Prémio Nobel Alternativo para D. Erwin Kräutler

D. Erwin Kräutler, bispo de Altamira (PA) e presidente do Cimi, é um dos quatro ganhadores do Prêmio Nobel Alternativo (Right Livelihood Awards 2010). O Prémio foi criado em 1980 “para homenagear e apoiar aqueles que oferecem respostas e exemplos práticos para os desafios mais urgentes que enfrentamos hoje”.
Este ano, o número de candidatos alcançou um novo recorde: 120 propostas de 51 países. D. Erwin partilha o prêmio com o nigeriano Nnimmo Bassey, que "revelou os horrores ecológicos e humanos na produção de petróleo", o nepalês Shrikrishna Upadhyay e a organização SAPPROS, que mostraram “ao longo dos anos o poder da mobilização comunitária para enfrentar as múltiplas causas de pobreza" e a organização israelense "Médicos para os Direitos Humanos", que ganhou o prêmio, segundo o júri, “por seu espírito indomável para trabalhar pelo direito à saúde de todas as pessoas em Israel e na Palestina”.
Segundo a comunicação oficial da Fundação Right Livelihood, de 30 de setembro, D. Erwin receberá o prêmio, numa Cerimônia no Parlamento sueco, em Estocolmo, no dia 6 de dezembro, "por uma vida dedicada ao trabalho com direitos humanos e ambientais dos povos indígenas, e por seu incansável esforço para salvar a Amazônia da destruição".
Jakob von Uexküll, fundador e co-presidente da Fundação que outorga o prêmio, comentou após a decisão do júri:
“A verdadeira mudança começa no nível da base: os médicos que não esperaram pelos políticos para agirem e acabarem com o sofrimento desnecessário no Oriente Médio; os moradores que trabalham para saírem da pobreza; e movimentos ambientalistas que reúnem vítimas da devastação ecológica. Combine o trabalho de base com a advocacia focada, como por exemplo, os direitos constitucionais dos povos indígenas, e você entenderá porque os Laureados deste ano voltam ainda a oferecer modelos de conduta, cujo trabalho e compromisso podem ser replicados em todo o mundo”.
Para D. Erwin, a alegria de receber o prêmio é muito grande. “Não estou feliz em meu nome, mas por causa da Amazônia e dos povos indígenas que merecem esse reconhecimento!”
Fotos mostram os premiados D. Erwin Kräutler e Nnimmo Bassey.

Missão e Povos Indígenas

Os povos indígenas não entraram pela porta dos fundos ou pela janela, neste 2º Congresso Missionário Regional Oeste 2 da CNBB, que se realizou em Dourados. [...] Na oficina “Missão e Povos Indígenas” eles protagonizaram momentos memoráveis ao manifestarem com convicção e clareza a dureza de suas vidas ameaçadas, suas terras negadas. [...]. No documento produzido na oficina, os participantes de todas as dioceses do estado do Mato Grosso do Sul, expressaram seu ardente desejo de que os cristãos, desde os fiéis leigos, os sacerdotes, os religiosos e religiosas até os bispos assumam com amor, ardor e profetismo a causa dos povos indígenas. Essa é uma causa evangélica, de Jesus da cruz, do conflito. Por causa de sua mensagem e testemunho de vida, foi assassinado. O assessor da oficina, teólogo Paulo Suess, que dias antes visitara vários acampamentos e aldeias Kaiowá Guarani da região, insistiu na importância de nós como cristãos, termos a coragem de assumir essa causa, que é a do Cristo da cruz e da ressurreição.[...]
Pe, Estevão, que fez uma reflexão sobre a missão hoje, se referiu à missão e causa indígena dizendo “A metade dos assassinatos de indígenas no ano passado aconteceram aqui. E 100% dos suicídios de indígenas aconteceram aqui. Então como podemos celebrar a Eucarisitia, diante dessa realidade?”

Desafios e compromissos
Diante dessa realidade foi sugerido a formação de pastorais indigenistas em todas as dioceses. E que estas sejam críticas, dinâmicas, criativas e proféticas. [...]
Foi destacado a atitude da CRB (Conferência dos Religiosos no Brasil) regional MS, que assumiu a causa indígena como prioridade de sua ação e está ajudando viabilizar a presença e atuação de uma comunidade de irmãs junto aos povos indígenas no regional.
Autor: Egon Heck
E agora Dourados?
Replay ou novo compromisso?

O que vai acontecer depois do II Congresso Missionário do Mato Grosso do Sul? Haverá uma nova presença missionária ao lado dos povos indígenas, uma formação missionária dos presbíteros e uma voz profética face aos conflitos de credibilidade pública.

Não só os povos indígenas, também os jovens precisam ser melhor acompanhados. Na apresentação do resumo de sua Oficina n. 8 (“Missão e Juventude Missionária”) leram, sob forte aplauso, uma suposta “Carta de João Paulo II aos Jovens”. A dita carta – uma mistura de um falso pentecostalismo com um verdadeiro consumismo - é expressão de uma missão light. Por desconhecer a cruz, tampouco anuncia ressurreição. Ao pregar uma missão sustentável, se torna presença missionária insustentável.
Vejamos alguns trechos dessa carta falsificada:
“Precisamos de Santos sem véu ou batina.
Precisamos de Santos de calças jeans e tênis.
Precisamos de Santos que vão ao cinema,
ouvem música e passeiam com os amigos.
Precisamos de Santos que coloquem Deus em primeiro lugar,
mas que se "lascam" na faculdade. [...]
Precisamos de Santos que bebam Coca-Cola
e comam hot dog, que usem jeans,
que sejam internautas, que escutem disc man.
Precisamos de Santos que amem a Eucaristia
e que não tenham vergonha de tomar um refri
ou comer pizza no fim-de-semana com os amigos [...]”.
Sejamos santos!”
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Adeus missão colonial!
Boa viagem missionárias e missionários!
Missão insustentável e colonialismo replay não!
Missão caminho, memória e conversão
a cada dia!
Frases do dia na oficina
“Missão e Povos Indígenas”
(24.9.2010)
“Fomos três vezes despejados, não pela justiça, mas pelos fazendeiros. Voltamos uma quarta vez. Não queremos qualquer fazenda. Não procuramos terra ociosa. Retornamos a nossa terra sagrada” (Eliseu Lopes, de Kurusu Ambá).
“O branco não respeita a Lei que fez”.
“O acampamento indígena, entre o arame farpado da fazenda e o asfalto da estrada, é como uma universidade; nas noites mal dormidas e por baixo da lona preta pode-se aprender muito”. “Retomada significa retorno à terra sagrada”.
“Nossas armas são as flechas. O fazendeiro sabe que não é dono desta terra.
Mas, ele tem uma arma poderosa, o dinheiro”.
“Precisamos transformar o respeito em reconhecimento e o reconhecimento em amor!”
“A Igreja não é juíza dos povos indígenas, mas a sua advogada”
(cf. DAp 533, 395).

II Congresso Missionário do Mato Grosso do Sul

Depois das nossas andanças pelas aldeias indígenas do Mato Grosso do Sul, a equipe do Cimi está participando do II Congresso Missionário do Regional Oeste 1 da CNBB. Estamos assessorando a Oficina 8 “Missão e povos indígenas”. Entre os 65 participantes dessa oficina haverá uma boa presença de líderes indígenas que introduzirão os participantes na realidade amarga de sua vida cotidiana. Segundo os organizadores, todos os temas devem ser tratados numa perspectiva da Missão Continental só uma vez mencionada no Documento de Aparecida (DAp 551).

Qual é o sentido da Missão Continental?
1. O continente latino-americano se une para lembrar o significado da missão. Missão latino-americana era missão colonial. Por conseguinte, o Continente começa a pensar estratégias e pedagogias para romper com a missão colonial e neocolonial e para curar os traumas dessa colonização.
2. Missão continental não significa “missão regional”. A missão sempre é universal, visa a todos integralmente. Missão significa ir além-fronteiras.
3. A missão continental acompanha a integração latino-americana. Essa integração visa soberania, não hegemonia; visa, com os dons específicos da América Latina, servir (diaconia!) às outras nações até os confins do mundo (ver, por exemplo, a situação dos Mapuche no Chile, acesse: www.adital.org.br).
4. Com a força do Evangelho e o horizonte do Reino de Deus procuramos romper com o sistema, que explora, e criar uma contra-cultura. Contra os valores hegemônicos da acumulação, do consumo e da aceleração, nossa missão – para o bem viver de todos – visa despojamento e partilha. Para a máquina produtiva, que exclui, somos areia e freio de emergência.
Autor: P.S.

Os Guarani-Kaiowá de Y’poí sitiados por milícias

Continuamos nossa caminhada de solidariedade. Na fronteira com Paraguai confirmou-se a notícia do confinamento de mais de 80 Guarani-Kaiowá em seu Tekoha. Desde 19 de agosto os índios de Y’poí, município de Paranhos, MS, estão sitiados num pequeno acampamento por milícias da fazenda São Luiz. Os indígenas lutam pelo reconhecimento de área de ocupação tradicional. Em outubro de 2009, os professores indígenas Genivaldo Vera e Rolindo Vera de sua comunidade desapareceram após uma emboscada de homens armados da fazenda. O corpo de Genivaldo foi localizado em um córrego. A cabeça estava raspada e ele estava coberto de ferimentos. Rolindo até hoje não foi localizado.
Apesar da situação crítica por causa das ameaças físicas, da negação urgente de atendimento médico e alimentar, as lideranças de Y’poí afirmaram que os indígenas sitiados permanecerão na área. A comunidade não suporta mais as meras promessas de demarcação e a lentidão da justiça. O Ministério Público Federal reiterou dia 17 de setembro pedido de liminar à justiça, solicitando a liberação da estrada para atendimento básico à comunidade pelos órgãos públicos, como Funai, Funasa e Polícia Federal. Esse é um direito humano que é respeitado até em situações de guerra. Se o MST bloqueia uma estrada por meia hora, logo chegam helicópteros e unidades de repressão para desobstruir a estrada. Não valeria para os Guarani-Kaiowá de Y’poí a mesma lei?
Acesse video da Globo "MS: Indios e produtores rurais disputam terras de fazenda":
Enquanto estávamos realizando nossa visitas pela região de fronteira, no outro lado do território Kaiowá Guarani, a comunidade de Ita’y, em Douradina, que havíamos visitado uns dias antes, estavam enfrentando mais um ataque dos produtores rurais a seu acampamento.

A CNBB condena violência contra os Guarani-Kaiowá
A Presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou, na tarde do dia 22 de setembro, uma nota pedindo a demarcação das terras do povo Guarani-Kaiowá, no Mato Grosso do Sul. A CNBB repudiou a violência que os indígenas têm sofrido, especialmente nas comunidades Y’poí, no município de Paranhos, e Ita’y Ka’aguyrusu, em Douradina.
“São ataques a mão armada numa brutal intimidação aos habitantes dessas comunidades que se veem não só cerceadas no seu direito de ir e vir como também privadas de bens essenciais à vida como água, comida, educação e saúde”, diz a nota. A CNBB afirma que a situação exige uma solução “rápida, urgente e eficaz” e “dirige um veemente apelo ao Governo para que faça cumprir os dispositivos da Constituição Federal de demarcar as áreas tradicionalmente ocupadas pelos Guarani-Kaiowá”.
Autor: P.S.
video
"Meu Deus é EXALTADO entre as nações!”

A grande volta

Dia 21 de setembro 2010. Percorremos aldeias e acampamentos. Kurusu Ambá, município de Amambai, MS, na fronteira com Paraguai, e Apika'y - Curral do Arame, já perto de Dourados. Novamente a experiência do rio que sempre volta ao seu leito. Os Kaiowá Guarani do Mato Grosso Sul nos dão uma lição de perseverança, a lição da grande volta e da volta grande pelo asfalto, pela escravidão nas fazendas, pela catequização de pastores das mais diversas denominações religiosas e pelas usinas de alcool. Sempre voltam às suas origens, ao seu “teko”, que é lugar e jeito, onde está o seu futuro. A história de Kurusu Ambá é uma história de muitas e dolorosas voltas. Os índios falam em retomadas. Retomam da sociedade brasileira uma parte daquelas terras que lhes foram roubadas, uma parte mínima para a sua sobrevivência.

(Foto: CIMI/MS)
Kurusu Ambá, uma história de expulsão por pistoleiros, de despejos pela justiça, desintegração de posse em favor dos fazendeiros. Pelo empenho de sua organização, o Aty Guasu (Grande Encontro do Povo Guarani Kaiowá), pela lealdade constitucional do Ministério Público Federal e pela presença de grupos de solidariedade conseguiram, em abril 2010, que o juiz-desembargador Silvio concedeu 90 dias (que depois foram prolongados por mais 90 dias) para os encaminhamentos legais para a definição da terra indígena Kurusu Ambá. “Encaminhamentos legais” quer dizer, que um Grupo de Trabalho (GT) deve provar que a terra é desde tempos imemoriais dos índios e definir os limites territoriais. Às vezes, os pistoleiros das fazendas impedem o trabalho desse GT, às vezes (sobretudo neste tempo eleitoral) são ordens superiores da Casa Civil que exigem, por causa do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), uma desaceleração nas demarcações de terras indígenas. Nas aldeias indígenas, o PAC tornou-se PEPI, Programa de Extinção dos Povos Indígenas, flores de Alcapone.
Partindo da comunidade de Kurusu Ambá levamos Angélica com seus dois filhos pequenos, um deles muito doente, à Casa de Saúde em Amambai. Hoje de manhã (22.9.), Inocêncio, líder da comunidade, nos comunicou que a criança com seus três aninhos faleceu. Ainda ontem à noite, o corpo foi levado de volta à aldeia. A grande volta – nem para todos significa vida. Com voz indignada Inocêncio disse que essa morte é também consequência da falta de alimentação, porque há inconstância na entrega da cesta básica. “Na terra, onde estamos, somos proibidos de plantar. As crianças, quando não têm alimento, ficam fracas, pegam doença e morrem”, desabafa Inocêncio.
Apika'y - Curral do Arame. 18 de setembro de 2009, uma hora de madrugada, as casas dos 130 Kaiowá Guarani são assaltadas e incendiadas por 20 milícias dos fazendeiros. O procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida, do Ministério Público Federal (MPF) em Dourados (MS), instaurou inquérito para apurar a agressão sofrida por esses indígenas acampados às margens da BR-483 por mais de 6 anos no trecho que liga os municípios de Dourados e Ponta Porã. Eles reivindicam sua terra conhecida como Tekoha Jukeri'y ou Apika'y.

Histórico
Relatório antropológico elaborado pelo MPF revela que a expulsão dos índios de seus territórios intensificou-se a partir da década de 1950. Os guarani-kaiowá passaram então a ocupar áreas de fundo de fazenda, sendo definitivamente expulsos com a morte do líder Ilário de Souza, em dezembro de 1999, atropelado por um funcionário da fazenda onde estavam acampados.
A última tentativa do grupo de retornar à terra considerada sagrada (tekoha) ocorreu em 17 de junho de 2008. Mais uma vez reocuparam uma parcela do antigo tekoha, na Fazenda Serrana, ao redor da qual gravitavam. Nesta ocasião, eles mantiveram-se dentro da reserva legal de mata da fazenda, vigiados por uma empresa particular de segurança. A Funasa e Funai foram impedidas de prestar atendimento. O relatório aponta que "a difícil condição imposta aos índios resultou na morte de uma anciã, que acabou sendo sepultada na mata. A ocupação durou até cinco de abril de 2009, quando a justiça determinou a reintegração de posse em favor do fazendeiro". Desde então, o grupo está acampado à beira da rodovia.O relatório elaborado pelo Ministério Público Federal é enfático ao afirmar que "crianças, jovens, adultos e velhos se encontram submetidos a condições degradantes e que ferem a dignidade da pessoa humana. A situação por eles vivenciada é análoga à de um campo de refugiados. É como se fossem estrangeiros no seu próprio país".
Acesse YouTube "O Mbaraka contra a cana": http://www.youtube.com/watch?v=3qaWLAZh1cQ&feature=related
Fotos: E. Heck
Autores: P. Suess; E. Heck

O MBARAKA CONTRA A CANA.wmv

Visita à aldeia Passo Pirajú

Em preparação ao II Congresso Missionário da Diocese de Dourados/MS, nossa equipe do Cimi visitou hoje, dia 20 de setembro, a aldeia Passo Pirajú, no rio Dourados. A visita foi marcada pelo depoimento do cacique Carlitos de Oliveira, que esteve preso por um crime que não cometeu. Sua mulher sofre até hoje as consequências da invasão policial na aldeia e da violência física a qual foi submetida.
Depoimento do cacique Carlitos

Existe um grande interesse econômico em relação às terras devido ao avanço das plantações de cana-de-açúcar. A comunidade, cujo território ainda não foi demarcado, sobrevive de cestas básicas. “Não é isso que queremos”, nos explica Valmir Rodrigues, liderança local e enfermeiro. “Queremos oportunidade para trabalhar, um serviço e uma escola de qualidade, e a liberdade de ir e vir”.

Mães e filhos na aldeia Passo Pirajú (Fotos: Ir. Joana)










O processo contra Carlitos continua. Qualquer dia pode ser chamado para um júri popular. Na aldeia de Passo Pirajú não encontramos a alegria do acampamento Laranjeira Ñanderu, do dia anterior. A invasão da polícia e a passagem pela cadeia traumatizaram o povo de Passo Pirajú. Procuro lembrar o cacique, que em Dourados existe também uma cadeia para prefeito e vereadores... Consigo arrancar um largo sorriso no rosto de Carlitos. Quem ri por último...
Autor: Paulo Suess




ESCRAVIDÃO SEM DEMARCAÇÃO
É de cortar a alma,
Ouvir o cacique
De Passo Piraju,
Falar da escravidão
Em que os Kaiowá
Vivem hoje,
E do massacre de ontem!
“Alivio pro meu coração
Só com a demarcação!”
Diz Carlitos

Nos olhos as lágrimas contidas. Gestos fortes, expressões cortantes. Hoje como dantes a dor sem limites. Rastros da maldade e destruição. “Onde está a floresta?” exclama o cacique Carlitos. Sua fé e crença inabalável, lhe dão forças para atravessar esse mar de sofrimento, de sentir e ver sua comunidade na cadeia. A privação da liberdade de se locomover é a dor maior. Espremido em poucos hectares entre a cana e o rio Dourados, ele clama por terra para seu povo acampado em casebres rústicos. “Já acabou nossa paciência. Passou de todos os limites e prazos. Queremos nossa terra, nossa liberdade”, afirma indignadamente outra liderança da comunidade. Por mais de uma hora historiam a trajetória da invasão, da expulsão, da destruição para chegar à escravidão atual. Passo Piraju é hoje a situação mais contundente da chaga aberta por uma sociedade racista, de exclusão, discriminação, ódio e acumulação. Os índios Kaiowá são o testemunho incomodo da trajetória de destruição da natureza, confinamento dos nativos e amplos espaços para o gado, a soja, a cana...
Autor: Egon Heck

Missão contra omissão é luta e memória

Dia 19 de setembro a equipe do Cimi partiu de Campo Grande, MS, rumo ao II. Congresso Missionário do Regional Oeste 1, que se realizará entre os dias 24 e 26 de setembro em Dourados, MS. Os dias antes do Congresso foram reservados para conhecer a realidade indígena do Mato Grosso Sul. No município Rio Brilhante, encontramos a comunidade Laranjeira Ñhanderu, expulsa de sua terra e acampada na BR 163. Já é segunda vez que estou com eles e sempre fico impressionado com a alegria desse povo. Estamos cercados pelo asfalto, por arame farpado e por muitas crianças. No meio de grande penúria vivem uma alegria, uma tenacidade e uma esperança que vêm de sua cultura e se desdobra na dança, no canto e na reza. Prometi voltar para celebrar com eles a festa da retomada definitiva de sua terra. Missão contra omissão é luta e memória!
Autor: Paulo Suess
Foto (Egon Heck): Comunidade Kayová-Guarani Laranjeira Ñhanderu, Município Rio Brilhante, MS, BR 163, 19.9.2010.
“Os indígenas Guarani-Kaiowá e Guarani Ñandeva do Mato Grosso do Sul vivem em situação precária, com altos índices de violência, faltam assistência e acesso a serviços básicos de saúde e segurança” denuncia um relatório do Programa de Proteção aos Defensores dos Direitos Humanos. O vídeo “Alagados a beira da estrada” resume o conflito entre os direitos dos povos indígenas, o avanço do latifúndio e a morosidade da justiça.














Esperança na missão dos acampados
Viemos ao Mato Grosso do Sul não apenas para conferencias, animação da dimensão missionária com os povos indígenas no Segundo Congresso Missionário Regional Mato Grosso do Sul, mas viemos também para sempre de novo sentir, ver, ouvir e alimentar a esperança com os povos indígenas, em particular nas aldeias e acampamentos Kaiowá Guarani. Por isso estamos visitando várias realidades da região. A primeira parada foi no acampamento Laranjeira Nhanderu. Momento forte de celebração, da luta e esperança acampada, de um povo que irradia esperança, alegria e vida, mesmo espremido ha mais de um ano entre a cerca e o asfalto. Depois fomos ao acampamento Ita’y Ka’aguyrusu, no município de Douradina, donde o mesmo grupo já foi expulso, teve seus barracos queimados, mas para onde novamente retornou. Apesar das tensões diárias, esse povo vive com um sopro de esperança e com a certeza da vitória da terra e da vida. É gratificante e enriquecedor partilhar esses momentos de profunda fé e espiritualidade, disposição de luta e amor à terra, à vida, à liberdade. As crianças se balançando no cipó ou jogando futebol num campo improvisado, são a prova de que o “rio volta sempre a seu leito, apesar dos desvios impostos pelos grandes interesses”, lembra Paulo.
Dourados, inicio da Primavera de 2010
Autor: Egon Dionísio Heck (Coordenador regional do Cimi)

Nos trilhos do Vaticano II: os desafios dos povos indígenas e a presença pastoral da Igreja Católica

A Missão lembra um longo caminho percorrido. Hoje convoca os peregrinos para a construção de "uma Igreja autenticamente pobre, missionária e pascal" (Medellín V/15) que caminha junto aos pobres. Neles "reconhece a imagem de seu Fundador pobre e sofredor" (LG 8). Nessa caminhada, o Ressuscitado se revela como caminho novo.
A caminhada é configurada por múltiplas experiências. Caminho e Missão se confundem nessas experiências inseridas na história e no dia a dia dos contextos culturais. Experiências são históricas e contextuais. Não valem para todos, nem para sempre. Têm data de vencimento. A vida cresce, o mundo se transforma e o caminho percorrido faz mudar as perspectivas. Na caminhada se cruzam muitos caminhos. A caminhada desestrutura conceitos e representações herdados. O Evangelho desestabiliza as estruturas institucionais e mentais. Faz ver "o esplendor de Deus, que se reflete na face de Cristo (...) em vasos de barro" (2Co 4,6s.). Ser peregrino significa viver em estado de conversão.
Como pensar a Missão no mundo onde a miséria globalizada é um produto da civilização do mercado e da fartura de muita gente privilegiada?
Autor: Paulo Suess
Leia o artigo completo:

Defendendo os Rios da Amazônia: o Rio Xingu e contra a construção da hidrelétrica de Belo Monte

Novo vídeo de forma clara e didática sobre os impactos sociais, ambientais e econômicos da hidrelétrica de Belo Monte. O vídeo foi produzido pelo Movimento Xingu Vivo Para Sempre (MXVS).

Raimon Panikkar: morreu o místico do diálogo inter-religioso

No dia 26 de agosto de 2010, o místico, teólogo e filósofo Raimon Panikkar morreu em Tavertet (Barcelona) com 91 anos de idade. Filho de mãe católica e pai hindu, viveu a multidimensionalidade da vida antes de pensa-la teologicamente. Em 1946, foi ordenado sacerdote. A partir de 1955, viaja e vive na Índia. Em 1966 é nomeado professor da Harvard Divinity School e durante 20 anos vive ao mesmo tempo na Índia e nos Estados Unidos. Em seu pensamento se entrelaçam Oriente e Ocidente. Panikkar, que com seus mais de 80 livros sempre defendeu o diálogo entre povos e religiões, insiste que para conhecer uma cultura ela precisa ser vivida.
“Descansa em paz, querido Raimon Panikkar. Retornaste à paz do Uno depois de 91 anos de caminhar pela vida unificando o múltiplo”, escreve Juan Masiá, teólogo espanhol, jesuíta, no seu blog, 27-08-2010. [A tradução e fonte é da IHU On-Line].
E continua: “Descanse renascido no seio da Abba Mãe e Pai, que nos ensinaste a descobrir no “silêncio de Deus” (1966) e no “silêncio de Buda” (1996), no meio do “silêncio do mundo” (Prêmio espiritualidade, 1999). Tua vida foi e seguirá sendo “Ícone do mistério” (1998) para aqueles que contigo aprendemos, pelo teu modo de pensar, amar e crer, a presença inter-cultural e inter-religiosa, sempre palpável ao menos que elusiva, do mistério que tu qualificaste como “cosmoteândrico”, chave mística da experiência humana integral, experiência plena da vida” (2005). Graças por teu pensar fronteiriço, interrogador e hermenêutico. Graças por teu testemunho da pluralidade unificada: Catalunha e Índia, prajña e seny, corpo-espírito, masculino-feminino, temporal-eternidade, místico-política, ... e um grande etc de polaridades unidas. Graças por ter-nos ajudado a romper com todos os círculos fechados e viver em espirais abertas para o alto e para baixo: transcender ocidentalmente para cima e orientalmente para o fundo, com o olhar posto no mais além que vislumbravas no horizonte de Tavertet. Graças, Raimon, que teu exemplo nos ensine a saber viver.
Autor: Paulo Suess
Clique na frase "Saber viver saber morir" para assistir o video:


FADO COLONIAL - Chico Buarque e Ruy Guerra

Inovação pastoral da Igreja Católica: O Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

Este texto foi apresentado na Mesa Redonda: “Missões religiosas e povos indígenas no tempo presente” das “XIII Jornadas Internacionais sobre as Missões Jesuíticas. Fronteiras e identidades: povos indígenas e Missões religiosas”, organizadas pela Universidade Federal da Grande Dourados, Faculdade de Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em História, Linha de Pesquisa História Indígena, no dia 2 de setembro 2010.
Os benefícios da presença missionária para os projetos históricos dos povos indígenas podem ser avaliados pelo espaço que souberam criar para o reconhecimento e o protagonismo desses povos. Esta presença não é historicamente autônoma. Portanto, não pode ser inventariada separadamente do inter-relacionamento com outros atores e fatores de natureza política, econômica e sociocultural, que intervêm nos projetos de vida dos diferentes povos. Ao empenhar-se hoje na defesa do reconhecimento e do protagonismo dos povos indígenas, nas lutas pelo território e na costura de alianças de solidariedade, a Igreja Católica, através de seu braço pastoral, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi), procura resgatar não os povos indígenas de uma suposta distância salvífica, mas sua sobrevivência e seu bem-estar com a vida.
Autor: Paulo Suess