las dos son corrientes de elite, pero ésta es de una elite más formada… Supe de una superiora general que alentaba a las hermanas de su congregación a no rezar en la mañana, sino a darse un baño espiritual en el cosmos, cosas así… ¡Me preocupan porque se saltan la encarnación! Y el Hijo de Dios se hizo carne nuestra, el Verbo se hizo carne, y en América Latina tenemos carne para tirar al techo! Qué pasa con los pobres, los dolores, ésa es nuestra carne…
El evangelio no es la regla antigua, ni tampoco este panteísmo. Si mirás a las periferias; los indigentes… ¡los drogados! La trata de personas… Ese es el evangelio. Los pobres son el evangelio...
·         (al reflejarle lo difícil de hacerse cargo de la Curia romana, y de la comisión de cardenales que lo apoyará, etc.) Y, sí… es difícil. En la curia hay gente santa, de verdad, hay gente santa. Pero también hay una corriente de corrupción, también la hay, es verdad… Se habla del “lobby gay”, y es verdad, está ahí… hay que ver qué podemos hacer…
La reforma de la Curia romana es algo que pedimos casi todos los cardenales en las congregaciones previas al Cónclave. Yo también la pedí. La reforma no la puedo hacer yo, estos temas de gestión… Yo soy muy desorganizado, nunca he sido bueno en esto. Pero los cardenales de la comisión la van a llevar adelante. Ahí está Rodríguez Maradiaga, que es latinoamericano, que lleva la batuta, está Errázuriz, son muy ordenados. El de Munich también es muy ordenado. Ellos la llevarán adelante.
·         Oren por mí… que me equivoque lo menos posible…
·         Aparecida no terminó. Aparecida no es solo un documento. Fue un acontecimiento.
Aparecida fue algo distinto. Partiendo porque no tuvo documento de trabajo. Tuvo aportes, pero no un documento. Y al terminar tampoco tenía un documento, si el día anterior a terminar teníamos 2.300 “modos”… Aparecida envío a la misión continental. Ahí termina Aparecida, en el impulso a la misión.
Lo que tuvo Aparecida de especial es que no se celebró ni en un hotel, ni en una casa de retiros… se celebró en un Santuario mariano. En la semana celebrábamos la eucaristía y había unas 250 personas, porque era día normal de trabajo. Pero los fines de semana eso estaba lleno…! El pueblo de Dios acompañaba a los Obispos, pidiendo el Espíritu Santo…
Yo veía –lo nombro a él porque lo veo más estirado, más así, es bueno, pero es así– veía al prefecto, a João, que salía con su mitra, y la gente se acercaba, y le acercaban a los niños, y él saludaba, y los abrazaba así… Ese mismo obispo después votaba. ¡No puede haber votado igual que si hubiera estado en un hotel!
Teníamos las salas de reuniones debajo del Santuario. Así que la música de fondo eran los cantos, las celebraciones en el Santuario… Eso dio algo muy especial.
 ·         Hay algo que me preocupa, aunque no sé cómo leerlo. Hay congregaciones religiosas, grupos muy, muy pequeños, unas pocas personas, gente muy mayor… No tienen vocaciones, qué sé yo, el Espíritu Santo no quiere que sigan, quizá han cumplido ya su misión en la Iglesia, no sé… Pero ahí están, aferradas a sus edificios, aferradas al dinero… Yo no sé por qué pasa esto, no sé cómo leerlo. Pero les pido que se preocupen de esos grupos… El manejo del dinero… es algo que necesita ser reflexionado.
·         Aprovechen este momento que vivimos en la Congregación para la Vida Consagrada… Es un momento de sol… Aprovechen. El Prefecto es bueno. ¡Y el Secretario, que fue “lobbyado” por ustedes! No, en realidad, siendo el presidente de la USG, ¡lo lógico era que fuera él! Qué mejor…
 ·         Pongan todo su empeño en el diálogo con los Obispos. Con el CELAM, con las conferencias nacionales… Yo sé que hay algunos que tienen otra idea de la comunión, pero… Hablen, conversen con ellos, díganles…
 

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Projeto de Lei da terceirização, um projeto de precarização para os trabalhadores



“O que na realidade os empresários querem é reduzirem os custos com a mão de obra e aumentarem as suas taxas de lucro sem correr nenhum risco de punição. É disso que trata o Projeto de Lei 4.330”. O comentário é de Cesar Sanson, professor de sociologia da UFRN e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, sobre o Projeto que regulamenta a terceirização.
 
Eis o artigo.
 
O capital não desiste de suas tentativas de desregulamentar a legislação do trabalho. Agora assistimos a mais uma ofensiva dos empresários, o Projeto de Lei 4.330, que regulamenta a prática da terceirização no país. A ladainha dos patrões é sempre a mesma, ou seja, a de que os custos do trabalho no país são altos e que é preciso flexibilizar as leis de proteção ao trabalhador.
Pior ainda, defendem os argumentos da flexibilização afirmando que gerará mais empregos. Mentira! No caso da PL 4.330, de autoria do empresário Sandro Mabel (PMDB-GO), o argumento voltou à tona. Afirmar que a terceirização gera emprego é um mito.
 
A terceirização apenas aumenta a rotatividade e precariza as relações e condições de trabalho. Estudo do Dieese mostra que o trabalhador terceirizado fica 2,6 anos a menos no emprego, tem uma jornada semanal de trabalho de três horas a mais e ganha 27% menos.
Serve ainda de mecanismo de desrespeito aos direitos dos trabalhadores. Todos sabem que as empresas que contratam trabalho terceirizado fogem do ônus da responsabilização pelos trabalhadores quando a empresa a que estão subordinados deixa de cumprir os direitos trabalhistas. Tanto isso é verdade que em alguns casos, o Tribunal Superior do Trabalho (TST) responsabiliza a contratante da terceirizada no caso do não cumprimento dos direitos.
O que na realidade os empresários querem é reduzirem os custos com a mão de obra e aumentarem as suas taxas de lucro sem correr nenhum risco de punição. É disso que trata o Projeto de Lei 4.330, ou seja, os empresários querem aumentar a sua taxa de mais valia – para usar a velha categoria marxista – com segurança jurídica.
É preciso lembrar ainda que o crescente número de lesões, doenças ocupacionais e mortes do trabalho no Brasil ocorrem em empresas que utilizam trabalho terceirizado. Segundo o Dieese, a cada 10 acidentes de trabalho, oito ocorrem entre terceirizados. O trabalho terceirizado além de pagar pouco, causa sofrimento aos trabalhadores.
Menos mal que as centrais sindicais reagiram e têm afirmado que não aceitam a aprovação desse projeto de Lei. As centrais, inclusive, colocaram esse projeto no topo das suas prioridades na negociação com o governo. De fato, aprovar essa lei significa fraudar direitos dos trabalhadores.